Marathon larga na dianteira

Direção de arte única e combate tenso elevam a nova aposta de multiplayer da Sony

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Cena promocional do videogame Marathon. Dois personagens andam por um gramado em direção a uma estrutura à sua frente. Mais próximo à câmera, à direita da tela, o Assassino é um homem de pele azul e pálida, com olhos vermelhos e uma faixa preta cobrindo sua testa, usando um capuz negro e carregando um rifle azul e preto na mão direita. À sua frente, a Vandalismo é uma mulher de cabelos brancos e espetados, andando com uma mochila nas costas e os braços de uma blusa balançando ao seu lado. Apesar de não vermos seu rosto, ela usa um aparelho auricular na cabeça, cobrindo a parte de trás. Mais à frente, na esquerda da tela, uma terceira pessoa está em cima de alguns blocos coloridos, agachada, guiando um drone remoto que sobrevoa o gramado. A Rapina é uma mulher vestida de branco e, à distância, conseguimos distinguir seu cabelo escuro e um brilho vermelho emanando de seu visor preto. O drone segue próximo aos dois personagens no chão, no formato aproximado de uma borboleta azul, com labaredas esguias emanando de suas asas. Na frente do gramado, a estrutura para qual eles seguem é composta por uma base esguia de cubículos grandes que dão, via uma elevação diagonal, à um complexo maior, verde e preto, com bordas arredondadas. Uma chuva cobre a cena, que se dá em tempo nublado.

É quase estranho querer falar sobre um jogo de live-service em seus primeiros meses de lançamento. Como os últimos anos ensinaram, esse gênero competitivo costuma muitas vezes durar pouquíssimo. Ainda em janeiro tivemos o início e o fim lamentável de Highguard, jogo gratuito desenvolvido pelos criadores de Titanfall e que, após uma estreia fraca, não obteve investimento para dar continuidade às suas ambições.

Mas por outro lado, o novo título da Bungie, a desenvolvedora conhecida por dar vida à franquias como Halo e Destiny e revolucionar jogos multiplayer de tiro em primeira pessoa, parece importante demais para ser ignorado. Primeiro novo título da empresa após ser adquirida pela Sony em 2022 e ressurreição de uma IP antiga, Marathon é um extraction shooter, isso é, um jogo em que você precisa escapar com todo os seus equipamentos para mantê-los em seu inventário, caso contrário tudo será perdido. O gênero, inaugurado por jogos como Escape From Tarkov e popularizado recentemente por Hunt: Showdown 1896 e ARC Raiders, parece estar cada vez mais em voga, atraindo jogadores por sua abordagem brutal e suas limitações propositais.

No contexto da queda do número de jogadores de Destiny 2 após sua última expansão, as dúvidas eram grandes se a nova experiência criada pelo estúdio teria um espaço para existir num cenário tão frágil quanto o que a indústria de games se encontra. Porém, o maior triunfo de Marathon é não se entregar à tendências genéricas, parecendo desinteressado em apelar para todos os públicos e exigindo que àqueles interessados em adentrar seu mundo o façam em seus próprios termos.

Cena do trailer de lançamento de Marathon. Um céu noturno coberto por nuvens e, entre elas, a silhueta da nave espacial UESC Marathon, construída sobre a carcaça da lua marciana de Deimos. A nave em si tem a forma de um monólito retangular, atravessando perpendicularmente o formato esférico e rachado da lua.
“Em algum lugar do céu, eles estão à espera” (Foto: Bungie)

No futuro distante, a humanidade busca se estender para além de nosso sistema solar, procurando recursos e fundando colônias em planetas distantes. Um deles é Tau Ceti IV, para onde a nave espacial UESC Marathon, construída à partir da lua marciana de Deimos, partiu, chegando em 2773 após uma jornada de 300 anos. Cem anos depois da perda de contato entre ela e a Terra, uma transmissão críptica é recebida, meio convite e meio ameaça, sinalizando que há algo a ser redescoberto lá, tanto pela humanidade quanto pelas corporações que investiram na viagem inicial.

É aí que nós entramos. No papel de Corredores, mercenários independentes que viajam à Tau Ceti à procura de quaisquer itens que sejam valiosos o suficiente para serem extraídos, competindo não apenas um com os outros mas com o próprio planeta, hostil extremo à presença de qualquer ser humano. Corredores habitam Armações, corpos sintéticos descartáveis imbuídos com consciências passageiras e que conseguem sobreviver aos perigos do planeta por curtos períodos de tempo, até conseguirem ser extraídos ou morrerem e ter seus pertences levados por competidores.

Quanto mais adentramos às ruínas da colônia, maior é a sensação de que o que aconteceu aqui não foi mero desastre. Frases crípticas adornam os corredores coloridos e super saturados, escritas às pressas, mas com grande intenção. “Louca é a espada que rompeu o amanhã”, “Se você está vendo isso, eles estão vendo você” e, talvez a mais sinistra de todas, “Você está seguro aqui”. A propensão da Bungie por narrativas misteriosas, que muitas vezes acontecem apenas no pano de fundo de duelos entre jogadores, está à todo vapor na primeira temporada do novo shooter, oferecendo vislumbres do que parece ser um de seus universos mais intrigantes.

Cena do videogame Marathon. Em primeira pessoa, vemos um trio de jogadores se abrigando abaixo de uma estrutura, enfrentando um time rival em uma estrutura vizinha. Uma mão carrega uma metralhadora grande e preta, com detalhes em azul e ciano e marcações brancas de letras, números e símbolos. Ao lado direito, uma Vandalismo atira com uma metralhadora preta. Ela é uma mulher de cabelos brancos e espetados, usando uma blusa branca por cima de uma camisa azul e luvas laranjas. Em suas costas, vemos as mangas de uma blusa balançando. Do lado esquerdo, uma Reconhecimento atira com uma arma preta e verde clara com detalhes amarelos. Ela é uma mulher usando uma roupa preta com detalhes verdes nos ombros e na cintura e um capacete largo. Nas suas costas, vemos uma segunda arma preta guardada. Na frente deles, um corredor aberto separa as estruturas e um soldado robótico atira contra o trio, sofrendo danos da cascata térmica que assola o ambiente, parecendo faíscas descendo como chuva. Na outra estrutura, um destruidor olha para o time, apontando sua arma para eles. Ele veste uma armadura clara com detalhes vermelhos e um capacete com visor vermelho. As estruturas nas quais os jogadores se abrigam são quadriculares, cobertas por linhas perpendiculares, letras, números e outros símbolos. Ambas são azuis e, do lado de dentro da que o trio de jogadores estão abrigados, um padrão de janelas consegue ser visto através do tecido de uma lona. Atrás do soldado robótico que atira nos jogadores, um alçapão dá acesso a um nível inferior.
No mapa Posto Avançado, a ameaça de chuvas térmicas força os jogadores à procurarem abrigo (Foto: Bungie)

A apresentação de Marathon é o primeiro aspecto que impressiona, e que provavelmente irá atrair jogadores que antes não teriam experimentado com o gênero. Combinando realismo gráfico com um uso potente de cor e brutalismo, tanto as paisagens de Tau Ceti IV quanto os Corredores saltam aos olhos. As interfaces, caóticas e ao mesmo tempo friamente ordenadas em sua construção, são uma confusão de fontes e cores que é legível através do que se pode descrever como uma feitiçaria digital.

Quando o escândalo de plagiarismo eclodiu no ano passado, meses antes do lançamento inicial, muitos assumiram que o título fosse demorar bem mais para sair, se é que chegaria a ver a luz do dia. Após o período de adiamento, no entanto, o conflito entre a Bungie e a designer gráfica “Antireal” foi aparentemente resolvido de maneira amigável entre ambas as partes. O uso indevido de seu trabalho durante a fase de testes foi uma mancha profunda na reputação do game, mas que felizmente parece não ter ferido o comprometimento de seus realizadores com a estética audaciosa e irreverente de Marathon.

Cena promocional do videogame Marathon. Uma rapina utiliza um gancho acoplado em seu braço esquerdo para escapar de um duelo contra soldados robóticos, saltando para o lado esquerdo da tela. Ela é uma mulher usando roupas brancas e membros articulados, como os de uma boneca, cabelos pretos amarrados em um coque. Ela usa uma blusa branca com detalhes pretos e, em suas costas, uma plataforma onde seu drone fica guardado. Na sua frente, fora de foco, quatro soldados mecânicos disparam contra ela. Eles possuem corpos azuis e visores vermelhos. Eles estão em uma plataforma cinzenta coberta por fuligem de explosões. Do lado direito, há um campo inundado, onde outra plataforma se encontra, inclinada, vazando caixas e containers para dentro da água, por cima de uma base de cor azul ciano. Atrás dessas plataformas, uma grande parede de pedra dá para um planalto. A Rapina pula na direção de uma estrutura escura, do lado esquerdo da plataforma, com a ajuda de um gancho rosa choque que se estende ao longo de seu braço esquerdo e a puxa para um ponto estático no ar.
Sempre móvel, a Armação de Rapina é especialista em escapar de combates impossíveis (Foto: Bungie)

Apesar de trazer semelhanças com seus projetos anteriores, o novo jogo da Bungie adapta o gunplay lendário da desenvolvedora para incentivar um estilo de jogo mais cauteloso e pesado. O medo de perder itens valiosos por conta de movimentos imprudentes torna cada embate decisivo, cada derrota humilhante e cada vitória extasiante. Não são poucos os momentos em que você consegue ouvir jogadores próximos e precisa fazer a escolha consciente de se esconder e deixá-los passar ou tentar uma emboscada. Risco e recompensa andam de mãos dadas o tempo inteiro em cada partida.

Por colocar todos os jogadores simultaneamente em pé de igualdade, às vezes achar uma partida pode demorar alguns minutos. É incerto se esse é um problema exclusivo de jogadores na América Latina ou se é algo relativo à natureza do jogo, mas fica o aviso para aqueles que procuram jogos multiplayer de início rápido. De certa forma, é com esse público em mente que a Bungie introduziu a Armação de ROOK: a única classe que consegue entrar sozinha em uma partida já em andamento, com um inventário aleatório e habilidades focadas em sobrevivência e camuflagem. Consideravelmente mais rápida e com nada a perder, jogar de ROOK é perfeito para iniciantes que buscam se familiarizar com os mapas gigantescos e suas mecânicas ocultas.

Depois disso, a escolha de Armação depende tanto do estilo de jogo que você prefere quanto da estética de cada uma. Imbuídas de personalidade graças à fenomenal direção de arte e dublagens excelentes, é interessante testar cada uma delas em situações diferentes. Talvez você goste de poder defender seus amigos durante duelos contra times inimigos ou talvez você prefira se esconder nas sombras e derrotá-los um por um. Talvez você até goste de evitar completamente o combate e mandar um drone para roubar os itens mais raros de outro pobre coitado. Por enquanto, Marathon oferece um cardápio robusto de opções, e que promete aumentar cada vez mais com cada nova temporada.

Cena do videogame Marathon. Em primeira pessoa, vemos um trio de Corredores atirando em um drone que sobrevoa uma instalação coberta de gelo. O Corredor aparece segurando um rifle de precisão preto com detalhes azuis e brancos, com uma mira de atirador quadriculada e letras e símbolos na lateral. Suas mão esquerda aparece segurando o barril da arma, coberta por uma luva azul e branca e com mangas compridas e pretas, com símbolos brancos. Ele observa um grande item no interior da sala, uma forma ovoide preta com espinhos pretos por todos os lados, suspensa por meio de cabos vermelhos largos que vêm do teto e se agrupam dos lados da estrutura. Os outros Corredores estão numa estreita passarela na frente da estrutura, atirando contra um drone que sobrevoa a parte esquerda da passarela, emitindo uma luz de sua parte inferior. A Armação mais próxima dele é uma Rapina de blusa branca e cabelos negros, com uma mochila nas costas e, atrás dela, uma Vandalismo com uma blus branca e cabelos espetados, também com uma mochila nas costas. As paredes da instalação são cobertas por gelo e são iluminadas por uma luz azul vinda de cima.
Crioarquivo é a primeira zona do jogo dentro da UESC Marathon, oferecendo itens raros e respostas para os mistérios que rodeiam a história (Foto: Bungie)

Assim como fez com Destiny, a Bungie promete que Marathon será suportado durante muito tempo e que o jogo permanecerá evoluindo junto com a base de jogadores. A última atualização, lançada em abril, já abordou mudanças pedidas pela comunidade e é uma resposta direta à maneira com que os Corredores passaram a utilizar as diversas habilidades e combinações de suas Armações. A aposta da desenvolvedora é claramente fazer com que o comprometimento com a sobrevivência do jogo seja um dos fatores diferenciais que atraia mais jogadores para os as recompensas de Tau Ceti IV. Se isso irá funcionar, só o tempo vai dizer, mas por enquanto o jogo pulsa com vida e possibilidade.

Marathon é, em uma palavra, brutal. Como todo extraction shooter, o foco está em escolher suas batalhas para sobreviver e lutar outro dia, mas isso não nega a verdade implícita de que o loop de gameplay envolve morrer – repetidamente. A frustração é parte desse loop, instilando em você a paciência e o autocontrole necessários não apenas para derrotar seus oponentes, mas para transformar cada embate em uma luta desenfreada, onde todos àqueles presentes estão dando 110% de si, independente da preciosidade daquilo que carregam em suas bolsas. Apesar de ser decepcionante a falta de componentes single player para jogadores interessados na lore de seu universo, as melhores histórias que o jogo oferece são aquelas que nascem naturalmente entre os jogadores, que ganham vida através de sua própria agência.

De novo, apenas o tempo irá dizer se o experimento de Marathon irá funcionar, mas a base criada pela Bungie é sólida e suas ambições são louváveis. O fato de não ser um jogo gratuito já dá certa confiança de que o título não será refém de microtransações como tantos outros de seus pares nesse momento precário da indústria. Sua estética agressiva e seu estilo de jogo hostil são também refrescantes, forçando os jogadores à interagirem com suas mecânicas e criando a tensão necessária para que um jogo multiplayer não apenas sobreviva, mas floresça.

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