O início da segunda temporada de As Quatro Estações do Ano precisa atualizar o status dos casais: Kate (Tina Fey) e Jack (Will Forte) estão em corda-bamba, mentindo sobre detalhes que significarão muito no futuro; Claude (Marco Calvani) e Danny (Colman Domingo) encaram o presente com arrependimentos familiares; Anne (Kerri Kenney-Silver) quer se livrar de Ginny (Erika Henningsen), a namorada grávida do ex-marido morto.
Criada por Fey ao lado de Lang Fisher e Tracey Wigfield, a série revisita o conceito de um filme da década de oitenta mas não se prende a ele. Cada estação ganha dois episódios que, espalhados ao longo de um ano da vida dos personagens, concentram medos, receios e humor de primeiríssima qualidade. A Primavera é numa região montanhosa, onde os amigos planejam espalhar as cinzas de Nick (Steve Carell), mas os planos mudam de acordo com o clima – e com um criminoso à solta.

O Verão é passado numa praia qualquer no Jersey Shore, onde Annie e Ginny reencontram o ponto de equilíbrio numa relação estranha mas amável, e quem ganha é o pequeno bebê Gino, um fofura de criança que recebe amparo e amor de todas as direções. Planos nascem e morrem nos quartos dos AirBnB que hospedam os casais, sempre escondendo as cartas do que realmente os machuca e incomoda.
No Outono, The Four Seasons muda o roteiro com duas celebrações da Ação de Graças. A primeira é cheia de convidados estranhos e se finda num surto de raiva de Jack, infeliz com o casamento e com a vida que leva. O segundo é um flashback, voltando ao primeiro encontro dos amigos na época das pequenas liberdades da pandemia de coronavírus, e traz Carell numa lembrança oportuna mas eficaz das atitudes negativas de Nick na dinâmica entre os casais.

Já o Inverno, diretamente de uma Itália super religiosa e caricata, é palco das últimas fissuras dramáticas dos personagens. Kate está magoada com Danny, que precisa intercalar o amor por Claude com a estranheza de viver junto da família do marido em outro continente. Jack não sabe para onde correr (até encontrar a maratona que serve de conclusão para seu arco de crise da meia-idade), e Anne, assustada com a semelhança de si mesma com uma bruxa natalina, toma decisões impulsivas que retornam a ela positivos e riquíssimos juros.
As piadas são frescas e fazem rir pela comparação entre o mundo que os protagonistas cresceram e o atual estado da realidade que hoje em dia aturam. Dramas que cobrem empregos aquém do imaginado, filhos longe de casa e amores não tão aquecidos quanto décadas atrás são o combustível de The Four Seasons, uma série escondida no catálogo da Netflix que recompensa os fãs de Tina Fey e todos aqueles dispostos a conhecer os anseios, a mesquinharia e toda a dor e o prazer que se acumulam quando se envelhece ao lado de quem se ama, para o bem e para o mal.

A saída de Carell do elenco principal não faz cócegas na arquitetura do grupo, e a presença menos histriônica de Ginny, não mais a namorada jovem e sim no papel de uma mãe de primeira viagem que encanta com empatia, apenas agrega ao roteiro. Domingo dirige o primeiro episódio, Fey comanda o segundo e escreve o flashback outonal.
Há leveza e ideias maduras no centro dessas férias intermináveis, com direito e espaço a novos casos (o simpático Steven Pasquale é Mark Brett, personagem central no Verão de Anne e Jack) e novos cenários (cada destino é um deleite para os olhos), assim como a trilha sonora clássica de Vivaldi, que não apenas dá título ao programa mas também aclima altos e baixos, com as notas arranhando os tímpanos e logo em seguida embalando a paz que emana dos amigos de longa data.


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