É quase estranho querer falar sobre um jogo de live-service em seus primeiros meses de lançamento. Como os últimos anos ensinaram, esse gênero competitivo costuma muitas vezes durar pouquíssimo. Ainda em janeiro tivemos o início e o fim lamentável de Highguard, jogo gratuito desenvolvido pelos criadores de Titanfall e que, após uma estreia fraca, não obteve investimento para dar continuidade às suas ambições.
Mas por outro lado, o novo título da Bungie, a desenvolvedora conhecida por dar vida à franquias como Halo e Destiny e revolucionar jogos multiplayer de tiro em primeira pessoa, parece importante demais para ser ignorado. Primeiro novo título da empresa após ser adquirida pela Sony em 2022 e ressurreição de uma IP antiga, Marathon é um extraction shooter, isso é, um jogo em que você precisa escapar com todo os seus equipamentos para mantê-los em seu inventário, caso contrário tudo será perdido. O gênero, inaugurado por jogos como Escape From Tarkov e popularizado recentemente por Hunt: Showdown 1896 e ARC Raiders, parece estar cada vez mais em voga, atraindo jogadores por sua abordagem brutal e suas limitações propositais.
No contexto da queda do número de jogadores de Destiny 2 após sua última expansão, as dúvidas eram grandes se a nova experiência criada pelo estúdio teria um espaço para existir num cenário tão frágil quanto o que a indústria de games se encontra. Porém, o maior triunfo de Marathon é não se entregar à tendências genéricas, parecendo desinteressado em apelar para todos os públicos e exigindo que àqueles interessados em adentrar seu mundo o façam em seus próprios termos.

No futuro distante, a humanidade busca se estender para além de nosso sistema solar, procurando recursos e fundando colônias em planetas distantes. Um deles é Tau Ceti IV, para onde a nave espacial UESC Marathon, construída à partir da lua marciana de Deimos, partiu, chegando em 2773 após uma jornada de 300 anos. Cem anos depois da perda de contato entre ela e a Terra, uma transmissão críptica é recebida, meio convite e meio ameaça, sinalizando que há algo a ser redescoberto lá, tanto pela humanidade quanto pelas corporações que investiram na viagem inicial.
É aí que nós entramos. No papel de Corredores, mercenários independentes que viajam à Tau Ceti à procura de quaisquer itens que sejam valiosos o suficiente para serem extraídos, competindo não apenas um com os outros mas com o próprio planeta, hostil extremo à presença de qualquer ser humano. Corredores habitam Armações, corpos sintéticos descartáveis imbuídos com consciências passageiras e que conseguem sobreviver aos perigos do planeta por curtos períodos de tempo, até conseguirem ser extraídos ou morrerem e ter seus pertences levados por competidores.
Quanto mais adentramos às ruínas da colônia, maior é a sensação de que o que aconteceu aqui não foi mero desastre. Frases crípticas adornam os corredores coloridos e super saturados, escritas às pressas, mas com grande intenção. “Louca é a espada que rompeu o amanhã”, “Se você está vendo isso, eles estão vendo você” e, talvez a mais sinistra de todas, “Você está seguro aqui”. A propensão da Bungie por narrativas misteriosas, que muitas vezes acontecem apenas no pano de fundo de duelos entre jogadores, está à todo vapor na primeira temporada do novo shooter, oferecendo vislumbres do que parece ser um de seus universos mais intrigantes.

A apresentação de Marathon é o primeiro aspecto que impressiona, e que provavelmente irá atrair jogadores que antes não teriam experimentado com o gênero. Combinando realismo gráfico com um uso potente de cor e brutalismo, tanto as paisagens de Tau Ceti IV quanto os Corredores saltam aos olhos. As interfaces, caóticas e ao mesmo tempo friamente ordenadas em sua construção, são uma confusão de fontes e cores que é legível através do que se pode descrever como uma feitiçaria digital.
Quando o escândalo de plagiarismo eclodiu no ano passado, meses antes do lançamento inicial, muitos assumiram que o título fosse demorar bem mais para sair, se é que chegaria a ver a luz do dia. Após o período de adiamento, no entanto, o conflito entre a Bungie e a designer gráfica “Antireal” foi aparentemente resolvido de maneira amigável entre ambas as partes. O uso indevido de seu trabalho durante a fase de testes foi uma mancha profunda na reputação do game, mas que felizmente parece não ter ferido o comprometimento de seus realizadores com a estética audaciosa e irreverente de Marathon.

Apesar de trazer semelhanças com seus projetos anteriores, o novo jogo da Bungie adapta o gunplay lendário da desenvolvedora para incentivar um estilo de jogo mais cauteloso e pesado. O medo de perder itens valiosos por conta de movimentos imprudentes torna cada embate decisivo, cada derrota humilhante e cada vitória extasiante. Não são poucos os momentos em que você consegue ouvir jogadores próximos e precisa fazer a escolha consciente de se esconder e deixá-los passar ou tentar uma emboscada. Risco e recompensa andam de mãos dadas o tempo inteiro em cada partida.
Por colocar todos os jogadores simultaneamente em pé de igualdade, às vezes achar uma partida pode demorar alguns minutos. É incerto se esse é um problema exclusivo de jogadores na América Latina ou se é algo relativo à natureza do jogo, mas fica o aviso para aqueles que procuram jogos multiplayer de início rápido. De certa forma, é com esse público em mente que a Bungie introduziu a Armação de ROOK: a única classe que consegue entrar sozinha em uma partida já em andamento, com um inventário aleatório e habilidades focadas em sobrevivência e camuflagem. Consideravelmente mais rápida e com nada a perder, jogar de ROOK é perfeito para iniciantes que buscam se familiarizar com os mapas gigantescos e suas mecânicas ocultas.
Depois disso, a escolha de Armação depende tanto do estilo de jogo que você prefere quanto da estética de cada uma. Imbuídas de personalidade graças à fenomenal direção de arte e dublagens excelentes, é interessante testar cada uma delas em situações diferentes. Talvez você goste de poder defender seus amigos durante duelos contra times inimigos ou talvez você prefira se esconder nas sombras e derrotá-los um por um. Talvez você até goste de evitar completamente o combate e mandar um drone para roubar os itens mais raros de outro pobre coitado. Por enquanto, Marathon oferece um cardápio robusto de opções, e que promete aumentar cada vez mais com cada nova temporada.

Assim como fez com Destiny, a Bungie promete que Marathon será suportado durante muito tempo e que o jogo permanecerá evoluindo junto com a base de jogadores. A última atualização, lançada em abril, já abordou mudanças pedidas pela comunidade e é uma resposta direta à maneira com que os Corredores passaram a utilizar as diversas habilidades e combinações de suas Armações. A aposta da desenvolvedora é claramente fazer com que o comprometimento com a sobrevivência do jogo seja um dos fatores diferenciais que atraia mais jogadores para os as recompensas de Tau Ceti IV. Se isso irá funcionar, só o tempo vai dizer, mas por enquanto o jogo pulsa com vida e possibilidade.
Marathon é, em uma palavra, brutal. Como todo extraction shooter, o foco está em escolher suas batalhas para sobreviver e lutar outro dia, mas isso não nega a verdade implícita de que o loop de gameplay envolve morrer – repetidamente. A frustração é parte desse loop, instilando em você a paciência e o autocontrole necessários não apenas para derrotar seus oponentes, mas para transformar cada embate em uma luta desenfreada, onde todos àqueles presentes estão dando 110% de si, independente da preciosidade daquilo que carregam em suas bolsas. Apesar de ser decepcionante a falta de componentes single player para jogadores interessados na lore de seu universo, as melhores histórias que o jogo oferece são aquelas que nascem naturalmente entre os jogadores, que ganham vida através de sua própria agência.
De novo, apenas o tempo irá dizer se o experimento de Marathon irá funcionar, mas a base criada pela Bungie é sólida e suas ambições são louváveis. O fato de não ser um jogo gratuito já dá certa confiança de que o título não será refém de microtransações como tantos outros de seus pares nesse momento precário da indústria. Sua estética agressiva e seu estilo de jogo hostil são também refrescantes, forçando os jogadores à interagirem com suas mecânicas e criando a tensão necessária para que um jogo multiplayer não apenas sobreviva, mas floresça.


Deixe um comentário