Ela aparece quase que sem aviso, de maneira repentina mas avassaladora. É uma casa grande, de madeira, com escadas que dão para um segundo andar escuro; nunca morei lá, mas sonho com a mansão em tom de terror de tempos em tempos. A sessão de Backrooms: Um Não Lugar me levou de volta a este pesadelo.
Não há razão material ou direta para o senso de assombro e tensão que surgem no momento que deveríamos, em tese, espreguiçar-nos em segurança e descanso. No filme de Kane Parsons, a réplica é desafiada numa loja de móveis, onde o fragilizado Clark (Chiwetel Ejiofor) encontra uma porta para lugar nenhum.

Ou pior: uma porta para um espaço hermético, amarelo-mofo, repleto de corredores angulares e aberturas geométricas, onde fios correm sem se conectar a aparelho algum e o tempo passa sem alarde; para dar vida a esse pesadelo, a produção construiu cerca de 2.800 m² de Backrooms, fazendo com que parte da equipe ocasionalmente se perdesse no próprio set.
Surgido em forma de mistério na internet, o conceito dos Backrooms ganhou corpo em um curta que Parsons, criado nos corredores do YouTube, usou de cartão de visitas. Aos 20 anos, quebrou recordes ao assinar o longa da A24, sucesso entre o público e o resultado de criatividade e ambição.

Quando os créditos sobem, ao fim das quase duas horas de incerteza emocional e racionalização desmedida, os nomes de grandes astros de Hollywood (Shawn Levy, Osgood Perkins e James Wan, por exemplo) apontam para a esquizofrenia que habita Backrooms, que por um lado, é frívolo no pesadelo em primeira pessoa, apostando no primitivo em vez do luxuoso no terror. Por outro, usa a terapeuta interpretada por Renate Reinsve como enciclopédia para os dramas da infância, as situações não resolvidas e a mecânica do espaço liminar.
Parsons nada contra a maré, mas não é nenhum milagreiro. Ao jogar o jogo da indústria, e tornar palatável sua visão de um mal invisível e infinito, ele precisa remendar aqui, retocar ali, e transformar em texto falado tudo que seria muito mais eficiente se ficasse no campo do não dito. Skinamarink, primo distante de Backrooms, provou o lado artístico de tal ideia inerte de medo, com resultados divergentes.

Quanto aos aspectos técnicos, a criação dos espaços, tão abarrotados de objetos incomuns, sujos e nefastos quanto potencialmente nocivos, é um trabalho à parte. O design de produção, assinado por Danny Vermette com direção de arte creditada a Alan Derksen e decoração dos sets a cargo de Trevor Johnston, cria minúcias que habitarão o lado sombrio de muitos sonhos daqui para a frente.
Na era do toque instantâneo, o lado vergonhoso e vertiginoso de Backrooms é um elemento que rejeita a brevidade e no lugar se assenta entre o que há de mais inconveniente e o que há de mais visceral. É, sobretudo, uma ordem de despejo ao lixo criado por robôs, incapaz de, ao modelar rostos, corpos e móveis, imprimir a alma em súplica do ser humano, suas noções de grandeza e de inferioridade.


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