Em 2022, o roteirista Tom King se reuniu com os quadrinistas brasileiros Bilquis Evely e Mat Lopes e, juntos, reinventaram Kara Zor-El em Supergirl: Mulher do Amanhã. Na trama da minissérie, a prima do Superman comemora sua maioridade em uma viagem por planetas de Sol vermelho, onde seus poderes são suprimidos o bastante para lhe dar a oportunidade de provar um breve estupor alcoólico. Em um desses planetas, ela tromba com uma jovem que busca contratá-la para executar o assassino de seu pai, o fora-da-lei conhecido como Krem das Colinas Amarelas. Apesar de não concordar em matá-lo, Kara eventualmente parte com a menina em uma cruzada intergaláctica para descobrir como é possível se manter bom em face às crueldades de um universo indiferente.
Pegando emprestado mais do que alguns elementos de Bravura Indômita, o icônico western sobre vingança, a história em quadrinhos se diferenciava por sua estética única e suas cores vibrantes. A parceria de Evely e Lopes foi tão potente que superou quaisquer acusações de falta de originalidade que seu roteiro pudesse suscitar, levando a história para a lista de mais vendidas do ano e indicações ao prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos. Anos depois, o trio se reuniria novamente na premiação pela minissérie original Helen de Wyndhorn, levando Bilquis Evely a se tornar a primeira brasileira da história a ser recipiente do prêmio de melhor desenhista e arte-finalista.
Após ter sua popularidade alavancada pelo seriado de televisão que passou de 2015 à 2021, não era surpresa nenhuma que a Supergirl seria um dia levada para as telonas de novo (apesar de muitos tentarem esquecer, ela foi interpretada por Helen Slater no filme de 1984).The Flash, já então fadado ao fracasso, foi marcado pela aparição de Sasha Calle como a Garota de Aço, mas interpretando uma pseudo-fusão da personagem com o Superman de Ponto de Ignição (eram tempos estranhos na Warner). Sua grande reintrodução ocorreria apenas três anos depois, em um longa inteiramente focado em adaptar a minissérie de oito capítulos, estrelando Milly Alcock (A Casa do Dragão) no papel principal. Comandada por Craig Gillespie (Cruella, Eu, Tonya) e com roteiro de Ana Nogueira, a produção tinha todo o direito de capitalizar em cima da recepção positiva do Superman de James Gunn e cimentar seu novo universo compartilhado como competição séria ao monopólio da Marvel Studios sobre o gênero. Infelizmente, Supergirl não faz nenhuma dessas coisas, desperdiçando o potencial de sua heroína e seu elenco com o que pode apenas ser descrito como uma perda de tempo cinematográfica.

O problema imediato de adaptar Mulher do Amanhã para o cinema é o seu tamanho: apesar de ser contada em apenas 8 edições, a história passeia por diversos planetas e contempla vários cenários arrebatadores o suficiente para justificar suas cores magnânimas. Apesar de ser um western num cenário de ficção científica, o traço de Evely traz uma qualidade fantástica ao mundo, recheando-o com capas, espadas, navios e castelos, produzindo algo não tão facilmente replicado em live action.
Gillespie, agindo primariamente sobre o roteiro de Nogueira, não tenta adaptar esteticamente a HQ, buscando em outras obras cinematográficas por inspiração. Grande parte da narrativa se dá em partes insalubres da galáxia, bares alienígenas e instalações criminosas e monocromáticas, populadas por figurantes de Mad Max. A direção possui uma qualidade suja que parece ir de encontro com as sensibilidades mais bregas do gênero de super-heróis (demora praticamente o filme inteiro para vermos Supergirl usando seu icônico traje azul e vermelho). Esse contraste por vezes criou algumas das produções mais icônicas do gênero, tais como Logan e mais de um filme do Homem Morcego. No entanto, a direção do segundo longa do DC Studios não tem nem uma centelha da originalidade necessária para fazer esse embate funcionar, criando um filme no melhor dos casos inerte e frequentemente natimorto.
O mais inacreditável é ver que Guardiões da Galáxia, a franquia de James Gunn durante seu mandato na Marvel, parece ter servido de inspiração para inúmeros designs e cenários de Supergirl, o primeiro título do novo estúdio em que ele supostamente não tem envolvimento direto. É quase impossível ser mero acidente que a direção magra de Gillespie esteja tentando tanto replicar os mesmos beats e o ritmo da melhor trilogia de sua rival. Acima de tudo, o longa fica marcado por uma insegurança que não bate com sua suposta irreverência.

Outro dos problemas é que o quadrinho original de King serve como releitura de vários dos eventos formativos da heroína, enfatizados no fato de que a história inteira é contada pelo ponto de vista de sua parceira, a pequena Ruthye (interpretada no filme por Eve Ridley). Na minissérie, que por definição existe em seu quadro de tempo isolado, Kara é uma personagem coadjuvante, acompanhando a jovem, que aprende sua história ao mesmo tempo que nós. Mas deve ter sido muito difícil vender o primeiro filme solo da personagem em mais de 40 anos dessa forma, o que explica a decisão de um tom mais tradicional para a produção, que joga para escanteio o relacionamento das duas, usando seus pouquíssimos diálogos primariamente como veículo de exposição para o passado de Kara e a perda de seu planeta natal.
Enquanto Jor-El escolheu mandar seu único filho para a Terra na esperança de que ele continuasse a linhagem kryptoniana, seu irmão mais novo, Zor-El (David Krumholtz), criou um campo de força que protegeu a cidade de Argo enquanto o resto do planeta explodia. Kara nasce oito anos depois, em um pedaço de rocha flutuando pelo espaço, até que uma doença radioativa tira a vida de sua mãe e força seu pai à mandá-la em busca do mesmo planeta azul que seu primo.
As cenas de Argo são a graça salvadora do longa, quando ele mais se assemelha à um filme de verdade. Nelas, tanto Alcock quanto seus parceiros de cena parecem habitar personagens com conflitos tangíveis e expressões complexas, englobando diversos estágios de um luto difícil de descrever. É também nessas cenas que descobrimos a ligação entre ela e o adorável cãozinho Krypto, já introduzido em Superman, mas que aqui representa a última ligação de Kara com uma vida que já não existe mais.

Em todo o resto do filme, no entanto, Supergirl luta para encontrar sua raison d’être, pulando de ação medíocre para dramas incrivelmente rasos, sem nunca adaptar de maneira convincente o quadrinho de que puxa sua trama e nem oferecendo algo atraente por si só em troca. Essa falta de certeza é evidente na figura de seu antagonista, Krem (Matthias Schoenaerts), um bandido perigoso e forte o bastante para que a heroína possa dar uns sopapos sem que a audiência pense demais sobre o quão fácil seria ela dar cabo dele em qualquer outro momento do filme (os poderes de Kara são repetidamente anulados por uma razão ou outra ao longo da trama). Chamar Krem de genérico seria um elogio. O personagem, que no quadrinho é um vilão bem apessoado e charmoso que mata seu caminho através da galáxia enquanto é perseguido pelas heroínas, aqui só não é um extra de fundo porque sabemos o seu nome.
O personagem é sintomático do problema principal de Supergirl: tentar simplificar demais uma história que por si só já é bem direta. Em toda oportunidade, o longa descomplica sua trama e recusa qualquer chance de oferecer algo mais interessante do que sua contraparte impressa. Não é crime nenhum uma adaptação se distanciar do material original e, de fato, muitas adaptações de HQs tem se beneficiado desse direcionamento, colocando seus heróis em diferentes circunstâncias e explorando lados seus que apenas o Cinema consegue. No entanto, o segundo longa do DC Studios parece amedrontado, quase acanhado, abordando a história com todo o tesão de um filme mediano de sua rival, sem nunca almejar chegar à altura de suas inspirações ou à nenhum lugar equivalente.
A singela exceção à essa visão aplainada do universo DC parece ser a interpretação de Alcock como a personagem titular: como já havia provado em sua aparição no final de Superman no ano passado, a atriz consegue estabelecer em pouquíssimas cenas como ela destoa de seu super-primo e também de versões anteriores da heroína. Nas pouquíssimas ocasiões em que o roteiro monótono permite que a personagem se abra emocionalmente com Ruthye (que apesar dos bravos esforços da atriz é uma presença infinitamente menos carismática do que no material original), vemos uma personagem que, apesar de viver um dilema semelhante ao de Clark Kent, se diferencia pela intensidade de seus sentimentos e da consciência de tudo que perdeu. Se no filme anterior a desconexão entre o herói e seu planeta natal era parte central do conflito temático, aqui o exato oposto surge como uma pontada de caracterização em um mar de superficialidades.

O pecado principal de Supergirl não é necessariamente àquele de não seguir à risca as páginas do gibi, mas sim o de não ter a curiosidade de interrogá-lo ou de dialogar com ele. A palidez de suas cores em comparação com os traços luxuosos de Evely e Lopes surge menos como um contraponto e mais como uma não-decisão; não há nada sendo agregado, apenas uma imitação infinitamente menos complexa e desinteressada, um filme feito praticamente por tabela para manter as engrenagens do almejado universo cinematográfico em movimento. Se o objetivo de James Gunn ao tomar as rédeas das adaptações da DC era realmente dar mais controle às mentes criativas do estúdio, ele talvez devesse reconsiderar quais mentes são de fato criativas.


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