Alaíde Costa acende Uma Estrela Para Dalva com liberdade e respeito

Discípula da Rainha da Voz, a intérprete vê na diferença de estilos uma oportunidade de criar disco coeso, inovador e inesquecível

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Fotografia da cantora Alaíde Costa. A imagem tem um fundo preto. Alaíde aparece sorrindo, de braços abertos, usando um vestido claro. Sobre as mãos da artista, é possível ver uma forte luz branca.

Esqueça a sonoridade orquestrada das canções de Dalva de Oliveira. Não espere por uma constante simulação da voz afiada da Rainha da Voz, repleta de agudos e picos que desafiam o alcance vocal de outras boas intérpretes. Uma Estrela Para Dalva se ergue em território inventivo e próprio. Estamos falando das terras férteis e precisas de Alaíde Costa, artista que nunca abriu mão de um estilo único ao se reinventar em pouco mais de 70 anos de carreira.

No mundo desde 9 de maio de 2025, Uma Estrela Para Dalva materializa um sonho de longa data de Alaíde. Depois de anos declarando admiração pela Rainha do Rádio de 1951, a cantora finalmente se apropria de um repertório familiar, por retratar com fervor as dores e amores do cotidiano e das paixões – temas também explorados na discografia de Alaíde. Nessa apropriação, a consciência dos próprios limites vocais e da diferença de estilos lapidados pelas artistas em suas respectivas carreiras dá vida a alguns dos aspectos mais interessantes do disco.

Fotografia das cantoras Alaíde Costa e Dalva de Oliveira. Imagem em preto e branco. Alaíde Costa está no lado esquerdo da imagem. Ela é uma mulher negra, olha para frente e sorri. Dalva de Oliveira está no lado direito da imagem. Ela é uma mulher parda, olha para frente e sorri.
Sete anos depois de participar do disco 100 Anos de Dalva de Oliveira (Ao Vivo), Alaíde Costa lança homenagem própria, idealizada há anos [Foto: Acervo Instituto Moreira Salles/Coleção José Ramos Tinhorão]

A começar pelos sons que se entrelaçam à voz inconfundível de Alaíde. Em cada uma das 17 faixas, a cantora é acompanhada por um músico diferente; uma equipe coesa, conectada por uma atmosfera melancólica e sem muitos ornamentos. Ao trocar as orquestras por poucos instrumentos, Alaíde evita que sua voz perca destaque em um agitado mar sonoro, ou mesmo que os músicos sejam engolidos pelo peso de nomes lendários – como o de Dalva, ou da própria Alaíde.

Fim de Comédia (Ataulfo Alves, 1952) talvez seja o exemplo mais expressivo das vantagens de unir a intérprete a um único instrumentista por faixa. O piano de André Mehmari abre caminho límpido, e a voz de Alaíde Costa pode transitar livremente. Ao mesmo tempo, as teclas manuseadas pelo músico não são ofuscadas pelo canto de Alaíde. Voz e piano mesclam-se, tornando-se uma única criação musical, mas também podem ser apreciados nos caminhos que trilham individualmente. A mixagem de Vitor Farias e a masterização de Fábio Roberto provavelmente têm grande mérito nesse sofisticado acerto criativo do disco. 

Outro aspecto de destaque na obra reside na seleção de repertório. A tracklist longa, mas assimilável, une sucessos incontestáveis de Dalva – de Ave Maria no Morro (Herivelto Martins, 1942) a Bandeira Branca (Max Nunes e Laércio Alves, 1969) – a músicas menos conhecidas e redescobertas fascinantes. Planejado com Cervantes Sobrinho e Hermínio Bello de Carvalho, admirador confesso e parceiro criativo de Dalva, o repertório comprova que Alaíde sabe muito bem por onde está se aventurando. Além de intérprete e amiga de Dalva, Alaíde é fã, trazendo consigo um conhecimento que só os fãs possuem. Conhecimento esse que Alaíde e Hermínio compartilham há muito tempo.      

A faixa de abertura é prova maior dessa curadoria preciosa. Tatuado (Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, 1957) vem diretamente do LP Carnaval de 1957, compilação que une a Rainha da Voz a outros nomes de destaque da época, como Isaura Garcia, Ademilde Fonseca e Orlando Silva. Se a versão de Dalva é embalada por uma percussão minimamente agitada, mas ainda assim imersa em melancolia, a repaginação de Alaíde se ampara no piano de Zé Manoel para rasgar corações com versos hiperbólicos e saudosos.

Em sequência, o lead single do projeto, Há Um Deus (Lupicínio Rodrigues, 1957), rememora não só um single e um LP de Dalva, como também a versão que Maria Bethânia eternizou no disco Pássaro da Manhã, de 1977. Diferentemente das intérpretes, no entanto, Alaíde nos entrega um canto contido, ornamentado com fragmentos roucos, muito próximo de um choro embebido em ressentimento e desconfiança. Para quem se acostumou com as potências vocais de Dalva e Bethânia, a lamúria de Alaíde, dramatizada com o piano de Vitor Araújo, pode causar estranhamento, mas se torna trajeto sedutor depois de algumas escutas.

O violão de Filó Machado e a flauta de Léa Freire, por sua vez, criam abertura louvável – tamanha a harmonia que conquistam – em Segundo Andar (Alvarenga e Ranchinho, 1950), lembrando que a sensibilidade de instrumentistas de carne e osso ainda resplandece em um mundo de constantes artificialidades emergentes. É uma das pouquíssimas vezes em que uma faixa é conduzida por mais de um instrumento. Em consonância, Errei, Sim (Ataulfo Alves, 1950), um dos hits mais ousados de Dalva de Oliveira, também ressalta a importância dos músicos no tributo, fundindo a dramaticidade chorosa da voz de Alaíde à suavidade igualmente dramática do piano de Antonio Adolfo.    

Bom Dia (Herivelto Martins e Aldo Cabral, 1942), gravada por Dalva em disco com forte envolvimento de Hermínio Bello de Carvalho, dobra de tamanho no violão de  Guinga. Em nova roupagem, a canção opta pela crueza para narrar as dores de quem é abruptamente abandonado por um grande amor. Enquanto isso, o resgate de Teus Ciúmes (Lacy Martins e Aldo Cabral, 1935) reforça o feliz casamento da voz de Alaíde com as teclas de um piano. O instrumento quase transborda a faixa ao cruzar com o talento consagrado de Cristóvão Bastos.

Chegamos, então, àquele que talvez seja o maior sucesso de Herivelto Martins, regravado e cantado por artistas de diversos países. Ave Maria no Morro (Herivelto Martins, 1942) une duas das maiores fãs declaradas de Dalva de Oliveira: a voz grave de Maria Bethânia encontra encaixe harmonioso no lapidar delicado de Alaíde Costa, firmando parceria que, independentemente do resultado, já entraria para a história da música popular brasileira por unir duas mulheres fundamentais nesse universo. Com a boa liga do encontro, e sem intenção de perseguir os registros insuperáveis de Dalva, o sucesso da gravação é ainda mais exato.

Nesse caminho de memória e reverência, El Día Que Me Quieras (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, 1934) foge da adaptação transcendental de Haroldo Barbosa, gravada por Dalva com acompanhamento instrumental insubstituível. Cantar os versos originais, em Espanhol, é escolha curiosa de Alaíde, em trajeto moldado pelo piano hipnótico de Amaro Freitas. Mas a potencialidade dessa gravação só não frustra mais do que a de Distância (Marino Pinto e Mário Rossi, 1953), que acerta ao escalar o piano de Gilson Peranzzetta, mas não se adapta com naturalidade à voz de Alaíde. Embora ambas sejam boas faixas, há a sensação de que não alcançam o ponto de equilíbrio dos demais registros. 

Se a união de Alaíde Costa, Roberto Menescal e Yuri Queiroga em Sebastiana da Silva (Rômulo Paes, 1951) foge da transparência e densidade que atravessam o disco como um todo, é também nessa faixa que encontramos uma das pérolas mais delicadas do repertório. Os poucos versos de Máscara Negra (Zé Kétti e Pereira Matos, 1967) cantados por Alaíde no final do registro são capazes de provocar uma nostalgia paradoxalmente reconfortante. Nessa saudação indireta aos antigos carnavais, a Estrela do Mar (Marino Pinto e Paulo Soledade, 1952) de outrora escapa das festas de salão e é conduzida pelo piano de Itamar Assiere aos bares noturnos e esfumaçados, repletos de mágoas de amor. 

No que diz respeito aos medleys, Neste Mesmo Lugar (Klecius Caldas e Armando Cavalcante, 1956) / Tudo Acabado (J. Piedade e Oswaldo Martins, 1950) não só funde sucessos estrondosos da Rainha da Voz, como também parece homenagear o momento em que Dalva unia a primeira canção a Fim de Comédia e Segredo. Tudo Acabado, vale ressaltar, atinge uma dimensão ainda mais triste na voz de Alaíde, beirando mais uma vez o choro dos sofredores. Já Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947) / Calúnia (Marino Pinto e Paulo Soledade, 1951) mantém alguma fidelidade às gravações de Dalva, em retrato simbólico da separação e relação turbulentas com Herivelto Martins.

Fotografia da atriz Soraya Ravenle e do ator Renato Borghi. A imagem tem um fundo vermelho. Soraya está em pé, vestindo um figurino de Dalva de Oliveira. À frente, vemos Renato sentado, vestindo camisa e terno.
De maio de 2025 a maio de 2026, o disco e shows de Alaíde Costa ganharam companhia do musical Minha Estrela Dalva e dos álbuns da Rainha da Voz finalmente em streaming (Foto: João Caldas) 

O ápice de Uma Estrela Para Dalva se mostra, porém, na parceria de Alaíde Costa e Edson Cordeiro, embalada pelo violão de Gabriel Deodato. Em A Grande Verdade (Luís Bittencourt e Marlene, 1951), o canto de Dalva ressoa nitidamente na voz – e lamento – de Alaíde, sendo evocado de forma ainda mais explícita nas notas atingidas por Edson. Em resgate duplo, a Dalva e Marlene, os cantores sintetizam, na faixa, a atmosfera de dissabores e dolorosos amores que compõe todo o álbum. Dalva cantava paixões e dores de absoluta entrega, e Alaíde soube traduzir com primor essa essência para os dias de hoje.        

Depois de tanto sofrimento, nada melhor do que hastear uma Bandeira Branca (Max Nunes e Laércio Alves, 1969). Acompanhada mais uma vez do piano de Amaro Freitas, Alaíde Costa recorre ao último sucesso colossal de Dalva para marcar alguns finais: os transtornos de amor precisam terminar, a vida e a discografia de Dalva teriam um desfecho poucos anos depois do lançamento da marcha-rancho e Uma Estrela Para Dalva também está chegando ao fim. Em gravação enxuta e precisa, a cantora mostra que sabe criar aberturas e fechamentos como ninguém. 

Outras cantoras, como Angela Maria, Núbia Lafayette e Áurea Martins, também lançaram discos em homenagem à professora das cantoras – e merecem ser lembradas com o surgimento de novos tributos. Mas o desejo de Alaíde, preservado por décadas e viabilizado por Thiago Marques Luiz, monta um repertório cauteloso, entre obviedades e garimpos, e escolhe a dedo os profissionais envolvidos de corpo e alma no projeto. Da seleção de canções aos músicos que acompanham a artista em respeitosa empreitada, Uma Estrela Para Dalva se ergue em mar de nomes e talentos. Mas nada faria sentido se a chama dessa estrela não brilhasse, a princípio, e sobretudo, no coração de Alaíde.

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