30 filmes antes dos 30 | Noruega

Não se preocupe Nora, aqui em Bauru – SP a gente entende exatamente o que você está passando

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A ideia para essa coluna veio ao fazer 29 anos. Resolvi traçar 30 coisas que queria fazer antes de completar 30 e no meio da lista percebi que não é fácil pensar em tantas metas para realizar no espaço de 365 dias, então pedi sugestões e do meu irmão surgiu assistir 30 filmes de 30 países diferentes e cá estamos.

Têm filmes que nos surpreendem por superarem expectativas, mas quando você já tem certeza que vai ser bom, ainda existe espaço para um elemento surpresa, sem precisar de grandes reviravoltas? A exibição de Valor Sentimental no sofá da minha sala no começo de Abril prova que sim.

O verdadeiro pai de Sophie e a Pior Pessoa do Mundo (Foto: Deadline)

Muitos textos meus começariam com a explicação de que eu faço parte de um clube secreto. Um que qualquer pessoa, talvez tirando a Jennette McCurdy, não gostaria de participar, um que você só conhece quando começa a fazer parte, e que só é entendido por quem participa. O Clube das Pessoas com Pais Falecidos Cedo Demais. E nesse clube você ganha óculos que te fazem ver tudo diferente. A gente nunca sabe quando vai bater, mas a gente sempre percebe quando bate. Hoje em dia eu só aproveito pra sentir saudade. E por isso começo agradecendo Valor Sentimental.

Daddy issues já é tão batido que quando um filme te faz sentir algo novo é sempre relevante. Eu não me atrevo a criticar através das lentes de pessoas que entendem mais do que eu sobre o assunto, mas eu senti algo do começo ao fim e apesar de contra intuitivo, talvez a cena que mais tenha me marcado foi a de Gustav virando as costas para seu amigo quando percebe que está velho demais, com medo do espelho constante do seu próprio envelhecimento.

O tempo passa – e pelo amor de deus eu tenho só 29 anos, eu sei, mas não deixo de sentir que felizmente isso nunca para. Porém, o medo da solidão, das rugas, da falta de atenção, das dores nas costas, parecia mais gritante quando eu tinha 23 do que agora passando pelo retorno de saturno, e acho que só volta quando o medo se torna realidade e talvez a gente perceba que nem é tão ruim quanto a gente imagina.

As madeiras pesadas e os vasos de murano se misturam como a realidade das irmãs (Foto: Film and Furniture)

O óbvio precisa ser dito, as atuações são maravilhosas, o roteiro é maravilhoso, mas o que mais me encantou foi a casa. Nessa  jornada dos meus 30 filmes de 30 países antes dos 30 anos, busco também conhecer um pouquinho de outras culturas, e acredito que o que mais me ajudou a adentrar – e me identificar – com a cultura norueguesa foi o cenário onde a família Borg cresceu.

Como grande entusiasta dos filmes da Nancy Meyers, eu me apaixono instantaneamente quando a casa parece vivida, quando as janelas permitem a luz natural dançar, o móveis são de madeira, as paredes brancas parecem ter sido pintadas de domingo, os copos são diferentes, os vidros são coloridos e a bagunça faz parte.

A rachadura na parede que é quase um protagonista, as histórias que se cruzam ao longo das gerações, tudo isso é fiel ao que imaginaria essencial para contar a história de qualquer família.

 “A casa ficou mais calma com a partida do pai, mas ela já sentia falta dos outros barulhos dele” (Foto: Film and Furniture)

E com toda a sensibilidade e profundidade que, baseado em pouquíssimo conhecimento, eu vejo que é marca dos filmes noruegueses, ele ainda consegue entregar um toque de Hollywood que, infelizmente, eu sou fã. Aqui estou falando do needle drop de Nobody Knows quando o título Sentimental Value aparece por cima da rachadura da casa logo quando conhecemos a protagonista. “Não era sentimental o suficiente”, pensou Nora sobre palavras escritas do fundo da alma em uma idade em que nada se mensura.

Dos vasos de murano a cada fala dos personagens, o Valor Sentimental entrega uma atenção à naturalidade dos detalhes que fez com que eu me sentisse ouvindo uma história já familiar da qual jamais me cansaria.

 

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