2ª temporada de Treta troca subitamente seu estado de espírito 

Carey Mulligan e Oscar Isaac encabeçam nova história da antologia da Netflix

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A rixa que alimenta a 2ª temporada de Treta (Beef) é inversamente simétrica à do ano inicial. Se antes vimos uma dupla de desconhecidos que entrou em guerra por banalidades, agora é hora de encarar situações extremas com percepções levianas. São três os casais da vez, cada qual em uma fase distinta da vida.

Josh (Oscar Isaac) é gerente de um clube de veraneio e bem-estar para os ricos e privilegiados. Ele ajuda os hóspedes, entre famosos reais como Michael Phelps e Finneas, até o fictício endinheirado vivido por William Fichtner; porém, sua vida é vazia, cheia de dívidas e ressentimento por não ter estado presente na morte da mãe. Sua mulher, Lindsay (Carey Mulligan), carrega rancores ancestrais, desde as rugas que aparecem quando comparadas às esposas-troféus do clube, caso de Ava (papel de Mikaela Hoover, a Cat Grant de Superman).

O conflito de Beef se inicia com um vídeo mostrando uma briga entre Josh e Lindsay, mas a série logo abandona a tensão e a chantagem e parte para a próxima traquinagem (Foto: Netflix)

A dupla vive uma rotina de amarguras, com o pequeno salsicha Burberry sendo fonte de afeto e o receptor de todo o amor que nunca se materializou num filho de carne e osso. O desejo de engravidar é um dos vários planos futuros de Ashley (Cailee Spaney), ajudante do resort que, ao lado do namorado encostado Austin (Charles Melton), vive de boleto em boleto, sem perspectiva de mudança.

A escala de poder será alterada com a chegada da presidenta de um conglomerado Park (Youn Yuh-jung) e seu marido mais novo, o cirurgião Dr. Kim (Song Kang-ho). Muito influente e poderosa, a idosa comprou o resort e está em vias de reorganizar o negócio para que case com seu império de cuidado estético na Coreia do Sul. Ela está sempre junto de Eunice (Seoyeon Jang), metade assistente e metade faz-tudo. 

O roteiro apresenta uma porção de mentiras que não levam a lugar nenhum, como o diploma falso de Austin, as questões médicas de Ashley e até o envolvimento da herança de Lindsay com as contas médicas da mãe de Josh (Foto: Netflix)

Beef muda a lógica da treta original e coloca os três casais num tango doloroso que envolve mentiras, acordos e uma morte misteriosa que precisa ser mantida por baixo dos panos. O criador e roteirista Lee Sung Jin bebe de The White Lotus no retrato puritano e enviesado dos ricos, ao mesmo tempo em que atira para todos os lados num texto rico em referências (o casal de jovens adultos é viciado em filmes, séries e até no Letterboxd, sem contar o papel vigente do Chat GPT na vida cotidiana deles), ao mesmo tempo em que o sustento dramático surge anêmico em comparação aos arcos da temporada.

Explico: aqui, acontecimentos graves e inconsequentes passam para baixo do radar dos personagens, que voam de dinâmica em dinâmica, abandonando qualquer senso de peso ou relevância. O destino do cachorro de Lindsay e Josh é esquecido, e só lembrado quando Beef está prestes a lidar com o mistério sul-coreano do oitavo e último episódio.

Temporada se esbalda na escatologia, com cenas de choque envolvendo sangue de menstruação, vômito e fezes (Foto: Netflix)

Com apetite grande demais para o tamanho do estômago, a série pincela discussões sobre juventude, privilégio, maternidade, divórcio, traição, falsidades e o peso de uma mentira no futuro de uma relação. O elenco é sublime e faz o melhor com o texto corrido, normalmente ganhando uma ou duas cenas de descarga emocional que dizem mais do que a totalidade do roteiro.

O talento dos veteranos sul-coreanos parece uma adição de última hora, e pouco se integra organicamente ao mote do casal maduro, afogado em mágoas e silêncios, e do casal jovem, que respira vitalidade e o gozo pelo prazer instantâneo. Em It Will Stay This Way and You Will Obey, praticamente inteiro situado em Seul, a série aposta as fichas no choque do imediatismo e abandona o caráter de mosaico refletido nas relações e em seus espelhos de maturidade e inveja.

A presença e a amarração da presidenta Park e do cirurgião Dr. Kim ao restante da trama do resort e dos casais se chantageando é delgada e pouco desenvolvida (Foto: Netflix)

Beef volta diferente, negando um repeteco da jornada multi premiada e superestimada de Steven Yeun e Ali Wong. Com um sexteto de performances principais se digladiando por tempo de tela, a outrora menina dos olhos de ouro da Netflix inova ao abordar racismo, apropriação sentimental e até o efeito das redes sociais nas relações do dia a dia, embora com efeitos resultantes distintos do passado. No final, as carências são impossíveis de ignorar ou relevar. 

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