Em Spider-Noir, um herói diferente e estimulante

Série do Aranha com Nicolas Cage arrematou 11 indicações ao Emmy 2026

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Disponível no catálogo do Prime Video no formato em cores e no clássico preto e branco, Spider-Noir surgiu como um experimento criativo de Chris Miller e Phil Lord em sua animação do Homem-Aranha no Aranhaverso. O que começou como um rascunho também animado passou para o live-action e concedeu a Nicolas Cage seu primeiro papel na TV.

Receoso de manter-se refém de um personagem por tempo demais, o ator nunca foi ligado aos seriados, mas com Spider-Noir, assinado com a Amazon para um contrato de ensaios e filmagens que não tomava tanto tempo quanto o esperado, Cage adorou o processo – e quer mais. Na produção desenvolvida por Oren Uziel, ele é Ben Reilly, um investigador que vive na NY dos anos 30.

Com um recorde de 11 indicações e sem aparecer nas categorias principais, Spider-Noir disputa os prêmios de Dublês, Canção Original, Trilha Dramática, Maquiagem Protética, Edição de Som, Mixagem de Som, Design de Produção, Fotografia, Efeitos Visuais em Episódio Único, Coordenação de Dublês e Design de Título (Foto: Prime Video)

Reilly é o alter ego do Spider, um herói mascarado que outrora foi sinal de esperança para a metrópole. Tudo mudou meia década atrás, quando Ben perdeu a amada Ruby (Amanda Schull) num acidente trágico e aposentou a persona. A cidade mudou, e passaram a surgir outros indivíduos superdotados que, como ele, possuem ligações perigosas e misteriosas com experimentos dos alemães na Primeira Guerra Mundial.

Construindo a mitologia do personagem, não muito conhecido para o grande público mas popular o suficiente para atrair olhares, a série brinca com o gênero de investigação e abusa de todos os trejeitos da linguagem, seja nas sombras que abraçam a luz, seja em enquadramentos, transições e até na composição visual das imagens. O departamento de fotografia, dividido entre Darran Tiernan (Perry Mason) e Peter Deming (Mulholland Drive), é um deleite.

Spider-Noir tem a direção dividida entre Harry Bradbeer (Fleabag), Alethea Jones (Pacificador), Nzingha Stewart (Daisy Jones & The Six) e Greg Yaitanes (House) [Foto: Prime Video]

Ao longo de oito episódios, a narrativa se desenrola como um mistério do século XX, com ultimatos, ameaças e a boa e velha máfia, desta vez ancorada na presença do inescrupuloso Silvermane (Brendan Gleeson), manda-chuva que comanda a mídia e a política do local. Lutando com as armas que tem em mãos, o repórter Robbie Robertson (Lamorne Morris, de Fargo) busca a justiça e também persegue uma vaga fixa no Clarim Diário.

Se Reilly está desiludido com a vida e a profissão, sua secretária Janet Ruiz (Karen Rodriguez) ilumina o decrépito escritório com bom humor e boas atitudes. É ela quem recebe os potenciais clientes, mesmo que agora o detetive só corra atrás de esposas infiéis e maridos confusos. A rotina da dupla é estremecida com a chegada de uma pista a respeito de Cat Hardy (Li Jun Li, de Babilônia e Pecadores), cantora de cabaré com laços atados ao prefeito e ao mafioso.

Brilham, em papéis de apoio, o pequeno Cary Christopher, de Weapons, e Amy Aquino, relembrando os tempos de E.R. na pele de outra médica (Foto: Prime Video)

É pela figura construída pela atriz que Reilly é fisgado pelo mistério e forçado a encarar o próprio passado, quando foi atacado na Guerra e desenvolveu as habilidades aracnídeas. Esqueça a aranha indefesa que mordeu Peter Parker, pois em Spider-Noir, o personagem de Cage é mastigado por um monstruoso híbrido, nascido dos experimentos nazistas e da semente que abarca o herói e os vilões da vez.

Homem-Areia (Jack Huston), Lápide (Abraham Popoola) e Megawatt (Andrew Lewis Caldwell) são os mais perigosos e mais proeminentes, com origens macabras e destaque para além do que já lhes foi oferecido em outras versões da galeria de vilões do Homem-Aranha. Independentemente de qualquer outra série ou filme, seja Sony, seja Marvel, Spider-Noir se sustenta sobre as próprias oito pernas e mostra que, com criatividade e liberdade, é possível conferir surpresa ao que antes parecia apenas um repeteco. 

A cantora Kirby canta o tema de Spider-Noir, Saving Grace, com direito a uma belíssima criação para os créditos de abertura (Foto: Prime Video)

Spider-Noir não é o primeiro contato de Cage com os heróis: ele quase foi o Super-Homem, batizou o filho de Kal-El e era a escolha primordial de Sam Raimi para o papel do Duende Verde. Por conflito de agendas, Cage recusou, mas colocou Willem Dafoe na mira do diretor. Tantos anos depois, sua versão do Aranha é uma homenagem aos atores da Era de Ouro do Cinema, com Reilly assistindo aos clássicos filmes para, depois da mordida, reaprender comportamentos e ações humanas.

O olhar de maravilha aos poderes é substituído pela visão dos dons como doenças, progredindo a uma morte lenta e dolorosa. Como lema, Reilly nega suas responsabilidades e prefere resolver as situações sem as teias. E, ao encarnar o personagem como alguém passando dos sessenta anos de idade, a série cria facilidades e novas maneiras de pular, se balançar e pousar na nebulosa cidade.

O vilão Lápide faz sua estreia em live-action semanas antes do quarto filme de Tom Holland como Homem-Aranha, onde o vilão também aparecerá, interpretado por outro ator (Foto: Prime Video)

Após o fracasso comercial de Madame Teia, a Amazon cancelou Silk: Spider Society ainda na pré-produção e Spider-Noir quase teve o mesmo destino, mas Nicolas Cage ajudou a salvar o projeto ao sugerir mudanças como uma versão colorida, o novo título e seu distanciamento dos demais projetos da Sony. O showrunner Oren Uziel também revelou planos para uma segunda temporada ambientada na Segunda Guerra Mundial, com a introdução dos vilões Swarm e TypeFace.

Com questões sociais e raciais integradas ao núcleo dramático de um repórter negro, uma cantora asiática e vilões que vivem na periferia, Spider-Noir é também uma leitura inédita e bem-vinda da comumente exaustiva fábrica de adaptações dos quadrinhos. Com o surpreendente número de indicações da produção ao Emmy 2026, não será difícil enxergar um futuro ensolarado, mas sempre em preto e branco, para o Teioso vivido de forma tão caricata e entregue por Nic Cage. 

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