Por maiores que tenham sido os esforços de June Osborne (Elisabeth Moss), ela não conseguiu salvar o mundo – ou livrá-lo das garras nefastas de Gilead, a nação construída nos escombros dos Estados Unidos, uma teocracia que violenta mulheres e que foi palco de todas as seis temporadas de The Handmaid’s Tale. A história continua em Os Testamentos, com foco em suas adolescentes em situações divergentes.
Agnes (a indicada ao Emmy Chase Infiniti) é filha de um comandante importante e, à beira da primeira menstruação, almeja passar de “violeta” para “verde”. O ritual de amadurecimento feminino, outrora visto por meio das aias e seus estupros assistidos pela igreja e pelo estado, agora é realizado no âmbito da adolescência.

Daisy (Lucy Halliday) é uma Pérola, grupo destinado às recém-chegadas ao país que, para se limparem da vida de pecados e luxúria do passado, passam por testes de fogo na academia presidida por Tia Lydia (Ann Dowd), a única personagem da série original que retorna em papel recorrente. Em 10 episódios, o drama do Hulu expande o universo criado pela autora Margaret Atwood, que olha para sua distopia feminista com olhos raivosos das garotas em idade de ebulição.
A narração é dividida entre Agnes, Daisy e Lydia, num complexo vai e vem que aponta para o futuro de insurreição, em paralelo ao amadurecimento das garotas. Na escola, o grupo de amigas é composto por insatisfeitas (Becka, papel de Mattea Conforti), inocentes (Hulda, papel de Isolde Ardies) e espevitadas (Shu, papel de Rowan Blanchard). Entre corredores, aulas, broncas e punições, o mundo de Handmaid’s Tale ganha uma nova e renovada potência dramática.

Somam-se a esses elementos as faíscas da paixão, envoltas principalmente no jovem guarda/colírio Garth (Brad Alexander), e a inveja que escorre por entre os lábios da subordinada Tia Vidala (Mabel Li), e Os Testamentos nem precisa de muito para pegar fogo. Infiniti, depois de um ano milagroso com Uma Batalha Após a Outra, encarna a sucessora de June com ímpeto e aquela pontada de irritação religiosa que toma conta das enclausuradas no país.
E por falar em June, Elisabeth Moss volta ao papel que lhe rendeu todos os prêmios possíveis de forma pontual e eficaz. Ao lado de Daisy, ela primeiro acode e depois instrui – e não atrapalha que Halliday compartilhe o mesmo olhar de asco da atriz veterana, passando o bastão de uma geração para a seguinte. As mudanças de estrutura do livro de Atwood se encaixam à cronologia do seriado, fazendo com que Daisy não seja mais a filha biológica e sim uma importante aliada de June.

Os três últimos episódios da temporada abrem margem para um drama de vingança que coroa o ano inicial de Os Testamentos, ao mesmo tempo em que mostra, na carne, como a série se diferencia de sua antecessora. Mais pop (lembra, até, toques de Bridgerton) e menos lânguida (acabaram os close-ups), há espaço para um tipo de flerte com a juventude que nunca antes teve espaço nesse universo de opressão e luta. Embora apenas Infiniti apareça na lista do Emmy, é Lucy Halliday a atriz que captura a audiência e transforma o que poderia ser outro desperdício de tempo numa atividade imprescindível na agenda semanal da TV.


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