Foi Apenas um Acidente: quando a justiça não serve propósito nenhum

Representante da França no Oscar, filme venceu a Palma de Ouro e acumula êxitos

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Jafar Panahi escreveu o roteiro de Foi Apenas um Acidente depois de sua sentença e prisão, findada antes do previsto por uma greve de fome. A ideia é simples: o que fariam as vítimas de um torturador se o encontrassem ao acaso? A violência é o único pagamento ou o contrário é válido? Incubido a contar essa fábula moral, o iraniano venceu a Palma de Ouro em Cannes e chega quente para as indicações ao Oscar.

É noite, e a iluminação inexistente numa estrada faz com que o carro da família de Eghbal (Ebrahim Azizi) atropele um cão indefeso. A filha (Delmaz Najafi) chora, inconsolável, e a esposa (Afssaneh Najmabadi) usa o argumento divino do destino para apaziguar o coração da menina: aconteceu porque deveria, foi apenas um acidente.

Jafar Panahi foi condenado novamente à prisão no Irã, e declarou o plano de voltar ao país após a temporada de premiações e cumprir a pena (Foto: Neon)

Quem vê o pai de família, logo procurando um mecânico que arrume o defeito passageiro do veículo, não imagina as ações que realizou em nome do governo e da pátria. Vahid (Vahid Mobasseri), funcionário da garagem, acha que reconhece o antigo capataz – mas não tem certeza.

Essa dúvida guia o filme, com a direção segura e austera de Panahi acompanhando o colapso não apenas de Vahid, mas de um grupo de pessoas, que não se conhecem, mas compartilham o pior elo possível: sobreviveram às torturas e aos espancamentos do mesmo homem. Escalando atores profissionais e outros não-treinados, o diretor leva a van branca do protagonista por desertos, vias movimentadas pelo fluxo urbano e para um ensaio fotográfico antes do casamento.

O filme mescla a presença de atores treinados, como Vahid Mobasseri e Ebrahim Azizi, com profissionais novatos no ramo, caso de Mariam Afshari, juíza de karatê que interpreta Shiva, e Mohamad Ali Elyasmehr, carpinteiro e estudante de teatro que faz o papel de Hamid (Foto: Neon)

A noiva Goli (Hadis Pakbaten) explode ao descobrir por sua amiga e fotógrafa Shiva (Mariam Afshari) a provável identidade do homem que a traumatizou em prol do autoritarismo e da violência estatal. Seu marido quer o caminho menos sanguinolento, mas nada será suficiente se ela não encarar o diabo nos olhos.

Para completar o grupo de indecisos e erráticos justiceiros, a performance de Mohamad Ali Elyasmehr como Hamid é combustível para as reações dicotômicas de sensibilidade. Todas as possibilidades passam pela mente deles: arrancar sua perna protética, queimar seu corpo, enterrá-lo vivo… Mas não há conclusão ou saída que agrade por completo a clientela.

A submissão de filmes iranianos por países que não o natal prova-se vigente, tanto por repressão estatal quanto por censura, e Panahi seguiu o caminho de Mohammad Rasoulof, que escolheu a Alemanha para ir ao Oscar com A Semente do Fruto Sagrado (Foto: Neon)

Depois de pressionar as vítimas com a moralidade tão deslizante, Jafar Panahi descende ao inferno na sequência que encerra, por agora, o trauma de seus personagens. Com a câmera de Amin Jafari estática frente a tamanha incerteza e confronto, os intérpretes de Vahid e Shiva precisam expor cada milímetro de suas almas, as partes materiais e imateriais que surgiram das cicatrizes e do medo. 

Un Simple Accident foi gravado em segredo, desafiando as leis do Irã com a circulação do diretor e a ausência de hijabs para as atrizes durante as tomadas externas. A pós-produção aconteceu na França, país que co-produziu e submeteu o longa ao Oscar de Filme Internacional, e a exibição em Cannes foi marcada pela fuga de Panahi de sua terra natal, quebrando a tornozeleira eletrônica e trafegando por vias perigosas até o tapete vermelho.

Panahi venceu múltiplos prêmios no Gotham Awards, enquanto recebeu indicações pelo Roteiro, Direção e nas categorias de Filme Internacional e Filme de Drama no Critics Choice e no Globo de Ouro (Foto: Neon)

A repercussão deu ao cineasta a Palma de Ouro, adicionando o único troféu que faltava entre as honrarias internacionais dos Festivais de Cinema. Antes, Panahi coletou a Câmera de Ouro em Cannes, pela estreia em O Balão Branco, o Leopardo de Ouro em Locarno por O Espelho, o Leão de Ouro em Veneza por O Círculo e o Urso de Ouro em Berlim por Táxi Teerã. Próxima parada: o Oscar 2026.

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