O privilégio de ser adaptado em diferentes gêneros e formatos transforma Wicked num experimento narrativo, não importa como e onde esteja seu centro dramático. Da comédia leve que toma os palcos brasileiros, passando pela fantasia disneyficada da versão para os cinemas e originando-se na aventura medieval que Gregory Maguire publicou na metade da década de noventa.
Ficção criada com base nos direitos autorais livres de O Mágico de Oz, Wicked é ambientado num país em colapso econômico e político. No meio do problema, duas adolescentes opostas aprendem a viver e conviver na universidade, um local carregado de ideologias progressistas, perseguição e muita burocracia. Elfaba, batizada pelos fonemas das iniciais do autor L. Frank Baum, tem sua história de vida contada antes mesmo da concepção na barriga da mãe.
“Elfaba apresentava um caso grave do que Galinda chamava de excesso de leitura”.

As quinhentas páginas do livro iniciam-se na mítica do Relógio do Dragão do Tempo, mistura de folclore e presságio que rege os fiéis de Oz. Chega um soprador de vidro que, enamorado pelos pais da Bruxa Má do Oeste, cai na tentação do romance. Do fruto, germina Nessarose, uma garota nascida sem braços, e Casco, o caçula que pouco aparece.
Elfaba, monstruosa em sua verdidão, com dentes de leite pontudos e mais horror do que amor, cresce às margens de uma família liderada por embaixadores. Chegando em Shiz, conhece Galinda, vindo de uma região tão ao Norte que poucos se atentam no mapa, e sua Ama Clutch, uma velha aia de companhia que divide os aposentos com a garota.
“E Elfaba percebeu que, por não ter certeza se Nessarose era filha dele ou de Coração de Tartaruga, Frex decidiu de algum modo subconsciente que ela era filha dos dois. Nessarose era a prova de sua breve união – deles e, obviamente, de Melena também. Não importava quão deficiente Nessarose era; ela sempre seria mais do que Elfaba, sempre. Ela sempre significaria mais”.

Entre os muros do ensino, Maguire constrói o prisma polifônico de Wicked, visitando pontos de vista distintos, e carregados da subjetividade dos interlocutores. O príncipe Fiyero, de pele marrom e pouca popularidade, torna-se amigo de Boq, Averick e o resto da gangue. No colégio, a Madame Morrorosa assombra e lidera.
Primeiro como drama de amadurecimento da adolescência para os estágios iniciais da vida adulta, o romance é brutal e cru no trato de temas sociais, como a liberdade das mulheres e, principalmente, à situação catastrófica que acomete os Animais, seres bestiais com dom da fala e da eloquência, aparentemente perseguidos e mortos por uma força maior.
“Exceto por Nessarose e Casco, a Bruxa nunca tinha se entusiasmado com a promessa reluzente das crianças. Ela sempre se sentia mais sozinha sobre esse assunto do que sobre a sua cor”.
Maguire, com sua formação em Literatura clássica, desenvolve sua fanfic com detalhes de montão, tecendo uma malha complexa de magia, realeza e poder. O que começa como um turbilhão de informações técnicas e geográficas logo rende-se ao ponto de vista principal de Elfaba, uma mulher que se apossa da luta das minorias, e recebe o rótulo de Malvada.
As pessoas nascem más, ou a maldade é imbuída e elas?, pergunta-se uma das crianças que saúda Glinda na versão mais famosa da história. Na gênese do mito das Bruxas, Maguire confronta o leitor com tamanha importância que a resposta oscila entre todas as possíveis opções.
Será que a mulher verde, bombardeada com violência, medo, perseguição e morte realmente estava fadada ao papel de Bruxa? Ou as circunstâncias sociais moldaram sua eventual “tomada” de poder? Ela passa por momentos de tristeza suprema, como quando enfrenta a morte cruel do amado, e depois dorme por um ano na igreja das freiras silenciosas.
“Bem, em poucas palavras: ele amava Galinda e, agora, esta era Glinda. Alguém que ele não conseguia mais compreender. Caso encerrado”.

Elfaba, muito reservada quanto a reputação que pregam em suas costas, encontra piedade na casa da esposa, cunhadas e filhos do amado, na parte mais honesta do livro. É neste momento, também, que a Cidade das Esmeraldas orquestra a emboscada que enterra a irmã da protagonista e, sem saber dos malefícios do ato, Glinda oferece a Dorothy os sapatos especiais de Nessa.
A Boa, aqui muito mais amargurada e explicitamente apaixonada pela Malvada, mais se desencontra da antiga colega do que a rivaliza, explorando uma faceta de inveja e desejo que soa inédita – e bastante arriscada, para uma publicação da época. Tamanha foi a conexão faiscante entre as duas que os direitos de adaptação foram vendidos antes da virada do milênio.
“Galinda não via o mundo verdejante através do vidro do vagão. Em vez disso, ela vai o próprio reflexo. Tinha a miopia da juventude”.

O Cinema estava sedento para mergulhar na intrincada, erótica e proibida troca entre Glinda e Elfaba, mas considerando o restante do material que Maguire escreve, das tramas medievais ao sexo como artifício de distração e troca, é até melhor que o mundo conheceu Wicked pelas lentes musicais de Stephen Schwartz e sem a extravagância que parece funcionar apenas quando impressa nas páginas.
Pense no núcleo libertino e urbano de Porto Real n’As Crônicas de Gelo e Fogo e exclua alguns dos elementos mais fantásticos para entender a ambientação de Wicked na Literatura. Agora some o lado palaciano da coisa e acrescente uma pitada das ilusões do Mágico de Oz. O resultado está além da equação, traduzido numa experiência que começa cômica, adquire ares de paródia e só então justifica uma abordagem pessimista do conto de bem e mal, fadado a acabar em derretimento.
Deixe um comentário