Veneno abarca a magia, o mistério e a maldição de uma estrela 

Minissérie espanhola é mágica e dolorosa ao extrapolar os limites da memória de uma ícone maltratada por tudo e todos

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Uma personalidade tão calorosa e ardida quanto Cristina Ortiz demandava uma telebiografia excêntrica, colorida e criativa. Por sorte, a minissérie Veneno, criada por Javier Calvo e Javier Ambrossi, segue à risca a cartilha de delírio e amor que daria orgulho à homenageada.

Com base no livro ¡Digo! Ni puta ni santa. Las memorias de La Veneno, escrito por Valeria Vegas a partir de dezenas de relatos e encontros com Cristina, a produção, original do Atresplayer Premium na Espanha e disponível na HBO Max brasileira, parte de uma premissa sentimental para então refletir sobre as muitas vidas de Veneno. Com recordações costuradas ao presente, a infância de Joselito é visitada com encanto e nostalgia.

Veneno capricha nas recriações históricas, da vila que pariu Joselito ao design quase pitoresco do Parque do Oeste, do estúdio televisivo do Esta Noche Cruzamos el Mississippi ao apartamento mobiliado em lembranças da protagonista (Foto: HBO Max)

No elenco, a série escala uma porção de atores e atrizes para sentirem na pele as distintas fases da vida e do amadurecimento de Veneno. Antes da transição, os papéis de criança e adolescente ganham na sensibilidade de Guille Márquez e Marcos Sotkovszki não uma reinvenção ou um casulo protetor, mas sim o brilho que sempre existiu na mulher.

Mais adulta, Veneno é interpretada a princípio pela fúria controlada de Jedet, para depois desbocar na estridente e carnívora performance de Daniela Santiago, a atriz que ganha a difícil tarefa de colocar em atos e sentimentos os anos “mais famosos” da personagem.

A verdadeira Valeria Vegas, autora do livro que inspirou a série, faz uma pontinha e divide cena com sua versão fictícia (Foto: HBO Max)

Mas o trunfo de Veneno, e sua forte pancada emocional, surge pela terceira encarnação, por uma inspirada e intransigente atuação de Isabel Torres, a versão mais baqueada e em carne viva da protagonista. Da prisão masculina ao ultimato dado contra Valeria e Paca “La Piraña”, esta Veneno personifica a essência de uma existência de negações.

Semi-analfabeta, caiu no trabalho do sexo como única saída da vida de marginal sem dinheiro. Mais tarde, os vícios em homens romenos terríveis e em rememorar um passado de dores distantes para com a mãe violenta, a colocaram mais uma vez na rota da autodestruição. Ao longo de uma década, do momento que Valeria a encontra para a data da publicação do livro, Cristina envelhece um século.

Quando a pandemia aconteceu, apenas 4 episódios haviam sido filmados, por isso algumas cenas foram feitas em animação a fim de desafogar o calendário de gravações, restritas pelo COVID (Foto: HBO Max)

Na direção, Os Javis empregam o surrealismo e a fantasia, conversando com as memórias numa linha direta com o presente. Não é raro que personagens do passado falem diretamente com suas contrapartes futuras, traduzindo o ato jornalístico do relato numa experiência quase alucinógena de introdução ao cosmos de alguém.

Valeria, em paralelo à origem que anota entre a velha tecnologia do fim da década de dois mil e o início dos anos 2010, descobre-se na mesma rapidez com que se entende. Sua transição, encarada de maneira primorosa pelas escolhas de postura, voz e olhar de Lola Rodríguez, é um extravaso poético que faz par com uma história muito mais triste e trágica, contada pela veterana.

Veneno ganhou espécie de continuação, batizada de Vestidas de Azul, trazendo de volta Paca, Valeria e figuras pioneiras da comunidade trans na Espanha (Foto: HBO Max)

Entre estúdios de TV, boates, as ruas desertas do Parque do Oeste e os corredores vis da prisão, Veneno fabrica a realidade irreal e a rotina dolorosa de uma figura controversa, espontânea e detentora de inúmeros elogios e críticas. Alguém que, para viver sua verdade e sua felicidade, precisou afogar as esperanças e sofrer mais, e mais, e mais. A identidade trans, tão atacada pela mídia e por parcelas violentas da sociedade, é celebrada e reverenciada por realizadores tão gratos quanto maravilhados pela mágica de ser quem se é, sem concessões, sem licenças, em total vigor e voltagem. 

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