As amigas Tess (Ginger Minj) e DeeDee (Jujubee) compartilham memórias e experiências de vida, boas e ruins, desde a formatura na Academia de Aeromoças de Trens. A dupla inseparável descobre de surpresa que a antiga linha onde trabalhavam fechou sem mais nem menos, mas oportunidades surgem quando menos se espera: Stop! That! Train!, filme que marca o início do universo de Drag Race no Cinema, conta essa história.
A direção ficou a cargo de Adam Shankman, figura presente no painel de jurados do reality show e responsável pelo remake de Hairspray. O roteiro, escrito por Connor Wright e Christina Friel, tira inspirações claras de comédias nonsense, caso de Corra que a Polícia Vem Aí! e Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!, clássicos definidores de uma época onde o humor vendia ingressos e dominava o falatório nas saídas das sessões.

Stop! That! Train! desfila uma infinidade de atores em pontas hilárias, interpretando passageiros da Glamazonian, empresa especializada em viagens de luxo com um trem-bala equipado com os mais diversos mimos e experiências. DeeDee e Tess, os patinhos feios da indústria, precisam superar as picuinhas do trio que comanda a primeira classe com salto de ferro: Amber (Brooke Lynn Hytes), Alli (Marty Lauter) e Ayshleiygh (Symone), antigas colegas de faculdade e atuais inimigas declaradas.
Mas o charme e a resiliência da dupla de protagonistas serão mais do que bastante para enfrentarem as rivais e também o grande empecilho do filme, uma Tempestadeganza, evento climático raríssimo que promete dizimar todos os tripulantes e colidir com três locais imprescindíveis: uma usina nuclear, um hospital e a residência de uma atriz querida da América.

Fora dos trilhos, cabe à funcionária desmotivada Donna (Rachel Bloom) o papel de guiar as comissárias e, quem sabe, prevenir tal catástrofe. No DNA do filme, existem resquícios de desafios de atuação do programa de RuPaul, assim como reflexos dos Rusicals, das improvisações e de todo tipo de tarefa jogada no colo de drag queens, tão talentosas que brilham sob pressão. Há, também, muita elegância e perspicácia na construção de piadas, ganchos e num tipo de humor que contorna o óbvio e se acaba em algo diferente.
Todo Mundo em Pânico, 30 Rock e a obra de John Waters se encontram nesse misto de paródia, sátira e aventura genuína de amizade e amor entre duas comissárias tão diferentes quanto complementares. Jujubee carrega até um arco romântico com o desinibido Cal (Brian Jordan Alvarez), demonstrando os talentos para o drama, a comédia e a construção de uma profundidade além da plasticidade aparente. Ao seu lado, Ginger Minj canta, dança e se move com agilidade e consciência, em uma espécie de redenção aos olhos dos fãs.

Mais longe ainda dos trilhos, a Casa Branca é habitada pela Presidente Judy Gagwell (RuPaul Charles), eleita na plataforma de ser divertida e também ciente de que não sobreviverá a outra tragédia envolvendo trens. Em flashbacks calorentos, conhecemos o passado sangrento da governante, que busca uma vitória na ficção e continua a evidenciar o estrelato de Mama Ru, mestre dos carões e das poses heroicas. Entre as cenas, ela desliza suas frases de efeito, de maneira que os jargões já decorados pela audiência não sejam meramente gratuitos, e sim uma recompensa.
Entre as cabines, da classe econômica aos pagantes Premium, o elenco é histriônico, com papéis caricatos ganhando personalidade. Passageiro Homem 2 (Joel McHale), Casal briguento (Nicole Sullivan e Jerry O’Connell), Pessoa ao Telefone (Natasha Leggero), Atriz Famosa (Sarah Michelle Gellar), Gay Rico (Drew Droege), Controlador do Tráfego de Trens (Guy Branum), Controladora do Tráfego de Trens Sexy (Charo), Menor Desacompanhado (Asher Alexander), Homem de Negócios (Jesse Tyler Ferguson), Mulher Grávida (Mayan Lopez), Secretário de Imprensa (Matt Rogers), Mulher Chique (June Diane Raphael), Repórter 1 (Michelle Visage), Celebridade Bocona (Lisa Rinna) e Repórter da Flórida (Raven-Symoné) são alguns dos coadjuvantes do longa.

Primeiro filme de grande valor de produção estrelado por drag queens em papéis que não as limitam nem as nivelam por baixo como token de diversidade, Stop! That! Train! tem todos os ingredientes para envelhecer de maneira impagável, com gags que funcionam às mil maravilhas e uma história tão idiota e supérflua que dá a volta e se prova imprescindível.


Deixe um comentário