Eu Não Te Ouço desenrola o tapete para o espetáculo de Márcio Vito

Drama satírico de Caco Ciocler transforma o “patriota do caminhão” em protagonista de Cinema

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Tudo começou, como é costume na política brasileira, com um acontecimento estapafúrdio: o homem agarrado à dianteira de um caminhão, enquanto o país borbulhava com manifestações à favor do derrotado candidato à reeleição presidencial. O diretor Caco Ciocler decidiu dramatizar o encontro entre quem dirigia e quem se prendia aos fantasiosos ideais. 

Eu Não Te Ouço coloca o ator Márcio Vito para viver os dois papéis: atrás do volante, é o motorista indignado com a situação mas ciente de que o buraco é mais embaixo; do lado de fora da cabine, é o manifestante, que metralha opiniões e xingamentos, impossível de ser convencido ou amansado. 

O roteiro é escrito em trio pelas mãos do diretor, do protagonista e da atriz Isabel Teixeira, a Maria Bruaca do remake de Pantanal. O texto é teatral, como dois monólogos enfileirados na mesma linha de partitura, com as conversas acontecendo de forma unilateral. Há humor pérfido na construção do “patriota”, mas é na chave da frustração que o filme firma seus dogmas.

A trilogia política de Caco Ciocler surgiu após a eleição de Bolsonaro, depois durante a pandemia e, mais recentemente, após a derrota do candidato à reeleição (Foto: AMAIA Distribuidora)

A ficção se rende à realidade, seguindo os passos de outros personagens surgidos no imbróglio político do país desde que Dilma saiu do poder, foi sucedida por Temer, Bolsonaro e agora por Lula. Num Brasil onde as notícias não devem nada à fantasia, Ciocler dramatiza e ironiza usando um estúdio virtual e a potência de seu muso.

Vito foi agraciado com o Troféu Redentor de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos no Festival do Rio; antes, Eu Não Te Ouço passou também pela 49ª Mostra de São Paulo. Espécie de “terceiro capítulo” numa série política não-planejada de Caco Ciocler, o filme segue os passos dos documentários Partida (2019) e O Melhor Lugar do Mundo é Agora (2021), também pautados na veia político-social de uma nação em constante ebulição. 

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