O kabuki é uma forma clássica de teatro japonês que combina atuação dramática e dança tradicional, conhecida por seu estilo altamente estilizado, figurinos elaborados e maquiagem kumadori; surgindo no início do período Edo com apresentações femininas, tornou-se posteriormente um teatro exclusivamente masculino após a proibição de mulheres em 1629. No filme de Sang-il Lee, indicado ao Oscar 2026 na categoria de Maquiagem e Penteado, a arte é enxergada de dentro para fora ao longo de décadas de amargura e inveja.
Os protagonistas de Kokuho – O Preço da Perfeição são Onnagata, atores homens que interpretam personagens femininas, destinados a uma vida de rivalidade e admiração. Enquanto Shunsuke Ogaki (Ryûsei Yokohama) nasceu em berço de ouro, filho de uma lenda do teatro, Kikuo Tachibana (Ryô Yoshizawa) foi cooptado para o estilo de vida depois de ver seu próprio pai, um integrante da Yakuza, ser assassinado na mesma noite que uma trupe de artistas visitava a casa da família.

A partir de tal tragédia, Shunsuke e Kikuo tornam-se irmãos de rotina, treinando arduamente para aperfeiçoarem seus dotes artísticos. O talento corre solto nas pequenas apresentações, mas fica claro que apenas um deles tem o necessário para ascender ao posto de Ningen Kokuhō, ou “Tesouro Nacional Vivo”, o termo que dá título à obra e distingue pessoas reconhecidas pelo governo como preservadoras de importantes bens culturais imateriais, de acordo com a Lei de Proteção das Propriedades Culturais.
O roteirista Satoko Okudera adapta o esparso romance de Shûichi Yoshida para a direção calculista e detalhista de Sang-il Lee. O autor original passou anos nos bastidores do kabuki, garantindo o ar de autenticidade e objetividade do retrato, e tamanha pesquisa resultou num material base que extrapolava os limites comerciais do lançamento.

Kokuho é o segundo filme mais longo dos indicados ao Oscar 2026, atrás apenas das três horas e quinze de Avatar 3. Mas, entre pequenos lampejos da vida dos amigos, os anos passam num piscar de olho, dando ritmo e fluidez a história de rancor e do preço a ser pago pela perfeição e pelo reconhecimento máximo. Num ano em que o norte-americano Marty Supreme atraiu atenções para temas semelhantes, é Kokuho o melhor exemplar do lema “Sonhe Alto”, slogan da campanha do longa de Chalamet.
A lembrança solitária de Kokuho foi na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado, tornando-se o primeiro filme japonês indicado por esse aspecto. E a criatividade cresce para além das apresentações teatrais, onde os atores estão pintados à precisão e com semblantes quase que etéreos. Há também um trabalho de envelhecimento que agrega ao núcleo da história e deixa outras tentativas com o mesmo objetivo, como em Uma Mente Brilhante e O Brutalista, no chinelo.

Para o papel, Ryo Yoshizawa treinou por um ano e meio com o ator de kabuki Nakamura Ganjirō IV ao lado de Ryusei Yokohama, e após ver o resultado final, o veterano Ken Watanabe (indicado ao Oscar 2004 por O Último Samurai) afirmou que o longa deve se tornar o trabalho mais marcante da carreira de Yoshizawa. Na pele do mentor patriarcal do filme, Watanabe encapsula a tragédia e a efemeridade da vida acima dos palcos.
Quando as apresentações tomam parte, sempre acompanhadas de um letreiro que dá o rápido parecer dos acontecimentos, resumindo as tragédias em poucas linhas, o elenco surpreende pelo controle vocal e corpóreo, enunciando com a lamúria que o texto original demanda. Reflexivo e hipnotizante, o kabuki é retratado com rigidez pelo diretor Sang-il Lee, nunca deixando que uma parte do filme engula ou anule suas representações artísticas.

A arte liberta e destrói a vida de Kikuo, pautado pelas conquistas da juventude, a estagnação dos tempos em que foi expulso das arenas e deixado ao relento pelo passado do pai na Yakuza e pela paternidade de uma filha ilegítima, até o eventual retorno ao lado de Shunsuke, retomando a parceria que, como tudo em Kokuho, estava fadada a terminar em um buraco infinito de arrependimentos. As luzes se acendem, o público aplaude, em êxtase, e o protagonista enxerga apenas o além, sorrindo, lacrimejando, em estado de realização que mundanidade nenhuma seria capaz de replicar ou explicar.


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