O sucesso de Carrie e Salem colocou uma incógnita no futuro de Stephen King: continuar na rota do terror ou experimentar novos gêneros? Seu agente contrariou a publicação de O Iluminado, em 1977, receando mergulhar mais no nicho, mas o escritor fez seu desejo ser ouvido.
Disposto a contar uma história de isolamento longe das cidades pequenas dos livros anteriores, King e a esposa acabaram hospedados no luxuoso Stanley Hotel em um período oportuno. Eram os únicos ali, aproveitando-se de jantares em salões vazios, longas caminhadas por ermos corredores e uma fagulha de inspiração que, numa madrugada, resultou na estrutura óssea que se tornaria O Iluminado.
“Nunca imaginara que pudesse haver tanta dor numa vida, quando não há nada fisicamente errado.”

Jack Torrance é um homem de fantasmas ativos e pulsantes; professor de inglês demitido do cargo após um acesso de raiva resultar no brutal ataque a um de seus alunos, não ajuda que o alcoolismo influencie parte de seus comportamentos violentos. Quando surge a oportunidade de ser zelador temporário do afastado Hotel Overlook, Jack encara a proposta como tudo ou nada.
E lá vai ele, junto da esposa Wendy e do pequeno Danny, para as montanhas, onde a neve é traiçoeira e, no auge do inverno, a comunicação será cortada. No mundo novo dos Torrance, há apenas o Overlook – e seus diversos monstros dormentes. Stephen King escreve um preâmbulo extenso e necessário, na pavimentação da dinâmica familiar atual e também das cicatrizes que formaram o casal.
“O que você tem, filho, eu chamo de luz interior, a Bíblia chama de visões, e há cientistas que chamam de premonição. Já li sobre isso, filho. Já estudei. Tudo isso significa ver o futuro. Entende?”

Através da tradução de Betty Ramos de Albuquerque, para a Suma de Letras, casa do autor no Brasil, O Iluminado pinga temor e preocupação de pouco em pouco, construindo um clímax que não chega num rompante, mas é cadenciado pela certeza de que, de um jeito ou de outro, o local toma posse dos mais enviesados habitantes, usando-os a seu bel prazer.
As razões para Jack usar a bebida como líquor de proteção e de Wendy aceitar viver com um homem tão dissimulado e perigoso, são desvendadas ao longo das quatrocentas e setenta páginas, com o filho Danny, de cinco anos de idade mas poderes psíquicos gigantescos, preso entre os conflitos familiares e o dom de iluminação com que nasceu.

“Tantas coisas no Overlook pareciam sonhos”.
Apesar das raízes sobrenaturais do Hotel e do filho do personagem principal, O Iluminado finca raízes numa proporção humana maligna, que aparece primeiro na forma do alcoolismo e depois revela o comportamento abusivo da mãe de Wendy. Em certas horas, a família prefere enfrentar o medo desconhecido no Overlook do que voltar para as mesmas prisões do passado.
Adaptado para o Cinema em 1980 pelas mãos do renomado diretor Stanley Kubrick, O Iluminado, em versão filme, desagradou King. A rixa com o cineasta acabou numa via de mão dupla, com o material filmado se inspirando levemente no material literário e encontrando soluções e justificativas divorciadas do texto. Em 1997, o livro virou minissérie pela ABC, muito mais ao agrado do criador.
“Havia um cheiro azedo de gim e azeitonas em volta dele, que parecia despertar um velho terror nela, um terror pior do que qualquer hotel poderia causar por si só. Uma parte distante dela pensou que o pior era que tudo se tivesse reduzido a isto, a ela e o marido bêbado”.
Mas a saga de Danny Torrance não acabou depois da explosão do Hotel Overlook ou da amizade genuína e segura com o também iluminado Dick Halloran. O garoto cresceu e enfrentou mais dos males psico-sociais em Doutor Sono, que também ganhou filme, desta vez também para apaziguar King. O garotinho e o local são parte fundamental da mitologia criada pelo americano, transpassando temporal e geograficamente as mais diversas obras e invenções de King.
Com a abordagem naturalista de um homem enlouquecendo frente ao desemprego, ao desarranjo matrimonial e às expectativas da paternidade, O Iluminado é tão terror quanto drama familiar; tão revelador dos males sociais quanto das inspirações fantasmagóricas que mancham o local com sangue, ódio e violência em ciclo infinito. Depois de atravessar o mundo das provocações femininas na puberdade e dos vampiros como metáfora para a exploração de pequenas cidades, Stephen King ascende ao escrever um conto de terror abraçado por incertezas intrinsecamente humanas.


Deixe um comentário