Quero estar acordado quando morrer: os diários de sobrevivência de Atef Abu Saif

Jornalista e ex-ministro da Cultura palestino relata, em primeira pessoa, os horrores do genocídio

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“[…] assim como a vida é uma pausa entre duas mortes, a Palestina, como um lugar e como uma ideia, é um intervalo no meio de muitas guerras”.

Publicado no Brasil pela editora Elefante com tradução de Gisele Eberspäche, o livro de Atef Abu Saif carrega no título uma verdade dolorosa e impossível de ser ignorada. Em formato de diário, o jornalista palestino conta o terror de sobreviver ao genocídio israelense na Palestina, iniciado em outubro de 2023.

Ao longo de quase três meses, Abu Saif acorda e dorme com medo e insegurança, ao lado do filho adolescente que deveria estar em casa, mas acompanha o pai para uma viagem rápida à terra natal da família e acaba encurralado. Detalhes gráficos, impacto emocional e vestígios da guerra são o objeto principal da narrativa do escritor.

“Uma amiga escreveu em sua página do Facebook que, quando dorme, ela enrola as pernas uma na outra e entrelaça os braços, de modo que, se for morta durante a noite, seu corpo permaneça inteiro”.

Ex-ministro da Cultura, ele não é estranho à Literatura como forma de sobrevivência e memória. Porém, Quero estar acordado quando morrer marca seu trabalho mais pungente e visceral, acompanhado do registro de sua casa de infância destruída, assim como a morte de amigos de longa data, familiares com comorbidades e a incerteza quanto à própria sobrevivência.

Ler algo de calibre tão sombrio não é tarefa mínima. Os dias passam iguais, embora a violência escale em número e grau. O tempo é medido em bombas e clarões, em refeições puladas e grandes jornadas que outrora eram banais. “Os dias são parecidos. Em alguns, você vê menos ataques que em outros, não porque o dia foi menos violento, mas porque a violência aconteceu em outro lugar da Faixa de Gaza. Todos os dias são violentos”. Ao falar, por exemplo, da busca por pães numa cidade devastada, o autor esclarece pontos mundanos de uma crueldade perpetuada por um Estado ilegítimo e financiada pela maior economia do mundo. Na Guerra, quem recolhe o lixo? Quem cuida dos animais abandonados? Quem organiza os funerais?

“Coloquei o notebook no sol para tentar secá-lo, o que significa que terei de voltar a escrever estes diários à mão, com minha letra horrível e pouco legível. Fico pensando em como preservá-los, caso eu morra, e a solução que encontrei é lê-los, parágrafo por parágrafo, e enviá-los aos amigos e à minha editora na Inglaterra, para que eles tenham cópias”.

A pobreza, a destruição e o desamparo da população, aliados a um comportamento cada vez mais animalesco e cruel dos soldados, tornam a experiência um inferno de ciclo interminável, que encontra novas formas de afetar suas vítimas. A narrativa, igualmente cíclica, não enxerga sinal de esperança ou de melhoria, causando no leitor a sensação constante de escuridão. Alertando os isentos e denunciando os culpados, Quero estar acordado quando morrer resume, em cerca de trezentas páginas, tudo aquilo que os noticiários relegam e a mídia “esquece” de explorar.

“Acho que Baba Noel não visitará Gaza neste ano. Não se arriscaria. Ele levaria um tiro na cabeça assim que descesse com o trenó”.

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