Em Meridiana, de Eliane Alves Cruz, um jogo da memória dificílimo

Romance premiado é testamento do poder criativo e literário da autora

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A vida de Meridiana, a protagonista do romance de Eliane Alves Cruz, foi severamente afetada pelas decisões do pai Ernesto e da mãe Aurora. Por razões distintas, o casal trocou a favela do Matadouro por um apartamento no centro da cidade, migrando não apenas em sentido geográfico, mas também sociológico.

Investigando o que resta das pessoas quando o mundo luta contra seu sucesso, o livro se divide em seis capítulos, cada um narrado por um membro da família. Sem ordem cronológica mas uma enorme consistência narrativa, Cruz pinta um mosaico de memórias, arrependimentos e escolhas.

Cada familiar não poderia ser mais diferente e distinto do anterior, elemento refletido diretamente no vocabulário e na narração de cada parte de Meridiana. O leitor, como que montando um quebra cabeças, liga eventos e termina de entender como o tempo e o preconceito moldou a existência dos negros que resolveram “morar” entre os brancos, e os extenuantes desafios que não seriam apagados só por uma breve mudança de paradigma e cenário.

“Minha irmã estava de partida, deixando outra dentro do seu corpo. Prometo a mim mesma que não perderia a chance de estar com esse meu amor até o fim”, narra o trecho dedicado à Tia Zuleica

Quando conhecemos Ernesto, o pai bancário e desconfiado, a história ganha ares de desilusão. “A classe média à qual eu tanto sonhava pertencer não era garantia de segurança, e naquele momento essa não era uma ideia abstrata”, ele define, quando precisa justificar as escolhas para si, a esposa e os filhos.

Já dona Aurora, uma modista de mão cheia e infeliz vítima dos sentimentos doces demais para uma rotina brutal, é mais emotiva e internaliza os acontecimentos. “Meus filhos estavam todos fora do fuso horário das próprias vidas, e sofrendo. Impossível não padecer junto”. E que crianças espirituosas foram as criadas por Aurora e Ernesto!

Os gêmeos César e Augusto, batizados pelas páginas da História a que Ernesto era tão ligado, batalham numa infinita briga sem razão. E, quando a adolescência amadurece a ponto de decisões serem tomadas retorno possível, Meridiana não esconde o tamanho das cicatrizes, tanto as físicas quanto as emocionais.

Meridiana venceu o prêmio da ABL de melhor ficção de 2025 (Foto: Companhia das Letras)

“Já ouvi amigas e amigos dizendo isso para os filhos, mas se você tem que bater na escola só para não apanhar em casa, uma hora não consegue mais diferenciar uma violência da outra e acaba distribuindo porrada pra todo lado”, pensa César. Seu irmão é mais pé no chão, embora esconda-se atrás dos amigos brancos para não se colocar na linha de fogo. “[…] se o nepotismo já existia, eu iria inaugurar o ‘nepretismo’”, brinca Guto, sempre em tom jocoso.

No fim, a protagonista que dá título ao livro toma as rédeas e cria a ponte entre sua infância, no papel da negra numa escola de brancos, com a da sobrinha, uma menina que nasceu tantos anos depois mas enfrenta males indistinguíveis dos passados. Numa narrativa fomentada por memória e por pertencimento, Eliane Alves Cruz não dá ponto sem nó, arrematando em menos de duzentas páginas uma vida inteira, fragmentada por cacos de ressentimento e paixão.

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