Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças: 20 anos depois, memória e identidade se confundem

Com roteiro de Charlie Kaufman, o filme de Michel Gondry se tornou um ícone cultural ao repaginar a comédia romântica e refletir sobre a consciência

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Durante muito tempo ouvi que Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) retrata o fracasso do amor platônico (e não estão todos os amores platônicos destinados ao fracasso?). Alguns dos filmes cultuados do cinema pós-virada do milênio, como (500) Dias com Ela (2009), dirigido por Marc Webb, e Ela (2013), de Spike Jonze – claramente influenciados pelo longa de Michel Gondry –, parecem estar igualmente presos à idealização platônica: a busca pela perfeição, individualidade e beleza exaltada – valores que transcendem o aspecto físico e material e, por isso, são vistos como “verdadeiros”.

Esse argumento é extensivamente explorado na indústria cinematográfica – e também em cartões de presente e comerciais –, retratando o amor como admiração e contemplação da beleza, a princípio ancorada na visão de Sócrates, transcrita por Platão em O Banquete, de que o amor é a busca “pelo bom e pelo belo”. Ocorre que em nenhum momento senti que essa idealização estava presente no roteiro de Charlie Kaufman, ainda que importante para contrapor a ideia central do enredo. Na verdade, na sequência final do filme, Clementine (Kate Winslet) afirma a Joel (Jim Carrey) que ela não é um “conceito”, mas uma pessoal real, em busca de “paz de espírito”.

Kaufman sugere que a incompreensibilidade da memória e da realidade afetam nossa percepção sobre o amor. Junto a direção engenhosa e visualmente criativa de Gondry – que também assina o roteiro, inspirado numa ideia de Pierre Bismuth –, investiga de forma extensa e filosófica a razão pela qual pensamos tanto.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind chegou ao Brasil em 23 de julho de 2004 (Foto: Focus Features)

Na ocasião do aniversário de duas décadas do filme, somos convidados a revisitar a obra que parece incontornável e, 20 anos depois, ainda muito original, sob o paradoxo de que não há nada novo na história, mas no formato. As convenções narrativas são minuciosamente exploradas para oferecer uma meditação sobre os limites da representação, sobre aspectos da linguagem e, sim, sobre o amor. 

Contudo, grande parte desse êxito, envolto na embalagem da clichê comédia romântica, ocorre pela fotografia de David Lee – o irmão de Spike – e pela edição inteligente de Valdís Óskarsdóttir. Tanto Óskarsdóttir quanto o diretor, Michel Gondry, concordaram na exclusão de uma personagem a princípio central: Naomi, a namorada de Joel interpretada por Ellen Pompeo, de Grey’s Anatomy

Ela desaparece, mas, na prática, não é totalmente excluída: Naomi é mencionada no filme e existe sob as diversas camadas de subtexto do enredo – ela se converte em uma memória mal apagada, que aprofunda a própria lógica interna de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. O fato é que todas as cenas gravadas por Pompeo foram retiradas, e o motivo parece óbvio: Joel encontra Clementine pela primeira vez enquanto namora Naomi.

É um gesto importante. Sabemos que Joel morava com Naomi quando foi à festa na praia com os amigos – onde viu Clementine pela primeira vez –, mas como seria a história se, no início do filme, quando Joel telefona para Clem pela primeira vez, soubéssemos que ele liga para Naomi antes e que essa é a razão pela qual Clementine sente, sem saber, que ele demorou tanto? Certamente, estaríamos falando de filmes totalmente diferentes.

O resultado final segue outro caminho, muito além da trama de traição monogâmica, e esse, a bem da verdade, é o poder da edição em Brilho Eterno. Ainda assim, a sensação que o filme cria é de inevitabilidade e não de acaso, e esse mesmo “subtexto” explica a insegurança de Joel em relação a uma possível traição de Clementine: se a sua história começa com uma traição, por que Clementine não o trairia? A insegurança de Joel é o que leva Clementine a apagá-lo primeiro.

A Clementine “real”, reconhecida por seus cabelos azuis, aparece pouco no filme; todas as outras “Clem’s” de cabelo colorido são projeções de Joel (Foto: EW/Everett Colletion)

Na década seguinte ao lançamento, mesmo já galardoado com um Oscar de roteiro original e sendo ovacionado pela indústria que crítica, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças virou um símbolo geracional, em meio a cultura de compartilhamento de frames e GIFs no Tumblr. Em muitos aspectos, a década de 2010 redefiniu o filme como o clássico do amor possível – a história provável da desilusão e da superação melancólica, profundamente fragmentada, cujo final em aberto pode apenas sugerir um recomeço. E esse mesmo “começar de novo” resume, ciclicamente, uma geração de pessoas perdidas.

O foco de Brilho Eterno nos distúrbios de memória, que sintetizam boa parte da angústia cultural, também ajudam na identificação da obra. O cinismo da conformidade reflete a insatisfação com a realidade e sua consequente melancolia generalizada – “tudo é ruim… Nada pode ser feito?”. Clichês sobre a vida perfeita, se examinados atentamente, já não têm mais o mesmo apelo, e a ideia de que vivemos em um mundo ilusório, moldado por nossa própria consciência, oferece mais conforto do que confronto.

A consequência disso é clara: um mundo individualizado, em busca de uma perfeição impossível, que reflete a ideia infantil de que somos o centro do universo. A beleza que nos toca profundamente reside na percepção das inconsistências do cotidiano e na compreensão de que qualquer realidade construída por nós é repleta de imperfeições. Esse oposto, como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças explora, é bem mais perturbador, sugerindo que nossa interioridade só existe devido a um consenso fabricado.

Kate Winslet foi a única atriz a concorrer ao Oscar por seu papel no filme (Foto: Dazed/Focus Features)

Quase todas as histórias de amor remontam ao mito de Orfeu e Eurídice, no qual Orfeu viaja ao mundo dos mortos para rever sua amada Eurídice e, ao olhar para trás e reverter o tratado com Hades, a vê levada novamente ao submundo. De certa maneira, é o processo pelo qual passa Joel, que implora para que Clementine permaneça viva nas suas memórias, com a diferença de que, nesse caso, Joel deve olhar para trás.

 A trama de Eternal Sunshine of the Spotless Mind (no original) se inicia com premissas básicas da comédia romântica: no Valentine’s Day de 2004, Joel começa o dia desorientado. Ele encontra seu carro amassado, reclama do viés capitalista da data – fundada por “companhias que fazem cartões para fazerem as pessoas se sentirem um lixo” e foge à Montauk, região litorânea em Long Island, a princípio sem motivo ou, no que parece, em uma tentativa de desligar a cabeça. Lá ele encontra Clementine.

A roupa da personagem de Kate Winslet a distingue do tom profundamente azul da praia e das roupas escuras do personagem de Jim Carrey. A cor dos seus cabelos também. O laranja do moletom de Clementine parece um substituto direto do vermelho “da paixão” – uma forma nem tão discreta de refletir sobre o encontro de Joel com sua alma gêmea no dia dos namorados.

Enquanto utiliza cores vibrantes para representar as memórias e os sonhos, o filme trabalha com tons mais frios para o presente, ajudando a diferenciar as duas narrativas (Foto: Focus Features)

Quando Joel cava um buraco na areia e resmunga que são apenas “pedrinhas minúsculas”, ele está involuntariamente dando forma ao buraco em sua memória, sugerindo que sua irritação e apatia é um lamento abafado pela enorme perda de memória que sofreu na noite anterior. Evidentemente, ainda não sabemos o que aconteceu na noite anterior. 

À medida que as informações são reveladas, o drama psicológico de Joel é intensificado, iniciando a busca por pistas sobre o que está faltando. O término doloroso de Joel e Clementine leva-o a optar por apagar todas as memórias do relacionamento, após descobrir que ela fez o procedimento primeiro. Esse método, com elementos de ficção científica, é oferecido pela empresa “Lacuna Inc.”, chefiada pelo Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson).

Kaufman diz que a ideia original para o roteiro veio de Pierre Bismuth, amigo de Gondry, que sugeriu enviar cartões aos conhecidos alertando que a memória sobre eles havia sido apagada (Foto: Focus Features)

O título do filme surge do poema Eloisa to Abelard (1717), do inglês Alexander Pope, no qual se lê: “Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa/ Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida/ Brilho eterno de uma mente sem lembranças!/ Cada prece é aceita, e cada desejo realizado”. Como o poema de Pope indica, o paradoxo central da trama sugere que o apagamento de memórias é o apagamento da identidade.

Conforme o procedimento avança, Joel mergulha nas próprias lembranças e luta para não deixar que tudo seja apagado, imerso na nostalgia que sente à medida que lembra dos momentos bons compartilhados com Clementine. Essa experiência fragmentada – junto a montagem frenética e não cronológica – reflete o turbilhão de pensamentos e lembranças de Joel, em um sentido de dissonância e desorientação que ecoa, ou tenta ecoar, o funcionamento da consciência.

O primeiro roteiro de Charlie Kaufman a disputar o Oscar foi Quero Ser John Malkovich; por esse e outros filmes, venceu o BAFTA em 1999, 2002 e 2005 (Foto: The Talks)

Em uma entrevista a Charlie Rose em 2004, Charlie Kaufman diz que o filme é montado para que “o público esteja exatamente onde o personagem Joel está em todos os momentos”. Do início ao final, sabemos apenas o que Joel sabe. Como reflexo, raramente vemos Clementine ser uma pessoa independente: o que vemos são construções e projeções memorialísticas de Joel sobre ela – uma visão necessariamente distorcida.

Nos minutos iniciais do longa, quando vai à Montauk por impulso e esbarra com ela, Joel reflete sobre o motivo de “sempre” se apaixonar por qualquer mulher que lhe dá “um pouco de atenção”. Nas cenas em que volta à infância, escondido embaixo da mesa, Joel reclama da mãe para Clementine: “Ela está ocupada. Ela não olha para mim”.

A resposta amorosa de Joel à atenção de qualquer mulher foi formada cedo; por isso Clementine pode facilmente assumir os personagens das suas memórias de criança – seja como amiga da mãe ou como um amor da infância. Joel já se apaixonou por Clementine antes, e sempre irá: ela é o arquétipo do seu desejo.

Michel Gondry resiste à tecnologia CGI e realiza todo o filme com ilusões de perspectiva, profundidade e agitações de câmera (Foto: Focus Features)

Brilho Eterno é inteiramente montado para que sejamos empáticos com Joel. A história é contada “de trás para a frente”, com as memórias ruins do relacionamento surgindo primeiro e se tornando melhores, na tentativa de transmitir a nostalgia com que o personagem olha para o passado compartilhado com Clementine – o “efeito” de sentir falta de algo que, talvez, nunca tenha acontecido como foi pensado –, na contramão de outras produções do gênero, que constroem o clímax guardando o pior para o fim.

Embora o filme nos convide ao pensamento filosófico, principalmente acerca do apagamento da memória, parece ter mais a ver com o amor e o seu envolvimento essencial com o passado – particularmente com o passado da infância. Apagar as memórias dos nossos amores afeta nosso próprio sentido sobre segurança, relacionamentos e felicidade, nossas idealizações infantis que futuramente nos moldam.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças ganhou o BAFTA de Melhor Edição pelo trabalho de Valdís Óskarsdóttir (Foto: Focus Features)

Em meio ao processo de apagamento, Joel percebe que aquilo não aconteceu, mas está acontecendo no exato momento em que reflete – os dois técnicos da “Lacuna Inc.” estão no seu apartamento, realizando o procedimento, enquanto Joel praticamente sonha acordado.

Uma das melhores cenas de Brilho Eterno mostra Joel e Clementine na livraria onde ela trabalha. Clementine profere as falas repetidas na sequência final do filme: “Muitos pensam que sou um conceito ou que os completo, que vou fazê-los se sentirem vivos. Sou apenas uma garota à procura de paz de espírito”. 

Em seguida, Joel nos lembra que aquilo é uma imagem, uma idealização na sua própria consciência: “Eu me lembro desse discurso muito bem”. Os livros desaparecem ao longo da cena, como se Joel estivesse focado em não perder os detalhes daquele momento.

Além dos momentos de Naomi, outras cenas do filme também são cortadas na edição final: o primeiro encontro entre Joel e Clementine; um comercial da “Lacuna Inc.”; o momento em que Joel “narra” esse primeiro encontro para o Dr. Mierzwiak; e, provavelmente a melhor: a cena em que Mary (Kirsten Dunst) descobre pela primeira vez que teve algumas de suas memórias excluídas pelo chefe, Mierzwiak, após se apaixonar e se envolver em um relacionamento extraconjugal com ele (no corte final, ela descobre pela segunda vez, mas nunca vemos a primeira).

Quando a esposa de Mierzwiak o encontra com Mary e o obriga a revelar que ele e sua assistente já tiveram um caso, muita coisa da trama principal fica condensada nesse núcleo secundário. O drama se reconstrói: sem saber que fez o procedimento no passado – a seu pedido, segundo Mierzwiak –, Mary repete tudo aquilo que a levou à desgraça original.

Ao avaliar uma experiência retrospectivamente, tendemos a nos concentrar mais naquilo que lembramos como a melhor (ou pior) parte dela, e em como ela chegou ao fim, na tentativa de formular um julgamento sobre quão boa ou ruim a experiência foi em seu resultado final. Ao alterar a consciência, o resultado do próprio apagamento tem o efeito contrário do esperado por ela – e talvez por todos os pacientes: ao excluir as memórias da sua história com Mierzwiak, Mary pôde se apaixonar de novo, pois ao rejeitar certas lembranças permitiu que os erros originais fossem repetidos.

Fato é que todo o elenco coadjuvante brilha tanto quanto o principal, e Mark Ruffalo, David Cross, Jane Adams e Elijah Wood se somam a Dunst e Wilkinson para construir uma história paralela, que dá suporte aos papéis de Carrey e Winslet. Enquanto Joel e Clementine são, em muitos aspectos, a representação de arquétipos modernos do amor romântico, lutando para reconciliar suas próprias naturezas imperfeitas e contraditórias, os demais personagens estão determinados a separá-los.

Apesar de um roteiro extenso, a maioria dos atores improvisaram muitas de suas falas; Winslet e Jim Carrey se aproximaram ao compartilhar experiências fracassadas reais (Foto: Focus Features)

A trilha sonora de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é igualmente marcante, desempenhando um papel crucial na narrativa e na atmosfera do filme. Composta por Jon Brion, sob influência de Brian Eno, a música evoca uma ampla gama de emoções que complementam a jornada sentimental dos personagens. Os álbuns de Björk, artista para quem Gondry dirigiu videoclipes, e Tom Waits também serviram como referências importantes para a construção da trilha sonora.

Brion, conhecido por seu trabalho em filmes como Magnólia (1999) e Embriagado de Amor (2002), de Paul Thomas Anderson, produziu junto a Kanye West Late Registration (2005), disco vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Rap de 2006. Sua música, majoritariamente instrumental, muitas vezes apresenta um tom melancólico e contemplativo, alinhando-se perfeitamente com a temática central do filme, que investiga o amor, a perda e a memória.

As composições experimentais ajudam na construção do mundo onírico e surreal da consciência de Joel. Além disso, a contribuição de Beck no cover do sucesso dos Korgis lançado em 1980, Everybody’s Got to Learn Sometime – que toca em dois momentos-chave do longa –, acrescenta uma camada adicional de significado.

No desenrolar do filme, diversas memórias permanecem ocultas, sendo desbloqueadas por estímulos externos. Joel percebe que prefere lembrar de Clementine por completo, com todos os aspectos que o fazem sofrer, do que perdê-la para sempre. No entanto, ao decidir apagá-la de sua mente, ele está recordando os piores momentos de seu relacionamento, com raiva ao lembrar do término.

O filme ecoa a ideia do “eterno retorno” de Nietzsche, sugerindo que tudo é cíclico e está acontecendo agora ou já ocorreu, em uma repetição infinita. Os personagens estão todos preocupados com esse retorno, sendo percebidos como “reencenadores” de sua própria condição, já que o avanço (do enredo, da história e do tempo) inevitavelmente leva ao passado. Em Genealogia da Moral (1887), Nietzsche ainda observa que “o esquecimento é uma atividade da mente”.

Porém, Brilho Eterno argumenta que existe uma camada profunda de sentimento que preserva a originalidade das memórias. Lembramos porque sentimos enquanto vivemos as lembranças; elas permanecem em nós porque se destacam do cotidiano, são retiradas do contexto e nos marcam por alguma razão. Joel e Clementine, ao final, estão presos à primeira impressão um do outro, condenados a se amar profundamente. Mas o primeiro encontro que vemos, na verdade, já é o segundo. Apesar de terminar com uma esperança irracional, a beleza trágica do filme está em sua realidade: não há nada platônico, apenas um encerramento dolorosamente belo e verdadeiro.

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