John Nash entrou para os livros de História ao criar uma teoria que revolucionaria o estudo da Economia, mas não apenas por isso. Diagnosticado com esquizofrenia, o matemático tornou-se objeto de celebração e curiosidade, culminando na produção de Uma Mente Brilhante, filme vencedor de 4 prêmios no Oscar 2002.
À frente do projeto, o diretor Ron Howard abraçou o esotérico e deixou a condição psiquiátrica de Nash, vivido por Russell Crowe, escondida à plena vista. Pela montagem e pela fotografia, observamos as ideias e percepções do gênio, só para então entendermos o caráter de tais ações. Reviravoltas e surpresas são a força motora do filme, que encontra na performance de Jennifer Connelly um tônico para e energia caótica e masculina que emana em pleno vapor.

A personagem, primeiro uma estudante e depois a esposa do protagonista, vive para encenar o surto no banheiro quando, depois de outro episódio de loucura dele, quebra o espelho e coloca o bebê para chorar. Connelly venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante no que ainda é a indicação solitária de sua carreira aos prêmios da Academia. Antes do Oscar, coletou os troféus do Globo de Ouro, do Critics Choice e do BAFTA. No Sindicato dos Atores, foi jogada para a categoria de protagonista, onde perdeu para Halle Berry. Uma Mente Brilhante também venceu como Melhor Filme, Direção e Roteiro Adaptado.
Mas a vitória que poderia ser considerada a mais fácil e previsível, na categoria de Ator, não se concretizou. Crowe venceu todos os precursores, e só perdeu na noite do Oscar, quando Denzel Washington, esnobado na maioria das premiações anteriores, subiu ao palco pelo trabalho em Dia de Treinamento. A razão para a derrota de Crowe, o vencedor do ano anterior por Gladiador que queria o raro bicampeonato, aconteceu no BAFTA.

O prêmio da Academia Britânica é gravado e depois transmitido, o que deu a brecha de um dos produtores cortar parte do discurso de agradecimento do ator. No trecho, ele declamava um poema em homenagem a Richard Harris, falecido há pouco. O ataque de fúria de Crowe, partindo para um ataque físico ao executivo, ganhou as manchetes e inflamou a imagem de bom moço carregada pelo artista, que acabou deixado de lado na cédulas da Academia, onde Washington fez história e, ao lado de Halle Berry, protagonizou a única vez em quase cem anos que ator e atriz negros venceram o Oscar de atuação principal.
Na história, Crowe empresta sua bravura no retrato dos anos estudantis de Nash na Universidade de Princeton, onde coleciona momentos de vergonha e triunfo. Nos maneirismos que ele espelhou do próprio biografado, que apareceu nas gravações e esteve presente na cerimônia do Oscar, havia sentimentalismo, respeito e muita técnica. Marcas que eram sinônimo do ator na virada do século, acumulando, por três anos seguidos, filmes que disputaram a categoria principal da premiação. Fato curioso: Nash visitou a USP nos anos 90, poucos anos antes do lançamento de A Beautiful Mind.

Ao seu redor, Connelly chama atenção nas migalhas que recebe no arquétipo da esposa que sofre pela genialidade do companheiro (tropo que continua firme e forte no Cinema), e Uma Mente Brilhante segue a batida dos anos 2000, onde histórias de superação ganhavam tratamento fantasioso e cru, recompensado com prêmios e um tipo de aclamação que caiu em desuso na atualidade.
No roteiro de Akiva Goldsman, que encontrou seu apogeu criativo na manufatura de Uma Mente Brilhante, a vida de Nash conta com omissões (como os casos extraconjugais com homens e mulheres, e o divórcio com a esposa Alicia), além de usar subterfúgios narrativos que melhor transpuseram os dramas da realidade para as telas. Diferente do mostrado, o professor nunca viu aparições, apenas ouvia vozes – mas Howard insere as figuras de Paul Bettany e Ed Harris para preencherem lacunas emocionais.

Uma Mente Brilhante foi gravado em sequência, um feito raríssimo em Hollywood, que serviu de facilitação a caracterização de Crowe, interpretando John Nash em diferentes estágios da doença. A equipe de maquiagem caprichou nos detalhes de envelhecimento e deterioração física do corpo dele, apesar de certas liberdades artísticas quanto à passagem de tempo.
Pelo papel da salvadorenha Alicia Nash, Connelly tornou-se a oitava pessoa branca a vencer o Oscar interpretando alguém não-branco – Salma Hayek até chegou a ser considerada para o trabalho mas não fechou contrato. No set, a atriz também conheceu o marido Paul Bettany, intérprete do amigo imaginário de Nash.
No Oscar 2002, Uma Mente Brilhante foi indicado aos prêmios de Ator (na terceira indicação consecutiva de Crowe), Montagem, Maquiagem e Trilha Sonora, pelo trabalho astuto do compositor James Horner. O legado do longa está intocado, considerando outros títulos da mesma época, mas a derrota de Lynch doerá para sempre.


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