Criado nos anos sessenta, o personagem Wonder Man chegou ao Brasil sendo chamado de Magnum. Principalmente por uma estratégia de localização editorial e para evitar confusões de marca, afinal a concorrente DC ostentava a Mulher-Maravilha. A tradução direta para “Homem-Maravilha” soava pouco atraente e comercial para os editores brasileiros na época de sua introdução, o que se manteve presente na série de 2026 no Disney+.
Para quem perdeu o lançamento único dos oito episódios, provavelmente passou batido pela divulgação da Marvel… Ou melhor, provavelmente não viu prévias, trailers, ou criação de expectativa. Depois de Coração de Ferro e Olhos de Wakanda, Wonder Man é a terceira produção centrada em personagens não-brancos que foi passada para trás pela equipe de marketing da empresa. No final de janeiro, a audiência foi apresentada a um ator de poucos papéis e muitas angústias, respondendo ao nome de Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II).

Destin Daniel Cretton (Shang-Chi e o vindouro Homem-Aranha 4) e Andrew Guest (30 Rock, Community e B99) são os criadores da produção, que deixa de lado as capas e os raios flamejantes para focar na vida cotidiana de um ator inserido dentro do mundo do MCU. Ao ser despedido de sua pontinha na nova temporada de American Horror Story, Simon vai ao cinema ver um filme antigo e esbarra com Trevor Slattery (Ben Kingsley), notório por interpretar o Mandarim na farsa de Homem de Ferro 3, e um dos coadjuvantes inesperados de A Lenda dos Dez Anéis.
A dupla cria uma conexão depois das audições do novo filme de herói do momento, uma versão de Wonder Man dirigida pelo lendário Von Kovak (Zlatko Burić, de Triângulo da Tristeza e Superman). Simon lê para o papel protagonista, e Trevor faz o teste para o escudeiro fiel Barnaby. O que começa como uma parceria inusitada logo ganha contornos de afeição e camaradagem, características estrangeiras a Simon, que cresceu sozinho e sentindo muito a morte do pai, a pessoa que o apresentou ao personagem tantos anos atrás.

Trevor, porém, está sendo cooptado pelo governo, aqui representado pelo agente P. Cleary (Arian Moayed, de Succession), que aparece no MCU em respingos desde Ms. Marvel. O plano é desvendar a periculosidade de Simon, um homem que pode ter poderes e, pior ainda, não conseguir domá-los. Na infância, um incidente na cozinha de casa gerou consequências graves, que nem a mãe Martha (Shola Adewusi, de Chewing Gum) nem o irmão Eric (Demetrius Grosse) querem detalhar quando Trevor visita a casa da senhora, na celebração de seu aniversário.
Em episódios de meia-hora, Magnum flexiona os músculos cômicos da Marvel e mistura o ar jocoso de O Estúdio com os percalços angelinos de Insecure, a pegada surreal de Atlanta e as inspirações urbanas que fizeram de Luke Cage e Jessica Jones, na Netflix, exemplares tão sagazes e assertivos do poder do Universo Cinematográfico para além do liquidificador de referências e piadas esperadas e repetidas.
Com requinte técnico que parte da perniciosa iluminação e chega até os movimentos flutuantes das câmeras, há floreio e bastante liberdade criativa, brincando inclusive com celebridades que interpretam versões histriônicas delas mesmas. Joe Pantoliano é o soberbo rival antigo de Trevor; Josh Gad é vital no quarto episódio da temporada; Ashley Greene é parabenizada pela saga Crepúsculo antes de Simon receber a demissão de AHS; e Mario López apresenta as notícias da cultura pop. Como a jornalista do Times incumbida de escrever sobre a dupla, Lauren Weedman (a prefeita safada de Hacks), dá um show de ironia e instigação.

Em Doorman, quarto episódio de Magnum, a série troca a cor pela lente B&W ao contar a ascensão e queda de DeMarr Davis (Byron Bowers), porteiro do Wilcox Club que acaba exposto a uma gosma misteriosa que lhe dá poderes. Enquanto a fama, os contratos e o dinheiro entram, ele se afunda e chega ao fundo do poço quando afeta J-Gad, seu amigo e parceiro de cena. Temeroso que o mesmo possa acontecer com ele se descobrirem seus poderes, Simon esconde o temperamento da melhor maneira que pode.
A ideia para Wonder Man surgiu na pré-produção de Shang-Chi, com a vontade de Creston em explorar o personagem de Ben Kingsley. Em papo com as demais cabeças pensantes da Marvel, um rascunho de projeto sobre Simon Williams acabou agregando e dando origem à Magnum. De lá para cá, a Marvel passou por reestruturações e quase deixou a série ir para o ralo.

Entre greves e cortes de gastos na nova gestão, Wonder Man perigou servir de bode expiatório para os fracassos retumbantes do estúdio. A temporada chegou à metade das gravações quando a paralisação do SAG e do WGA trancafiou os estúdios de Hollywood. Tantos meses depois, foram Creston e Guest que não abriram mão do projeto, e fizeram-no continuar nos planos do Universo Cinematográfico, embora aqui apareça sob o emblema da Marvel Television com a etiqueta de Spotlight, dedicada aos personagens emergentes e menos populares.
Mas Wonder Man não passou isento de problemas: J.C. “Spike” Osorio, técnico de iluminação, morreu durante o trabalho de produção no set do Radford Studio Center em 6 de fevereiro, após cair das vigas. A Disney e o RSC foram multados em US$ 36 mil e US$ 45 mil após a investigação concluir que a passarela deteriorada causou a morte de Osorio.
Para dirigir os oito episódios, quatro diretores revezaram-se na cadeira. Além do próprio Destin Daniel Cretton, responsável pela estreia e pelo episódio 2, estiveram envolvidos Tiffany Johnson (Black Monday e Cara Gente Branca), Stella Meghie (Tudo e Todas as Coisas) e James Ponsoldt (Daisy Jones & The Six e Falando a Real). Os esforços de mergulhar na vida atribulada do ator, tanto aquele novato quanto o veterano, valeram-se num exercício de meta-ficção inserido no MCU e à par de suas limitações e de suas esperanças.


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