Faces da Morte perde de vista o fio da meada

Terror com Barbie Ferreira e Charli xcx refaz título considerado amaldiçoado pela geração das locadoras

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A relação de Margot (Barbie Ferreira) com a internet é permeada por contradições e débitos. Estrela do bizarro vídeo viral que eternizou a morte da irmã, atropelada por um trem, a jovem ganha a vida como moderadora de conteúdo numa rede social de vídeos curtos. Cliques dividem o que é válido e o que fere a política da empresa, até que uma assustadora sequência de produções acende um alerta na protagonista.

Vídeos que recriam cenas de um filme de terror extraviado das prateleiras das locadoras, chamado de Faces of Death, parecem mais reais do que simples encenações. Margot quer descobrir as origens, mas todos os colegas de trabalho e superiores preferem manter a “liberdade de expressão” em rigor.

Gravado em 2023 e ambientado em 2024, o filme se afasta da influência das criações da IA, especialmente para manter o mistério a respeito da verdade ou da farsa que regem os vídeos do aplicativo (Foto: Shudder)

Incapaz de discernir o que é pessoal e o que é profissional, o roteiro é mordaz em sua apatia. Entre os funcionários, permeia um clima de indiferença apenas combatido com a sisudez e a total desconexão com a realidade. Uma dessas mal-encaradas é vivida por Charli xcx, com sotaque americano e ironia para dar e vender.

Em paralelo, Faces of Death acompanha um solitário expert em tecnologia, papel de Dacre Montgomery, logo revelado como o tal responsável pelas postagens on-line. Dirigido por Daniel Goldhaber, de Cam e How to Blow Up a Pipeline, o filme se presta como reimaginação do original, datado dos anos setenta e dono de uma porção de notas de repúdio, num comentário social a respeito da gerência humana em meio ao caos sem lei da internet.

Faces of Death tem no elenco a presença de Josie Totah, Aaron Holliday, Jermaine Fowler, Kurt Yue e Ash Maeda como um mosaico de vítimas declaradas e veladas da mesma ameaça (Foto: Shudder)

A veia anarquista do cineasta surge nas entrelinhas, como um justiceiro mascarado disposto a investigar o pior de uma paisagem formada de horrores. Os esforços são válidos até segunda ordem, mas Faces da Morte perde sua potência quando comparado, por exemplo, com o tão recente quanto atemporal Red Rooms, compartilhando o interesse pelos vácuos da rede sem fio e os demônios que habitam espaços outrora seguros.

Ferreira primeiro constrói sua Margot como uma alguém digna de redenção, para depois ser vítima do roteiro, escrito em parceria do diretor com Isa Mazzei, numa sequência de convenientes saídas anticlimáticas. Faces of Death abdica da originalidade e do retrato cru da violência para aceitar o status de terror de perseguição, com direito a mocinha vingada, vilão maléfico derrotado em seus próprios planos ardilosos e audiência exausta.

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