2ª temporada de Fallout tem um problema robótico

Abraçando o pessimismo como salvação primária, série do Prime Video mergulha fundo na mitologia fatalista

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Como drama pulp de caráter popular, Fallout precisa, antes de mais nada, organizar seus núcleos e suas linhas temporais com calma e coesão. A segunda temporada sua na tarefa, mas encontra o compasso na metade da jornada, quando Lucy (Ella Purnell) e o Ghoul (Walton Goggins) acertam suas diferenças rumo à cidade do pecado.

Sem um videogame único para readequar às telas do Prime Video, Fallout cadencia a liberdade criativa com elementos de diversas versões de sua base. Surge Robert House (Justin Theroux), magnata que faz de New Vegas sua sede de poder – possuindo a moeda de troca que dará início ao apocalipse.

Na entediante dinâmica da Legião e suas armas tecnológicas, Maximus (Aaron Moten) precisa de emancipação para alcançar o potencial da primeira temporada [Foto: Prime Video]

Goggins ganha amplitude na espelhada jornada do Ghoul e de Cooper Howard, sua contraparte humana que mantinha os mesmos ares de inocência e justiça que Lucy cultiva no tempo presente. Quando se distancia da politicagem da Legião e suas máquinas mortíferas, a temporada demonstra o potencial que apenas algo tão desvairado como Fallout, na mistura dos guerreiros greco-romanos com monstros diabólicos, é capaz de fazer.

Nos confins dos Refúgios, a população de cidadãos desavisados às tramóias de Hank (Kyle MacLachlan) mantém uma vida de supérfluas cerimônias, com direito à clube de lanches. Mas é Norm (Moises Arias), irmão de Lucy, quem aceita a carapuça de mártir e salvador. Aos poucos descobrindo o que a audiência já tem ciência, o jovem precisa contornar o corporativismo que infectou o mundo da superfície. E, no caminho, matar baratas gigantescas.

Como a misteriosa e perigosa Steph, a atriz Annabel O’Hagan se esbalda na vilania e enfrenta o poderio cômico de Leslie Uggams, a supervisora do refúgio ao lado (Foto: Prime Video)

Menos luxuosa do que em seu ano anterior, Fallout valida sua assinatura farsesca e caricatural neste mundo cheio de referências, inspirações e motivos para crer no pessimismo. Lucy entende que, talvez, a liberdade e a justiça só sejam possíveis com a mão de ferro que tanto tentou ignorar e derrotar. O Ghoul, em toda sua rabugice e impaciência, entende como o mundo gira e, prevendo as tragédias muito antes delas se concretizarem, transmite o olhar para os sobreviventes remanescentes. 

No elenco de apoio, a série recupera a performance de Dale Dickey e adiciona ao mix participações comedidas, mas eficazes, de Macaulay Culkin e Jon Gries. Destacando-se pelos motivos errados, a chegada do líder vivido por Kumail Nanjiani mais atrapalha do que agrega à trama. 

Lucy troca o macacão azul por um vestido amarelo que, como tudo na segunda temporada de Fallout, indica sua posição como rebelde e disposta a levar o pai à justiça (Foto: Prime Video)

Ao transpor questões de ética e moral para o cenário devastado da América, Fallout encontra um terreno mais do que fértil. Na comparação direta entre Ghoul e Lucy, com a certeza que seus intérpretes darão conta do recado, especialmente no que circunda as questões familiares, sobra espaço para um jogo digno da cidade do pecado: com apostas altas, grandes riscos e aquele frio na barriga de quem pode, num piscar de olhos, saltar em direção ao desconhecido.

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