O holofote tão brilhante quanto cegante que foi posicionado na cabeça de Richard Gadd no lançamento de Bebê Rena não impediu que sua criação seguinte, a minissérie Pela Metade (ou Half Man), sofresse da síndrome do artista de um só hit. Sob o aval da HBO, o roteirista dá vazão a uma excitante tragédia familiar.
Como se não bastassem todos os problemas de puberdade e pertencimento na adolescência dos anos 80, Niall (Mitchell Robertson) é atormentado por um garoto desde que se entende por gente. Ruben (Stuart Campbell) é meio-irmão, meio-bully e inteiramente influente na rotina e nas ações do mais novo. As mães deles, por acaso, dividem a casa e a cama. Os pais estão ou morto, ou sumido, respectivamente.

Quase trinta anos no futuro, Niall agora é Jamie Bell, e Ruben é Gadd. No casamento do primeiro, o segundo chega sem convite mas munido de raiva. Em câmera lenta, ele desce da motocicleta como um lobo selvagem, fulminando com os olhos qualquer convidado que se julgue na posição de impedir o reencontro dos irmãos.
Socos, chantagem, palavras de amor e ódio: assim são trocadas as primeiras confidências em muito tempo, o que o roteiro de Gadd revela com parcimônia e atenção aos detalhes temporais. A partir de então, Half Man volta mais no tempo para dar conta de pintar com todas as cores disponíveis a conturbada e permissiva amizade e cumplicidade dos protagonistas.

No período da juventude, o trabalho em conjunto de Robertson e Campbell é o que dá fibra e sustentação ao drama, com aquela veia explícita e desconfortável das produções inglesas operando em máxima potência. Do quarto da casa da infância até o recém-conquistado dormitório da faculdade, Niall e Ruben são presenças nocivas um para o outro, e piores ainda para aqueles com o azar de orbitarem os mesmos espaços.
Gadd mergulha no abuso em seus diversos prismas, construindo um oposto da persona magricela e indefesa de Bebê Rena. Desta vez, ele é o intérprete e o mecanismo da violência e da opressão, com músculos explodindo de raiva e libido, e um olhar manchado pela desigualdade e pelo senso de injustiça com quem convive desde o abandono paterno.

Bell, na mesma toada, é todo fragilizado e quebradiço, escondendo nas olheiras e no cabelo lambido uma vida cheia de concessões. Ele sofre com a sexualidade, pena na relação malfadada com a mãe e ainda alimenta a ideia de que Ruben, no alto de seu poderio pessoal e físico, o persegue pelas ruelas nubladas da cidade grande, de onde nunca saiu e de onde se enxerga refém de um agouro invisível.
Há monstruosidade e perdão na misericordiosa relação de kamikaze dos irmãos, características intrínsecas a um lar desajustado pela falta de tato das mães, vividas pelas fantásticas Neve McIntosh e Marianne McIvor, assim como na maturidade cercada de reflexos indigestos de violência, silêncio e punição. Niall é frustrado com a carreira, Ruben será o último a admitir qualquer fracasso e nesse ciclo vicioso de retroalimentação, Half Man ocasionalmente os coloca cara a cara.

A sequência que se dá num quarto de hospital, encenada como um two-hander do teatro clássico britânico, oferece subsídio ao roteiro de Gadd e à direção de Pela Metade, dividida entre a russa Alexandra Brodski (Rivals) e o belga Eshref Reybrouck (This City Is Ours). O quarto episódio abarca a dilacerante confissão dupla e dúbia dos irmãos, com Gadd e Bell, em harmonia, destroçando a própria alma em prol de um resquício de simpatia e compreensão, tanto um do outro quanto da audiência, que assiste atônita aos diversos rompantes de crueldade entre eles.
Prestes a concluir a trágica relação simbiótica deles, o sexto episódio se dedica a retirar os pesos de uma vida pequena e dolorosa. Separados por um vidro, Niall e Ruben confessam horrores e louvores um para o outro, mesclando as lágrimas do choro com as lágrimas do riso. Então, Half Man volta ao modus operandi: deixa a tensão cozinhar o clima e, de supetão, acessa a brutalidade que guiou a miserável existência de seus amaldiçoados homens em pedaços.


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