Na 3ª temporada de Euphoria, o faroeste protestante e patriota de Sam Levinson

Polêmica e borbulhante até o momento final, drama da HBO se despede de forma fria

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Entre organizar cronogramas de gravações e conciliar a agenda de seus agora superastros de Hollywood, a produção da 3ª temporada de Euphoria foi um pesadelo burocrático. Mas quem assiste desavisado aos oito episódios inéditos não faz ideia de tamanho caos atrás das câmeras. Quatro anos depois de vermos Rue (Zendaya) marcada pela chefe do tráfico Laurie (Martha Kelly), os tempos de colegial ficaram mesmo para trás.

A mudança repentina de ambientação e tom atesta o poder visual que Sam Levinson, criador, roteirista e diretor, comanda sob mão de ferro. Esqueça o neon que escorria entre lágrimas da primeira temporada e nem pense no retrato analógico que intoxicou os mais ávidos cinéfilos na segunda. Faz calor no deserto do momento, com a protagonista indo e vindo pela fronteira, como mula do cartel.

Como o Diabo que antagoniza a Bíblia e Rue, Alamo distribui acordos, mas não se esquece de cobrar os juros (Foto: HBO)

À parte de algumas decisões que resultam em vácuos narrativos de personagens queridas pela audiência (Kat some, Fezco é preso), Euphoria destrincha sua história ao redor de Rue e sua estadia nos negócios de Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e de Cassie (Sydney Sweeney), a polarizante bombshell que acaba envolvida entre o conteúdo em sites de intimidade e o casamento com o príncipe que há muito foi desmascarado como sapo. 

Outrora na escala microscópica dos namoros adolescentes que acabavam em ressaca moral, as consequências desta vez ganham corpo pela violência e pela periculosidade. São forças gravitacionais inéditas na rotina de Rue e cia, um grupo de amigos mantido respirando pela personagem que Zendaya continua construindo entre expressões faciais tagarelas e respiros de perdição e arrebatamento.

Martha Kelly continua com sua assombrosa presença silenciosa, e ganha a companhia de James Landry Hébert como o jovem raivoso Wayne (Foto: HBO)

Escondendo suas motivações, ela dorme na casa de uma, passa o fim de semana no apartamento de outra, e vai costurando, lentamente, o avesso do bordado de Euphoria. Lexi (Maude Apatow), agora uma estagiária vivendo a própria versão B de Hacks, é contra as decisões de todas as amigas, mas permanece fiel ao ciclo.

Maddy (Alexa Demie), igualmente hierarquizada abaixo do que considera ideal, enxerga na nova vida de Cassie a oportunidade perfeita para cobrar com juros a dívida nascida tanto tempo no passado, e confessada entre os relapsos sóbrios de Rue. As dinâmicas são balanceadas sem a influência do carma ou da justiça divina.

Os lábios de Faye denunciam o esquema de Laurie (Foto: HBO)

Com homenagens destacadas ao gênero do faroeste, Levinson é fluente na hora de transmitir a mensagem pela imagem, não atendo-se ao texto nem ficando refém dos diálogos. Euphoria está em seu ápice quando a trilha ensurdece e a câmera alonga as ações para além de seu tempo material, como a cena centrada num bolo de dinheiro atravessando a sala de estar dos caipiras.

Os rednecks com afeições pelo nazismo representam o lado de lá de uma equação sem resultados positivos, com a ingênua (mas não inocente) Faye, a personagem de feições inesquecíveis de Chloe Cherry, hasteando a bandeira branca sempre que lhe convém. No lado oposto do ringue, Alamo e seu quartel-general travestido de clube de strip-tease é outro dos mundos inéditos para Rue, acumulando o capital que primeiro a seduz e depois a envenena.

Jacob Elordi ganhou uma sequência de morte com toques avassaladores de horror e ojeriza (Foto: HBO)

Pego na linha de frente, o Nate Jacobs de Jacob Elordi se destaca pelos motivos errados. Fora do núcleo principal, o personagem que já teve aspirações vilanescas e carregava a inebriante sedução de bad boy agora é uma sombra de seu passado. As cenas são solitárias, assim como o destino, na chocante revelação do penúltimo episódio. Não sabemos se foi a agenda cheia (entre filmes de prestígio e aparições em tapetes vermelhos) ou outro dos inúmeros fatores externos que afetam Euphoria mais do que qualquer outro drama vigente, mas é certo a destruição da personalidade, da moral e dos feitos de Nate.

O momento que concentra o que soa como sua canção do cisne em termos dramáticos e narrativos acontece no casamento, onde o agora empresário falido encara o pai, na performance sempre calibrada de Eric Dane, morto semanas antes da exibição do capítulo, e também olha no fundo dos olhos de Jules (Hunter Schaffer), a garota por quem metabolizou tanto ódio e inveja no Ensino Médio. Em constante brutalidade, Nate é mutilado, espancado e, por fim, privado de oxigênio, tudo por conta de uma espécie quase extinta da flora local, impossibilitando que as construções tomassem parte e que a dívida com os argelinos fosse paga.

Essa festa virou um enterro (Foto: HBO)

Se antes Cassie se via à mercê das ações de Nate, a vida adulta inverte as concepções. Morando num complexo de apartamentos, a estrela do OnlyFans é toda empreendedora e só visa o lucro. Como numa comédia de costumes de John Waters, Sweeney espreme o suco do desespero nas mais prazerosas e inoportunas situações, com muitos ensaios sensuais, gravações de áudio para seus fãs excitados e até um esquema de remessas com calcinhas usadas. É crasso e vulgar, ou seja, o território em que a polêmica atriz melhor colhe frutos.

Sua única fatia de vulnerabilidade acontece por acaso, quando Maddy e Lexi, em opiniões opostas, levam Cassie à frente das câmeras da novela produzida pela chefe da mais jovem, papel de Sharon Stone (sabe-se lá por que). Do take de improviso, brotam as lágrimas acumuladas desde os tempos do colégio, com o pedido esfarrapado de desculpas por roubar o namorado alheio rendendo, sem querer, elogios dignos de uma dama da telinha. 

Vestida como santa à sua maneira, Maddy precisa cruzar a linha da humanidade para salvar Cassie (Foto: HBO)

Para acompanhar o tom oscilante e a estilização dos roteiros de Levinson, a trilha sonora de Hans Zimmer, substituindo Labrinth em outra polêmica saída de Euphoria, é hit or miss. No casamento, por exemplo, a entrada triunfante de Maddy parece saída de um despertador de celular Samsung. Porém, nas perseguições do Velho Oeste que envolvem o grupo de Laurie e os capangas de Alamo, as sequências ganham fôlego e remorso, numa eternizada busca por sentido e glória.

Entretanto, é no clube do chefe de Rue que a temporada mais se prova experiente. Os ajudantes agregam com performances contidas mas expressivas de Marshawn Lynch, Darrell Britt-Gibson, Kadeem Hardison e Asante Blackk, assim como as garotas, em especial as vividas por Rosalía, Priscilla Delgado e Anna Van Patten. 

Temporada contou com participações especiais de grandes nomes da indústria, como Danielle Deadwyller como a mãe trambiqueira de Alamo, e Natasha Lyonne como a trabalhadora do sexo que atendia Ali no passado (Foto: HBO)

Quando expande o faroeste para além de suas amarras visuais e portanto se embrenha nos duelos cheios de estilo e perigo, Sam Levinson serve de bandeja uma series finale que se estica por noventa e dois minutos. Rue, após cumprir sua missão e acreditar estar destinada aos Campos Elíseos, como na Bíblia que a acompanha de maneira física e literal, acaba assassinada. 

A crise dos opioides, um tema vigente nas questões de saúde pública norte-americana, e uma das pedras de sustentação da premissa de Euphoria, coleta outra vítima quando os comprimidos para dor passaram de meros analgésicos para o plano final de Alamo. Sozinho para recolher os cacos, Ali (Colman Domingo) abraça os silêncios pontiagudos e faz da ausência de sua filha de coração o combustível para o embate sangrento, gelatinoso e satisfatório que culmina nas muitas liberdades provenientes do vácuo.

Enterrada até à cabeça com todo tipo de problema, esta é Rue, capturada pela fotografia inventiva e nunca repetitiva de Marcell Rév (Foto: HBO)

Cassie, livre de dívidas, monta um império sem autonomia. Sua tomada final, um zoom-out que transforma a luxuosa mansão em casa de bonecas com ares de prisão, é sinal gritante desse mundo sem ilusões de grandeza. Jules, do alto da cobertura que a afastou de todas as amigas, e onde se despediu de Rue com um tabefe na bochecha, só tem os quadros em branco e as tintas em tons ferventes para exorcizar os próprios demônios, também numa relação de mestre e serva, desta vez com o sugar daddy que banca os gastos.

Igualmente presa no limbo de culpa e desdém, Lexi enxerga na Bíblia herdada de Rue uma maldição impossível de ser ultrapassada ou quebrada. Quem merece perdão?, indaga a protagonista, que fecha Euphoria do além, sorrindo para um realizado Ali, ao lado da família de interioranos religiosos que a acolheu entre as idas e vindas da fronteira.

In God We Trust dura uma hora e trinta e dois minutos, um recorde para a série e para a emissora (Foto: HBO)

Patriota no que tange o estado atual dos Estados Unidos, imersos na maníaca busca por divindades, poder e autonomia em meio a todos os cortes de liberdade, a série se fecha no impiedoso ciclo do vício. Não há saída que não a atual, onde fugir da realidade é eficaz até segunda ordem. Que Deus abençoe a América – todos seus cidadãos e fragmentos de alma e de misericórdia, afogados, dormentes. 

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