Os Melhores Filmes de 2025

Dos vampiros aos revolucionários, dos agentes secretos aos pais e mães preocupados, os destaques cinematográficos do ano

min de leitura

Em período marcado pelo cabo de guerra entre o Cinema como experiência sensorial e artística em contraste à fome de poder dos monopólios de Hollywood, o ano de 2025 viu cineastas consagrados de sua trupe alçando novos patamares de aclamação e ápice narrativo. O tema da paternidade e da maternidade foi motor para diversos filmes da temporada de premiações, de um revolucionário aposentado à uma mãe enlutada.

2025 foi também o momento de despedida de uma porção de figuras que moldaram a cultura, do surrealismo de David Lynch ao lado acolhedor de Rob Reiner. A atriz Diane Keaton, o ator Robert Redford, além de Gene Hackman, Val Kilmer, Michelle Trachtenberg, e a lista, infelizmente continua. O que permanece é sua Arte e seu impacto nas telonas. Abaixo, uma lista com Os Melhores Filmes de 2025.

Sucesso de Paul Thomas Anderson é imã para premiações, angariando honras em todas as cerimônias até aqui (Foto: Warner Bros.)

Essa estrada só leva a um lugar

Dono de uma das sequências mais eletrizantes do ano, o novo longa de Paul Thomas Anderson parece atravessar a tela e puxar vários dos fios narrativos da nossa própria realidade e moldá-los ao redor de uma história sobre família, comunidade e revolução. Uma Batalha Após a Outra é, como seu título já define, um épico de continuidade e perseverança em que tensão e risadas se unem para refletir o absurdo da modernidade. Estrelado por Leonardo DiCaprio e a estonteante Chase Infiniti (seus olhos!) como um duo desconexo de pai e filha sendo perseguidos por um passado revolucionário na forma de um Sean Penn completamente perturbado, é um filme tão tecnicamente bem executado e tempestivo que é difícil não enxergá-lo não apenas como o filme definitivo de 2025, mas talvez da década. – Gabriel Arruda 

Futuros imperfeitos

Assim como muitos outros anos, 2025 foi tempo de imaginar como será o futuro da raça humana e, entre apocalipses e distopias, o que vai restar da humanidade até lá. Em Extermínio: A Evolução, o cineasta Danny Boyle retorna ao mundo que criou em seu hit cult de 2002, capturando a beleza e o terror de um Reino Unido isolado do resto do mundo, em que um vírus mortal transformou grande parte da população em zumbis ensandecidos. Mesmo voltando à falar de temas de violência, o roteirista Alex Garland não perde a mão para falar também de amor – e como os dois frequentemente se entrelaçam. Tocante de formas que o Cinema de Terror nem sempre consegue ser, é um início incrivelmente auspicioso para a nova trilogia da série.

Enquanto isso, trabalhando dentro do sistema Hollywoodiano, o diretor Bong Joon-ho usa sua carta branca pós-Parasita em Mickey 17, uma inusitada ficção científica em que a mão de obra é tanto redundante quanto essencial. Como sempre, o diretor sul-coreano estende suas sensibilidades para capturar as grandes contradições do capitalismo e como elas erodem pouco a pouco a nossa humanidade. Robert Pattinson faz hora extra e interpreta tanto protagonista quanto coadjuvante em um papel que o cimenta como um dos esquisitões mais carismáticos de sua geração. – GA

Extermínio está de volta com o lançamento de Templo dos Ossos, desta vez sob o comando de Nia DaCosta (Foto: Sony Pictures Releasing)

Cinema analógico

É raro o ano em que podemos comparar um filme do Tom Cruise com uma produção da Marvel Studios, mas certamente há um ethos que une Missão: Impossível – O Acerto Final a Thunderbolts*. Filmes de ação com foco em efeitos práticos e stunt work elaborado, um é o final da grande e talvez última franquia de seu astro, enquanto o outro é um modesto e introspectivo drama lançado sob o guarda-chuva ainda imponente do MCU e que, mesmo com faturamento decepcionante, ainda conseguiu energizar sua fã-base mais do que qualquer outro dos títulos desse período. Mais além, ambos os filmes lidam com vilões que todos tivemos que enfrentar durante o ano: o vazio deixado pelo senso latente de que tudo já está perdido e ferramentas invasivas de inteligência artificial que vão lentamente erodindo nossa capacidade de distinguir o que é real do que não é. – GA

Comédia é pra rir

Com direção de Akiva Schaffer (Popstar: Sem Parar, Sem Limites) e estrelado por Liam Neeson, o reboot de Corra que a Polícia Vem Aí! poderia muito bem ter sido um desastre colossal numa época em que as comédias escrachadas estão infelizmente em falta. Porém, o longa de apenas 85 minutos sabe a quantidade exata de risadas que é capaz de proporcionar e honra hilariamente o legado do falecido Leslie Nielsen e seu instinto sobre-humano para nos fazer gargalhar. Neeson encarna o filho do detetive e, junto com Pamela Anderson e Paul Walter Hauser, faz uma sequência que, embora familiar, injeta vida nova na comédia cinematográfica. – GA

Liam Neeson e Pamela Anderson são um deleite na nova versão de The Naked Gun (Foto: Paramount Pictures)

Estratégias diferentes do streaming

Enquanto a Netflix cisma em querer acabar com a experiência cinematográfica, outras marcas ainda enxergam o valor de colocar seus filmes na tela grande. A AppleTV, por exemplo, não vê por que confinar Joseph Kosinski (Top Gun: Maverick) a um lançamento caseiro, fazendo a festa para F1: O Filme e garantindo que as audiências sejam capazes de apreciar a adrenalina do esporte mais veloz do mundo. Apesar de ser estrelado por um Brad Pitt praticamente sonâmbulo, o elenco coadjuvante segura as pontas e eleva a verdadeira estrela da produção: sua câmera. Kosinski flutua pelas pistas e conecta carros e pilotos com a mesma elegância com que capturou jatos de combate em 2022.

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, por outro lado, estreia sem pompa no serviço da vermelhinha e, apesar de exibir os talentos de seu diretor e roteirista em melhor forma, nos faz ansiar por um futuro alternativo onde as sequências do hit original de 2019 seriam melhor aproveitadas. Mesmo assim, Rian Johnson cria um mistérios elegante e esotérico para Benoit Blanc (Daniel Craig) que, junto do fiel padre Jud (um Josh O’Connor brilhante), busca responder perguntas essenciais à fé dos dois, produzindo a melhor dupla de protagonistas da trilogia até então. O elenco, composto por grandes nomes, está entre o mais fracos no entanto, apenas se destacando por Josh Brolin, Kerry Washington e a sempre maravilhosa Glenn Close. – GA


Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa-metragem foi a escolha oficial da Coreia do Sul para a edição do Oscar 2026 (Foto: Moho Film, KG Productions)

Um thriller sobre neoliberalismo

Distante do excesso barroco que consolidou o diretor sul-coreano Park Chan-wook, No Other Choice executa-se num registro calculado, onde a violência – quando aflorada –, surge como consequência inevitável, não como espetáculo. Esse encurralamento cuidadosamente arquitetado nasce de uma sensação de falsa liberdade, como se cada gesto já estivesse inscrito em um desfecho pré-determinado, anterior até mesmo ao primeiro ato.

Man-soo (interpretado por Lee Byung-hun) é o protagonista do longa-metragem, um operário demitido após 25 anos vinculado à uma mesma empresa. Para ele, a demissão não representa apenas um colapso material, mas a ruptura com o próprio sentido de existir. A austeridade da direção age como instrumento de tensão ética: as personagens não são apenas indivíduos submetidos a circunstâncias extremas, mas sujeitos que internalizam sistemas de poder, até confundi-los com vontade própria. Trata-se de um determinismo contemporâneo no qual a escolha é sempre ilusória – e não há absolvição possível nessa jornada de autoenganação. – Ayra Mori

O filme foi criado em 1983, ano em que o futebol feminino foi regulamentado no Brasil, e contou com participação de jogadores célebres da época no elenco – Casagrande, Pitta e Wladimir (Foto: Olympus Filme)

Ditadura, futebol feminino e sexo

Exibido de forma ampla nos cinemas brasileiros em 2025, após remasterização, Onda Nova (1983) regressa como sintoma histórico da ditadura militar. Censurado durante os Anos de Chumbo do país, o filme de Ícaro Martins e José Antonio Garcia expõe, desde sua gênese, um choque frontal com o projeto de normalização do período. Ao acompanhar as Gayvotas, time fictício de futebol feminino que desafia convenções de gênero e comportamento, o longa assume uma comédia de pulsão anárquica, marcada por excesso, ruído e desobediência formal – elementos que recusam deliberadamente qualquer pacto com o olhar dominante.

A remasterização, longe de suavizar essa insurgência, torna-a ainda mais evidente. Onda Nova não busca atualização simbólica para legitimar sua relevância, apenas insiste em existir no próprio tempo, preservando a indisciplina que move a comédia. Esse retorno tardio desloca a discussão sobre o regime militar para o presente, revelando o quanto ainda desestabiliza um cinema que não se explica, não se justifica e não domestica suas tensões – e que, justamente por isso, continua politicamente vivo. – AM


Ryan Coogler dirige um épico de terror com música (Foto: Warner Bros.)

Rogai por nós, Pecadores

Existem alguns filmes que, assim que você sai da sala do cinema, você pensa: “Caraca, que bom que esse aqui eu assisti nessa telona”. Pecadores traz exatamente essa sensação. Ele não te faz apenas amar a obra em si, com sua narrativa e seus personagens. Ele te faz amar a experiência de assisti-la em uma sala de cinema enquanto toda aquela história se desenrola na sua frente e te engole por inteiro, com um som explosivo e uma imagem gigante. Nesse caso, o som são gritos de terror e a imagem são pessoas cobertas de sangue fugindo desesperadas de vampiros.  

Na tela, um carnaval de estrelas: Michael B. Jordan se duplica e vira Fumaça e Fuligem, Smoke e Stack, irmãos gêmeos que orientam, mas não comandam, a história; Hailee Steinfeld e Wunmi Mosaku, seus respectivos pares românticos – e mais, bem mais que isso; Jack O’Connell é o vilão carismático e sorridente, o vampiro Remmick; no apoio, Jayme Lawson, Li Jun Li, Thomas Pang, Omar Benson Miller e o gigantesco Delroy Lindo. Citar seus nomes é necessário porque, entre os tantos méritos do filme, é a desenvoltura do seu elenco em dar vida aos seus personagens que pega o espectador pelo pescoço. 

No entanto, escondido nos pôsteres de divulgação, Miles Caton invoca tudo aquilo que Pecadores tem de melhor: a ingenuidade de Sammie, a resistência em assimilar o embranquecimento de sua cultura e, claro, a performance majestosa da melhor cena do ano, cantando “I Lied To You” com presente, passado e futuro se interligando e se comunicando através da música. Ryan Coogler faz tudo isso e muito mais. Ele traz uma nova interpretação do vampirismo e potencializa discussões sobre colonialismo e ancestralidade, ao mesmo tempo em que entrega poderosas sequências musicais e um epílogo delicioso. – Caroline Campos

O luto sufoca e assusta em Faça Ela Voltar (Foto: A24)

Os gritos estridentes do terror de 2025

Não é fácil cortar uma pequena fatia de um gênero que entrega anualmente um festival de criatividade e de contação de histórias. Entre templos de ossos, investigações paranormais e bonecas-robôs assassinas, o cinema de terror se reinventa, recicla, atualiza e inova. Esse ano, não foi diferente.

A adaptação do livro The Long Walk, escrito por Stephen King ainda sob o pseudônimo de Richard Bachman, se tornou no Brasil A Longa Marcha e ainda ganhou um complemento: Caminhe ou Morra – bem direto, diga-se de passagem. Dirigida por Francis Lawrence, a história se passa em um futuro autoritário que transforma jovens meninos em peões do próprio sistema, usados como bandeira de um país decadente. 

O seleto grupo de personagens principais tem química o suficiente para deixar qualquer filme de romance com inveja, mas é a dupla formada por Cooper Hoffman e David Jonsson que acende a longa trilha de pólvora que nos acompanha durante a caminhada e vem a explodir em um clímax de doer o coração. 

E por falar em corações estilhaçados, Faça Ela Voltar sabe muito bem borrar a linha entre o grito de agonia e a choradeira inconformada. Apesar de ser encabeçado com louvor pela força de Sally Hawkins, os jovens Sora Wong, Jonah Wren Phillips e Billy Barratt encadeiam a trama e elevam o nível do gore e do desconforto. Phillips em especial transita entre camadas cada vez mais subversivas, pulando com competência entre uma criança presa na nave de Alien – O Oitavo Passageiro e um caso especial para o padre Damien Karras de O Exorcista

Amy Madigan venceu o Critics Choice pela Atuação Coadjuvante em A Hora do Mal (Foto: Warner Bros.)

A temática do luto, inclusive, não é novidade para os diretores Danny e Michael Philippou, também responsáveis pelo enérgico Fale Comigo, de 2022. Aqui, no entanto, o sentimento se torna um grande monstro, disposto a devorar e ser devorado, levando todos consigo. E é exatamente o que ele faz. 

Por fim, uma surpresa querida e polêmica. A Hora do Mal, tradução de Weapons, engata uma narrativa blocada, separada por pontos de vista que, gradualmente, respondem à pergunta principal: onde estão as crianças da sala da professora Gandy? Nem mesmo a melhor das teorias chega aos pés do que o roteiro mirabolante do também diretor Zach Cregger inventa. Assim que a tensão-meio-cômica-meio-desconfortável entra em contato com a violência-escancarada-mas-também-meio-cômica-meio-desconfortável, o resultado não podia ser outro: diversão pura e horrorizada. 

A tia Gladys de Amy Madigan é a cereja do bolo, coroando toda essa narrativa escandalosa com uma personagem que entrou com pouco esforço para o panteão de grandes figuras do gênero. E, roubando a cena para si, o pequeno Cary Christopher acompanha Madigan com muita garra, conseguindo se destacar em um filme cheio de linhas temporais e personagens malucos. A fórmula tinha tudo para dar errado, mas a bagunça de Cregger é tão viciante que não tem quem saia ileso. – CC


Valor Sentimental foi indicado em nove categorias no Oscar 2026 (Foto: Neon)

Joachim Trier encontra Valor Sentimental no mundano

Charli xcx piscou nos telões do Coachella: Joachim Trier summer, e, como quase sempre, o olhar apurado da artista estava certo. O diretor norueguês marca 2025 com Sentimental Value, um longa sobre “nada” que, na verdade, fala sobre tudo.

Da casa tradicional da família, marcada por um beijo de despedida de uma mãe seguido por um suicídio, a uma renovação moderna e minimalista, Trier conta uma história sobre pais, filhos, irmãos e o quanto de nós somos nós versus o quanto de nós somos o que não queremos ser em relação ao que herdamos de nossos pais e familiares.

Valor Sentimental traz um diretor renomado (Gustav Borg por Stellan Skarsgård) que quer fazer um filme para voltar aos holofotes e deseja que sua filha mais velha atriz (Nora Borg por Renate Reinsve) faça o papel de sua própria mãe. Na recusa, Rachel Kemp, uma jovem atriz estadunidense interpretada por Elle Fanning, toma seu lugar na tentativa de cumprir a missão.

Não demora para Rachel perceber que Gustav espera sua metamorfose em uma imitação de Nora, e as camadas pessoais e ficcionais da produção de Borg começam a ficar indistinguíveis. Trier fascina pela capacidade em arquitetar interações entre as personagens tão reais e acreditáveis que, naquelas um pouco mais de duas horas, o pequeno mundo da família é o único que importa. Uma mágoa reprimida preenche a tela, enquanto a vontade de pedir perdão e perdoar escorre pelos cantos, num conto tão antigo quanto o tempo sobre laços de sangue, egoísmo e amor incondicional. – João Arnaldo Brunhara

Ney colaborou diretamente na produção, que retrata fatos verdadeiros de sua vida com liberdade artística (Foto: Paris Filmes)

Homem com H, por Esmir Filho, pega e come o bicho

Ney Matogrosso tirou a sorte grande em ser homenageado ainda em vida com uma cinebiografia babadeira. Com Jesuíta Barbosa incorporado e extraordinário no papel, Homem com H remonta a vida de Ney em fragmentos. Acompanhamos uma infância conturbada por um pai militar preconceituoso e agressivo, a saída de casa, os anos na aeronáutica e, finalmente, o encontro com o poder da arte.

A história do artista parece que estava prometida para ser imortalizada na ficção, com a representação de um homem queer sem medo e sem nada a perder, de voz fina e músculos fortes. Esmir Filho realiza com êxito um projeto ambicioso, nunca condenando com a caricatice, por meio de uma narrativa que celebra Ney enquanto personalidade, força política e casa de máquinas cultural. É maravilhoso de se assistir uma vida bem vivida, o erotismo enquanto libertação e a celebração da sexualidade sem censura. Que honra é Matogrosso ser brasileiro, mas, em toda sua glória, não poderia ser fruto de nenhum outro lugar. – JAB


Sucesso em Cannes, no Critics Choice e no Globo de Ouro, o longa de KMF trouxe aclamação para o Brasil (Foto: Vitrine Filmes)

A importância da memória

O Melhor Filme em Língua Não Inglesa – ou como costumamos dizer no Brasil, apenas Melhor Filme. De Cannes ao Critics Choice ao Globo de Ouro, O Agente Secreto fez história no circuito de festivais e premiações até aqui. O longa conta a história de Marcelo (o premiado Wagner Moura), um professor universitário que, em tempos de ditadura militar, busca os documentos de sua falecida mãe nos registros de Recife. Tudo isso enquanto está jurado de morte e precisa escapar do país junto do filho.

Apesar do destaque de Moura no papel do agente secreto e a direção de Kleber Mendonça Filho, que cria uma Recife faroestiana, com direto a pistoleiros, tubarão e uma perna cabeluda, Dona Sebastiana (Tânia Maria) rouba a cena. Ela nunca te contará o que fez na Itália, mas, sob seu teto, todos os fugitivos ganham um novo lar.

O filme Annemarie Jacir foi a submissão palestina ao Oscar 2026 (Foto: Curzon Artificial Eye)

Do Brasil para a Palestina, outro longa que reforça a importância de se manter a memória viva. Palestina 36 chegou às telas brasileiras pela 49ª Mostra de Cinema em São Paulo. Voltando ao ano de 1936, o filme dirigido por Annemarie Jacir relembra quando imigrantes judeus, fugido do antissemitismo na Europa, ocuparam terras palestinas. Tudo parece pacífico a princípio, até que a colonização judaica e a conivência do Império Britânico roubam as rédeas do futuro de um povo ancestral em sua terra.

Ressoando diretamente com os conflitos atuais, o longa-metragem foca em Yusuf, um jovem dividido entre as ruas agitadas de Jerusalém, onde os conflitos políticos são discutidos à mesa, e a zona rural, onde as decisões de magistrados de terno resultam em mortes e expulsões de homens, mulheres e crianças palestinas de suas casas. – Vitória Gomez

Depois de Past Lives, Celine Song retorna mais cínica com Materialists (Foto: A24)

Vale tudo no amor?

Até onde você iria para encontrar o amor? Quem sabe uma casamenteira profissional? Essa é Lucy (Dakota Johnson), que acredita que encontrou a fórmula perfeita para, de date em date, chegar ao amor. Basta juntar gostos em comum, características físicas, histórico familiar e acadêmico semelhante… e voilà: temos o casal perfeito. Mas e quando a fórmula não se aplica a ela mesma? 

O conflito é simples. Lucy está dividida entre Harry (Pedro Pascal) e John (Chris Evans). O primeiro vem de uma família rica, é estável, bem-sucedido e faria de tudo por ela. O match perfeito, segundo seu feeling de casamenteira. O segundo é um ator mal-sucedido e instável que mal consegue pagar as contas. Um desastre anunciado. A escolha seria óbvia… mas de amor materialista o filme só tem o nome. 

Em Amores Materialistas, Celine Song (de Vidas Passadas) volta a refletir sobre a construção e desconstrução do amor romântico, dessa vez em tempos de capitalismo, disparidades sociais e listas de prós e contras. – VG


Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito disputou o Globo de Ouro, mas não foi páreo para as Guerreiras do K-Pop (Foto: Sony Pictures)

O que não falta é conteúdo para os caçadores de demônios

Incontestavelmente um dos maiores fenômenos de 2025, Guerreiras do K-Pop foi a nova empreitada da Sony Pictures Animation e a segunda parceria do estúdio com a Netflix. Surfando em uma das principais tendências da última década, mas com um trabalho único e 100% original, a resposta não poderia ser outra: o longa-metragem se tornou o conteúdo mais assistido da história do streaming, sua trilha sonora acumula recordes nas paradas musicais e a vitória no Oscar 2026 em Melhor Animação e Melhor Canção Original parece quase certa.

Enquanto a rivalidade das HUNTR/X com uma boyband de demônios ficou limitada às telas residenciais, o lançamento de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito nos cinemas rendeu a maior bilheteria internacional da história dos EUA e a quinta mais lucrativa internacionalmente em 2025. Adaptando o principal arco do mangá e funcionando como um compilado de episódios do anime, o longa-metragem foi exibido em IMAX e impressionou pela mescla orgânica e já prestigiada de técnicas em 2D e efeitos visuais em 3D. – Enrico Souto

Zootopia 2 fez números exorbitantes de bilheteria e já entrou para a lista histórica de lucro no Cinema (Foto: Disney)

Em defesa das (boas) sequências

Existe um efeito manada — e até certo ponto fundamentado — de julgar qualquer sequência de um filme aclamado como preguiçosa e desnecessária. Mas a verdade é que, com um bom material base, que entende os méritos da obra original e está disposto a pensar fora da caixa e correr riscos, uma sequência pode render belos frutos.

No universo das animações, Os Caras Malvados 2 talvez seja o exemplo perfeito. A nova aventura da gangue de criminosos furries eleva os elementos do seu antecessor à enésima potência, desafiando gradativamente o próprio limite de crível para criar as sequências de ação mais criativas e bizarramente descabidas. Cada nova cena vira um cálculo interno para tentar adivinhar o que vão inventar desta vez. E mesmo assim, você é sempre surpreendido. Para os artistas da DreamWorks, nem a imaginação é o limite.

Agora, a Disney vai aprender a lição com o triunfo de Zootopia 2? Dificilmente. Mas não é por acaso que o filme se conectou tanto com o público e conquistou a maior arrecadação de uma animação de Hollywood: uma premissa instigante e uma narrativa que respeita seus personagens é tudo o que você precisa. E mesmo assim, o longa não chegou perto de alcançar a animação chinesa Ne Zha 2: a maior bilheteria do ano e que, mesmo com aclamação da crítica, foi deliberadamente esnobada em todas as premiações norte-americanas. – ES


A Melhor Mãe do Mundo teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2025 (Foto: Biônica Filmes) 

Quando a carroça vira o único castelo possível 

Depois de dissecar as relações de classe em Que Horas Ela Volta?, a diretora Anna Muylaert retorna em 2025 com uma obra que é, simultaneamente, um soco no estômago e um abraço constrito. A Melhor Mãe do Mundo não pede licença para expor a ferida aberta da violência doméstica e do abandono estatal, mas escolhe narrar essa tragédia através do filtro da fantasia e da resistência. A história de Gal (uma Shirley Cruz monumental), catadora que transforma sua carroça de reciclagem em um “navio” para proteger os filhos da realidade brutal de uma fuga, é o cinema brasileiro em sua melhor forma: político sem ser panfletário, e dolorosamente humano.

O filme se equilibra na linha tênue entre o neorrealismo das ruas de São Paulo e a magia do olhar infantil. Muylaert evita a estetização da miséria ao focar na dignidade de sua protagonista. Gal não é uma vítima passiva; ela é uma estrategista da sobrevivência. A decisão de mascarar a situação de rua como uma “grande aventura” para as crianças evoca ecos de A Vida é Bela, mas com uma cor local inconfundível. É uma ode às mães solo que, diariamente, precisam inventar mundos novos porque o real se tornou inabitável.

Mas o filme pertence a Shirley Cruz. Sua atuação é um tour de forças de contenção e explosão, transmitindo o peso do mundo em um simples olhar cansado e a leveza do amor materno em um sorriso forçado. O elenco de apoio, com destaque para a participação precisa de Seu Jorge e a estreia luminosa de Luedji Luna, enriquece a trama, mas é a química entre Gal e seus filhos que ancora o espectador. A Melhor Mãe do Mundo nos lembra que, em um país que insiste em tornar certas vidas invisíveis, o ato de existir, e insistir na alegria, é a maior de todas as revoluções. – Vinícius Rodrigues


A fantástica dupla formada por Keke Palmer e SZA (Foto: Sony Pictures Releasing)

Um Dia Daqueles

É difícil começar um ano novo como uma página em branco. Ainda carregamos tanto do que passou. Bem gostaríamos que na virada, magicamente, tudo se renovasse deixando só as coisas boas. Nesse caso, as melhores. Mas não é assim que as coisas funcionam. Tudo parece caminhar com uma dupla face, um potencializador antagônico que, justamente, faz com que as coisas boas passem a ser as melhores. Sejam fases em que precisávamos daquilo, a forma como cada pedaço da Arte nos toca em lugares sensíveis, o que nos completa, nos complementa e nos transborda.

Na infinita Fibonacci dos sentimentos entre luto, raiva, amor, ternura, fé, alegria e entusiasmo, a proporção perfeita na composição entre nós e a Arte é o que torna especial a memória que construímos com ela. Na Sétima Arte, conseguimos representar microcosmos do que constrói a vida e a sociedade em infinitas possibilidades. Aqui, nessa lista, trouxe algumas representações do quão dúbia, sufocante, confusa e paralisante a vida pode ser. Ao mesmo tempo que linda, emocionante, esperançosa e significativa.

Quem espera que a vida esteja toda encaminhada no auge de seus vinte e poucos anos não é maluco. Muito pelo contrário, é o que esperamos de nós e o que a sociedade também cobra. Quanto antes melhor, inclusive. Em Um Dia Daqueles, nossas meninas (Keke Palmer e SZA) precisam desesperadamente pagar o aluguel com o prazo de um dia. Esse é um dia daqueles. Se em um mês já ficamos apertados imagina o que faríamos para conseguir tudo em um dia. Com compromissos paralelos, conflitos e brigas dignas de filmes de ação — ok, aqui eu exagerei um pouco. Nos respiros, conhecemos melhor suas nuances, a beleza de suas vidas e vocações que só puderam florescer na adversidade. É além de tudo esperançoso e revigorante, apressado e consequentemente nos faz olhar com mais calma para o mundo. – Henrique Marinhos

Pelo papel, Byrne venceu o Globo de Ouro de Atriz em Comédia ou Musical (Foto: A24)

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Apesar de estar listado em categorias de comédia, de engraçado só tem o título. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria nos apresenta Rose Byrne como Linda, uma mulher que precisa de um descanso. O filme escala de tal forma ao mostrar as tantas formas que a protagonista está sobrecarregada. Em sua vida profissional, conjugal, a maternidade, sem lazer, sem um segundo de descanso ou qualquer estabilidade. Mesmo que esteja no fundo do poço, sentimos que sempre pode piorar.

Frequentemente lembramos que viver também é habitar espaços de restrição e infelizmente esses são quase todos os espaços que Linda habita. Nesse cenário, isso nos lembra como somos moldados pelo que nos é proibido, pelos enquadramentos que nos impõem e pela angústia de ter uma voz que precisa ser modulada para sobreviver. O filme nos lembra que a existência é feita tanto de presenças quanto de ausências forçadas, e que a dor mais profunda às vezes é aquela que não tem permissão para aparecer na tela, por que é preciso seguir em frente. – HM

O Último Azul venceu o Urso de Prata em Berlim 2025 (Foto: Vitrine Filmes)

O Último Azul

Se nas obras anteriores a angústia vinha da pressa do início ou da exaustão do meio, em O Último Azul, o diretor Gabriel Mascaro nos confronta com o peso do fim e com a insurreição que pode haver nele. Aqui, a distopia reside na burocracia úmida de uma Amazônia industrializada onde a humanidade tem prazo de validade.

Denise Weinberg interpreta Tereza, uma mulher em estado de graça, com o olhar carregado que aos 77 anos recebe a notificação de seu exílio compulsório e a certeza de que não tem mais nada a perder. O filme navega entre o grotesco e o sublime. A fotografia contrasta o cinza do concreto que invade a floresta com o tal último azul, seja nas águas, no céu ou na onírica baba do caracol. A jornada de Tereza reivindica a vida até o último segundo e as companhias que cruzam seu caminho a fazem valer a pena. – HM


Better Man – A História de Robbie Williams foi indicado ao Oscar 2025 na categoria de Efeitos Visuais, mas perdeu para Duna: Parte 2 (Foto: Paramount Pictures)

Os remanescentes impossíveis de ignorar

Com a atrasada distribuição de lançamentos no Brasil, é costumeiro falar de filmes da safra anterior num texto que compila os destaques cinematográficos. Em 2025, não foi diferente. Entre indicados e vencedores das premiações de inverno, merecem os louros produções que abraçaram o lúdico (Memórias de um Caracol), simplificaram um problemão (Wallace & Gromit: Avengança), passaram dos livros para as telas com maestria e punção de justiça (Nickey Boys), trouxeram o terror medieval em novas lentes (A Garota da Agulha) e reinventaram a roda com bom humor e ousadia (Better Man). Há, também, uma produção canadense que passou despercebida pela audiência nacional: Red Rooms: Obsessão Doentia (ou Les chambres rouges), um suspense psicológico que remedia todas as feridas e alucinações que a onda de true crime propagou nos espectadores. – Vitor Evangelista

Eva Victor pede perdão a um recém-nascido

Em Sorry, Baby, sucesso de Sundance que chegou aqui pela Mostra de SP e indicou a atriz-diretora-roteirista Eva Victor a alguns poucos prêmios, uma mulher precisa de tempo para lidar com o trauma que a moldou. Sagaz e mordaz, a dramédia que se inclina mais para as lágrimas brinda o Cinema independente americano, com performances marcantes de Naomi Ackie e John Carroll Lynch. – VE

Mãos ao alto

À Paisana seguiu o mesmo trajeto: Sundance e então Mostra de São Paulo, num claustrofóbico conto de desejo e culpa. Dirigido por Carmen Emmi, a história segue um policial que se apaixona por um dos homens que caça, na incessante histeria homofóbica da década de noventa. Tom Blyth se emudece e some em cena, agraciado pelos traços hercúleos de um Russell Tovey irresistível em suas diversas seduções e promessas. – VE

O romance proibido de Plainclothes é amedrontador (Foto: Magnolia Pictures)

E na temporada de prêmios

Incompreendido, Depois da Caçada coloca Luca Guadagnino num delicioso jogo de gato e rato sem apontamento de culpas. Ao melhor estilo de filme que passaria no SuperCine depois de uma noite qualquer na Rede Globo, o drama traz Julia Roberts (indicada ao Globo de Ouro) amenizando o clima de guerra entre sua aluna querida (Ayo Edebiri) e o professor a quem ela acusa de assédio (papel de Andrew Garfield). Não espere que o tribunal assinale culpa ou inocência, pois o X da questão está longe da resolução, com o diretor italiano apostando todas suas fichas no imbróglio cinzento que se forma ao redor de qualquer tempestade. 

Reconhecido pela atuação magnética de Ethan Hawke nos principais precursores do Oscar, Blue Moon dá vida aos últimos anos do compositor Lorenz Hartz, que se esconde num bar na noite em que seu antigo parceiro de carreira estreia um musical ao lado de outro alguém. Com culpa, remorso e arrependimento para dar e vender, Richard Linklater concretiza a promessa ao seu ator predileto e nos oferece um banquete.

Palma de Ouro em Cannes, o iraniano Jafar Panahi enfrentou dificuldades e percalços dignos da ficção em Foi Apenas um Acidente, um testemunho da violência do governo de seu país natal. Ao narrar o percurso de um grupo de antigos prisioneiros que dão de cara com seu capataz, o drama submetido pela França ao Oscar é cheio de momentos tenebrosos de cicatrizes e medos impossíveis de serem curados. – VE

Matheus Marchetti recria SP sob ótica do desejo e da ilusão (Foto: Cine Reviva)

Quando a cidade é refúgio & armadilha

No Brasil, dois lançamentos de veias distintas, mas de coração semelhante, trataram das mazelas e dos prazeres da metrópole: em Kasa Branca, o diretor Luciano Vidigal acompanha um grupo de amigos que cuidam da avó doente enquanto procuram seu lugar no mundo. Ancorado na performance de Big Jaum, a comédia pende para um retrato naturalista e comedido.

Mas é em Labirinto dos Garotos Perdidos, escrito e dirigido por Matheus Marchetti, que São Paulo ganha contornos mitológicos e, em meio a assassinatos e encontros marcados na calada da noite, o protagonista desvenda mistérios que só o sangue e o suor da paixão são capazes de começar a definir. É Cinema queer feito às tripas e ao coração, com pitadas deliciosas de terror, suspense, sensualidade e pertencimento. – VE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *