Em Um Novo Dia, o Homem-Aranha quer que o tempo voe

Tom Holland lidera um time inusitado de personagens da Marvel em direção ao futuro

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Multiverso, feitiço de esquecimento, solidão e maturidade são os propulsores da opaca rotina de Peter Parker (Tom Holland) no quarto filme que protagoniza como Homem-Aranha. Exorcizado o fantasma moribundo de Jon Watts, cabe ao diretor Destin Daniel Cretton, de Shang-Chi e Magnum, intercalar a trama do herói com outra meia dúzia de personagens importantes e mirar um futuro ainda distante.

Dependesse do diretor e dos roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers, Um Novo Dia ganharia sequência agora mesmo, e que se explodam os próximos filmes dos Vingadores, com a ameaça do Doutor Destino e outro derivativo crossover entre os action figures da Marvel com a velharia em forma de relíquia da Fox. A sensação de tempo perdido está impressa na maneira que Peter reintroduz a audiência a rotina do Teioso.

A mutação de Peter ativa um senso de terror corporal ao filme, com olhos pretos e muita teia orgânica pegajosa (Foto: Marvel)

Pela montagem, flashes de lutas, aniversários, formaturas, amizades e o que faz a vida ser vida passam pelos olhos de Peter, que encontra na detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas, de The Bear) o único contato frequente em sua lista telefônica. Agora esquecido por todo o mundo, inclusive por MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon), o protagonista foca no trabalho e abdica da própria identidade de Peter Parker. Oportunidade desperdiçada de realmente tirar todos seus privilégios, como o epílogo do longa anterior parecia prometer, já que em Brand New Day o herói tem acesso à assistência de EV (Naomi Watts), além de tecnologia de ponta e nenhuma preocupação com o aluguel.

Por unir tantos personagens aparentemente dispersos entre si da Marvel, o filme justifica sua tese com uma ideia principal: o que significa perder o controle e se entregar à escuridão? Temos exemplos para todos os casos possíveis, como a outrora sombria Yelena (Florence Pugh), agora alinhada em seu propósito novo; ou o rabugento Frank Castle (Jon Bernthal), que usa o manto do Justiceiro como armadura contra o trauma que lhe tirou a família. Ainda, o professor Bruce Banner (Mark Ruffalo), após anos de batalha interna contra o Hulk, parece disposto a sacrificar e domesticar seu outro lado a fim de aproveitar a paz momentânea.

Para salientar o papel do passado, o filme pesa a mão em cenas repetidas de Peter com MJ e Ned (Foto: Marvel)

E então chega Jean Grey (Sadie Sink), poderosa telepata que invade a mente de pessoas comuns em busca de uma informação privilegiada e escondida pela burocracia de Bill Metzger (Tramell Tillman, de Ruptura). Primeiro como vilã, a adolescente transforma o desafio complicado em tarefa impossível, e só se conecta a Peter tarde demais, numa sequência que apresenta o potencial da personagem ao mesmo tempo em que amadurece o Aranha para uma figura de mentoria que antes ele buscava em qualquer adulto responsável.

A escolha de introduzir uma das futuras caras dos X-Men como a antagonista do quarto filme do Homem-Aranha pode ser creditada ao planejamento maquiavélico dos produtores Kevin Feige e Amy Pascal. O resultado nem sempre convence, com boa parte das cenas de Jean perdendo o lado afiado e trágico de sua origem para, no lugar, encher a tela com uma batida motivação para sua “vilania”.

Cretton devolve o peso e a dimensão monstruosa do Hulk e brinca com a câmera em primeira pessoa e a jornada física de se balançar pela cidade (Foto: Marvel)

No meio do caminho, Parker torna a repetir seus fantasmas, chegando à conclusão que já havia rumado sua decisão quando Doutor Estranho lançou o feitiço. Um Novo Dia encontra a maneira perfeita de despedir-se da dinâmica romântica do casal principal, assim como esse arco de eterno aprendizado do Homem-Aranha teen.

É apenas quando ele é atravessado por questões íntimas, caso da mutação aracnídea que toma controle do seu organismo e o obriga a decidir entre um inibidor ou a liberdade de transformar-se no que deve ser, que Holland troca o disco. Depois de anos e de filmes interpretando um imaturo mas corajoso personagem, o britânico ganha a oportunidade de exercitar outros músculos – e também, quem sabe, encaminhar seu próprio adeus.

Trio em dobro: além de Um Novo Dia, Tom, Zendaya e Jon podem ser vistos em A Odisseia, também em cartaz (Foto: Marvel)

Zendaya também ganha a chance de fincar os dentes nos dilemas de MJ, numa sequência que começa com enlaces inofensivos e revela o tamanho da gana de Jean. Na direção, Destin Daniel Cretton brinca com ângulos, posição da câmera e com a agilidade do personagem, que até recria capas icônicas dos gibis nas brevíssimas participações de Lápide, Tentáculo, Boomerang, Tarantula, e Ramrod. O Escorpião, vivido mais uma vez por Michael Mando, é o único com mais de uma cena.

Para toda a suculenta carga dramática de tal argumento, Um Novo Dia precisa se abarrotar em cento e quarenta e cinco minutos de vários filmes dentro de um filme. Com o Justiceiro, vemos uma comédia em dupla com potenciais divergentes. Com Banner, um complicado e delicado estudo do que significa ser especial – e quem decide o valor de tal acaso. Com Jean, o filme mergulha nas inspirações da ciência que extirpa a autonomia, e sem querer querendo cai numa caixinha parecida com a jornada de Eleven, a personagem de Millie Bobby Brown em Stranger Things, série que “revelou” Sink para o mundo.

Sadie Sink e sua Jean Grey abrem alas para a Saga dos Mutantes no cinema (Foto: Marvel)

Com as promessas feitas no Hall H da Comic Con, a Marvel ainda encarará outro pastiche de ação e nostalgia com Doomsday e Guerras Secretas. Entressafras, o Aranha deve segurar as pontas e ser parte da apresentação dos mutantes. Ainda neste agosto, a convenção D23 deve aquecer as expectativas e, possivelmente, apresentar os rostinhos que habitarão a Mansão X e serão tutelados ao lado de Jean.

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