Capa, contracapa, folha de rosto e orelhas: a edição brasileira de A visita cruel do tempo está repleta de elogios, prêmios e citações de críticas que exaltam o livro de Jennifer Egan. Com uma sinopse vaga, a decisão de estampar a qualidade da obra é digna de menção – e totalmente verdadeira.
No livro, conhecemos personagens aparentemente solitários que se relacionam de uma maneira ou outra, normalmente indiretamente. O foco não é amarrar fatos ou traçar conexões, e sim entender o caráter cíclico e empírico de Egan, vencedora do Pulitzer em 2011 pelo romance tão arrebatador quanto audacioso.

A escritora americana muda de tempo e avança entre o hoje e o ontem, muitas vezes abrindo mão de certa coesão narrativa para melhor explorar os temas de solidão, pertencimento e ansiedade da história. Existem mudanças estilísticas (tipo de narrador, que varia entre primeira, segunda e terceira pessoas), além de uma total compreensão do que faz aquele grupo de pessoas tão singular e distinto.
A visita cruel do tempo opera em seu próprio território, mesclando o tradicional com o moderno – e até oferece um capítulo completamente visual, em forma de slides de uma apresentação que tenta resumir uma infância para lá de complexa. O risco é pago com qualidade e assertividade, rendendo uma experiência de avassaladoras consequências emocionais. Uma jornada que, tamanho poder de observação, coloca quem lê no mesmo balaio, analisando o efeito nocivo e maravilhoso do passar dos dias, dos meses e dos anos, com uma vida inteira escorregando por entre as frestas.


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