O Segredo de Widow’s Bay secciona o riso do terror

Comédia da Apple TV bebe do horror em temporada de estreia fantástica

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Os problemas de Widow’s Bay, ilhota trinta milhas distante da Nova Inglaterra, não começaram no atual mandato da prefeitura, mas o tenaz Tom Loftis (Matthew Rhys) quer fazer o possível para que turistas cheguem e desfrutem do clima ameno (embora a neblina incomode um pouco), conheçam os nativos educados (contanto que você não mencione as tragédias históricas) e o enxerguem potencial econômico e criativo do local. 

A 1ª temporada de O Segredo de Widow’s Bay nasce na forma de uma sátira de horror. São dez episódios envoltos na atmosfera lúgubre e na quebra de tensão por meio de piadas, verbais ou físicas, intercalando gêneros consagrados para contar uma história de pertencimento e de herança. A criadora é Katie Dippold, profissional que, antes da comédia da Apple TV, tem dois grandes destaques na carreira.

O primeiro é sua colaboração no roteiro de uma dúzia de capítulos de Parks and Recreation, de onde ela tira muito da inspiração do núcleo governamental de Widow’s Bay e o berço da comédia como alicerce do drama. O segundo é seu tweet atemporal, narrando a vez em que ela se empolgou na fantasia de Babadook numa festa de Halloween com a vibe oposta. 

Windo’s Bay bebe de diversas fontes para formar uma identidade própria: temos requintes de Twin Peaks, Missa da Meia-Noite, Tubarão, Halloween e a obra de Stephen King (Foto: Apple TV)

No papel do protagonista que nega todo e qualquer sinal do sobrenatural, Matthew Rhys continua optando por interpretar personagens incômodos, mas íntegros; complicados, mas de bom coração; e Loftis, no alto de seu posto e suas obrigações, é doce e arisco, alternando quando a situação demanda.

Com clima pitoresco, Widow’s Bay empresta de diversos realizadores a assinatura dúbia que questiona se a ilha é mesmo amaldiçoada, ou se o azar é quem reina naquela terra. Hiro Murai, de Barry e Atlanta, é quem corta a faixa de inauguração, dedilhando seu habitual senso de desconfiança na aparentemente idílica paisagem natural. Quando a série demanda que o sufoco da época protestante tome parte no sexto episódio, com a origem do governante da ilha, é Ti West, da trilogia X-Pearl-MaxXxine, o maestro.

Exibida parcialmente dentro da janela do Emmy 2026, a comédia deve concorrer apenas com os capítulos iniciais (Foto: Apple TV)

Neste momento, Rhys vai para o banco de trás e deixa que Betty Gilpin, como a ingênua Sarah, desfrute dos horrores do casamento arranjado, da baixíssima expectativa e qualidade de vida, e do marido, o misterioso Richard Warren (o único e inigualável Hamish Linklater). Sabendo quanto revelar e de que maneira instigar o mistério com mais dúvidas e coincidências macabras, o episódio serve de prólogo para uma tragédia geracional.

Dippold controla o andamento da mitologia de Widow’s Bay e até subverte os mais céticos espectadores quando revela uma virada “prevista”, mas o faz com doses cavalares de emoção e vulnerabilidade. Mas nada seria tão eficaz sem a performance de K Callan como Ruth, a secretária octogenária do prefeito, com um passado manchado e um futuro incerto. Na season finale, a dupla formada pela veterana e por Rhys destrói qualquer previsibilidade ou leitura infantilizada do bem e do mal.

No roteiro, Dippold recruta o talento de diversos profissionais, garantindo um texto plural e rico em ângulos e visões (Foto: Apple TV)

O dilema do bonde, uma constante na ficção que debate moral, é atravessado por uma visão madura e delicada da situação, mimetizando o astuto modus operandi de O Segredo de Widow’s Bay, que não esquece de manter o suspense para o já confirmado novo ano. A tempestade passou, mas as badaladas do sino apontam para uma cobrança ainda em aberto.

A grande trama da cidade e de sua maldição é amparada por pequenos arcos dos coadjuvantes, seja o policial Bechir (Kevin Carroll, de The Walking Dead), disposto a tirar a esposa grávida a ponto de parir da ilha, seja Rosemary (Dale Dickey, de Ozark e Fallout), especialista na História da ilha e a ferramenta que desbloqueia o mistério que persegue o local. Todos ganham tempo para mostrar suas personalidades e suas peculiaridades.

Murai dirige 5 episódios, Ti West comanda um, Andrew DeYoung (de PEN15) e Samuel Donovan (de Ruptura) ficam com dois cada [Foto: Apple TV]

O desconfiado e irritado Wyck (Stephen Root) começa antagonizando a passividade do prefeito para depois ganhar sua confiança e sua parceria, acompanhando Loftis por todas as etapas de uma jornada de libertação e descobrimento: ele caça bruxas, desenterra cadáveres e acalma a população no abrigo subterrâneo. Menos ativo, mas igualmente marcante, Dale (Jeff Hiller, de AHS: NYC e Pluribus) balanceia humor e cansaço.

Mas é Patrícia, na fenomenal entrega de Kate O’Flynn, a grande estrela de O Segredo de Widow’s Bay. Vestida como uma versão moderna da Wendy Torrance de O Iluminado, a funcionária da prefeitura ganha protagonismo ao ler um livro de auto-ajuda enviesado para o mal e, mais tarde, ao reencontrar o bicho-papão que a persegue desde os tempos do colégio. O’Flynn, radicada nos palcos do Reino Unido, é toda desconfortável e destemida como uma mulher que incomoda e que faz sua presença ser notada e ouvida. 

Guillermo del Toro elogiou a Widow’s Bay, chamando-a de “a melhor série de streaming em muito tempo” e “um dos atos de prestidigitação narrativa mais hipnotizantes do terror” (Foto: Apple TV)

Também em alta pela performance na minissérie O Monstro em Mim, Matthew Rhys se distância do arquétipo frio e calculista do personagem para fazer de Tom Loftis um protagonista de fibra e capaz de demandar simpatia e empatia de quem assiste. A criação do filho Evan (Kingston Rumi Southwick, de Acima de Qualquer Suspeita), depois da morte da esposa, é o que o motiva e o que o preocupa, rendendo algumas broncas e outras diversas situações-problema ao longo da temporada.

O Segredo de Widow’s Bay termina seu ano de estreia com cartas na manga, mas não deixa de exibir seu lado criativo, autoral e diferente de tudo que passa na TV. A showrunner Katie Dippold, salivando para expandir sua ilha amaldiçoada e seus habitantes estranhamente fascinantes, tem potencial para crescer e surpreender, assustando um pouco, e tirando gargalhadas honestas no processo.

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