Tudo é tuberculose: a empática investida não ficcional de John Green

Autor de A culpa é das estrelas fala da doença mais letal da história da Humanidade

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Autor de sucessos que definiram a cultura pop na primeira metade da década passada, o americano John Green afastou-se dos holofotes. Longe da ficção, mergulhou sem reservas em temas variados que lhe eram de interesse e obsessão. Assim, nasce o breve mas formidável Tudo é tuberculose: A história e a reincidência da nossa infecção mais mortal.

Convivendo na ansiedade e o transtorno obsessivo-compulsivo desde que se entende por gente, Green focou na pesquisa da doença mais antiga do mundo, dando vazão a um livro cheio de fatos e curiosidades da História e da Medicina, ao mesmo tempo em que se mantém fiel ao que o distinguiu na Literatura.

Isto é, o retrato da humanidade que supera a insegurança de um mal muito maior. Henry é o protagonista humano de Tudo é tuberculose, e por meio do garoto, doente crônico e a personificação do sofrimento dos países considerados pobres demais para serem tratados, John Green constrói seu raciocínio e linha de argumentação.

“Só que a história, ai de nós, não se resume a um registro do que fizemos: ela também é um registro do que foi feito conosco”.

A visão do autor é otimista quanto ao futuro, mas entende a gravidade dos problemas atuais. O livro perpassa questões técnicas (como a evolução das descobertas científicas e como diagnosticamos doenças), sociais (a pobreza em Serra Leoa, terra natal de Henry, é observada com olhos de fora) e políticas (destacando o valor comercial de uma comorbidade para os cofres da indústria farmacêutica). Trata-se de um retrato plural da tuberculose, objeto de fascínio do escritor e uma constante nos registros humanitários. 

Lançado pela Intrínseca e traduzido por Cássio de Arantes Leite, o livro afasta Green do gênero juvenil de paixões e fatalidades, caso de A culpa é das estrelas e Quem é você, Alasca?, para guiá-lo numa espiral de dados, censos e registros, todos creditados ao fim da narrativa principal, quando o autor faz a ponte entre seu trabalho na internet, seu alcance como sensação best-seller e seu atual estado de vida com a família.

John Green voltará à ficção com Hollywood, Ending, marcado para chegar em outubro (Foto: Reprodução)

Leitura prazerosa para os estudantes primários da área da Saúde, Tudo é tuberculose oferece um panorama multifacetado e rico em causas e consequências. Com o tato pop que apenas alguém que viveu os anos de maturação do YouTube e das redes sociais poderia manejar, Green é assertivo, crítico e por vezes zeloso, ciente dos privilégios que o levaram até ali. Por meio do garoto Henry, ele dialoga com fatores atenuantes da doença, assim como compara a vida dos habitantes de países ricos em contraste aos afetados de maneira drástica pelos cortes do governo e pouca ou nenhuma ajuda subsidiária externa.

Em comparativo também com a pandemia de coronavírus, Green coloca sua escrita fácil de ser lida e impossível de ser largada a favor da informação e da Ciência, advogando pelos direitos de existir e viver sob condições favoráveis enquanto volta no tempo, revira documentos, procura rubricas e prova seu ponto. Afinal, tudo é sobre tuberculose, é só investigar fundo o bastante.

“Eis a injustiça devastadora e dilacerante de conviver com a tuberculose no século XXI: a pessoa sobrevive se for rica; caso contrário, é bom fazer figa”.

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