A paixão entre Ned (Domhnall Gleeson), editor-chefe do Toledo Truth Teller, e Mare Pritti (Chelsea Frei), sua colega de redação e subordinada na hierarquia trabalhista, é tratada como proibida pelos roteiristas da segunda temporada de The Paper, o derivado bem apartado de The Office que foi encolhido para o formato do streaming.
A decisão de focar os dez episódios inéditos nessa dinâmica de segredos e aparências do casal protagonista tira o fôlego da série criada por Greg Daniels e Michael Koman, abrindo mão de explorar o excêntrico grupo de funcionários do estabelecimento e, portanto, de estreitar os laços da audiência com eles.

De novidade positiva, The Paper traz Lisa Gilroy, comediante pau-para-toda-obra com participações recentes em Jury Duty e Shrinking, como uma funcionária do RH com mais interesse do que profissionalismo. Por ela, conhecemos as políticas da empresa e até os limites das relações entre o pessoal na mesma folha de pagamento.
Os demais personagens ganham arcos simplórios e passageiros, com a exceção de Esmeralda (Sabrina Impacciatore), a bolha de energia e caos que perde seu espaço no jornal e precisa se indispor com bilionários fictícios, uma inquisidora colega de esporte do filho e o sistema educacional que oprime os garotos. A atriz italiana é perita em roubar a cena, e faz seu carisma e presença serem sentidos quando The Paper olha demais para situações sem muito fundo.

O pior é que, na ânsia de focar em Ned e Mare, escapam da ótica dos diretores e roteiristas outros enroscos românticos que parecem mais maduros e bem-resolvidos. Caso do cataclísmico evento passado em paralelo ao episódio Tornado Alert, quando Adelola (Gbemisola Ikumelo) e Travis (Eric Rahill) passam por uma prova de vida ou morte – e não conseguem tocar no assunto.
Já Detrick (Melvin Gregg), cada vez em posição de maior conforto como jornalista, se afasta de Nicole (Ramona Young), rendendo uma dinâmica de inimigos outrora amantes que culmina na season finale, momento em que o jornal enfim publica seu furo de reportagem e os personagens tomam decisões que parecem ao mesmo tempo promissoras e premonitórias.

Oscar (Oscar Nuñez) quase cai na cilada de um simpático funcionário da casa de repouso, e até recebe uma ligação do amigo Kevin quando a cidade é atingida pelo tornado, mas o único veterano de The Office passa a segunda temporada narrando pequenas intrigas e fofocas. No topo da cadeia, o chefe Marv (Allan Havey) acaba enclausurado num acordo que borra as linhas do jornalismo e da integridade, e cabe a Ned, e à distante Mare, revolver a maneira correta de lidar com as pressões externas.
Menos espirituosa e lapidada que em seu ano anterior, The Paper retorna ainda simpática. Com uma trupe de atores vivendo personagens tão caricatos quanto preciosos, é difícil, mas não impossível, deixar a peteca cair. Quer o Peacock renove a comédia, fica a esperança de uma leva de episódios com mais do grupo e menos de casais isolados.


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