O cenário é o centro de São Paulo, um lugar carregado de energias negativas e povoado por figuras sinistras – e nem falamos dos vasos sanitários com sede de sangue. Em Privadas de suas Vidas, os diretores Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre partem da sátira para escrachar um drama familiar decorado com humor e emoção.
A protagonista Malu (papel da fantástica Martha Nowill) organiza festas e guarda um trauma tremendo, a perda de um dos filhos gêmeos num acidente macabro no banheiro público. Desde então, cocô é sinônimo de terror; sentar na privada, nem pensar! Para ilustrar graficamente suas escolhas, a direção abraça o cômico e abusa das soluções práticas.

Gravado em película 16mm, Privadas de suas Vidas construiu parte dos cenários, incluindo os ambientes dos banheiros, permitindo a realização das cenas envolvendo os efeitos físicos e visuais das privadas. O riso é acompanhado do nojo, especialmente quando a tela é preenchida, suja e melecada com todo tipo de fluido pegajoso.
Para além do drama maternal de Malu com Gênesis (Benjamín), adolescente não-binárie que rejeita os rótulos e culpa a mãe por organizar um chá revelação, o filme apresenta coadjuvantes caricatos mas especialmente firmados por um texto ágil e referências por cima de referências.
O zelador (Otávio Müller) passeia pelo condomínio, fazendo o que está em seu alcance, e correndo contra o relógio da síndica (Maria Gladys) e sua irmã intrometida (Rodrigo Apresentador), dispostas a implantar um sistema eletrônico que substitui a mão de obra humana. No último andar, vive a Mística do Scat, personagem mais diferente da carreira de Olivia Torres.

A atriz brinca com o sotaque norte-americano, se jogando de cabeça na imundice criada pelo design de produção e pela fotografia de Daniel Venosa. Cabe a ela não deixar a peteca cair ou a piada ultrapassar os limites da confiança entre público e filme – e o resultado é deslumbrante, com direito a cameo do rei do cinema queer B, Bruce LaBruce.
Exibido em Roterdã e premiado com três honras no Festival do Rio (Atriz para Nowill, Atriz Coadjuvante para Torres e Direção de Arte para Juliana Lobo), Privadas de suas Vidas chegou à 50ª Mostra de São Paulo pronto para enfim voltar para casa. Com presença de elenco e equipe na primeira sessão em terras paulistas, os risos ensurdeceram qualquer um que passasse despercebido pelo Espaço Petrobras da Augusta.

Feito com esmero até na maneira que cria os mais inusitados formatos de fezes, o filme diverte, surpreende e se alça a um panteão que nos acostumamos a enxergar apenas no passado. Obras tão disruptivas, degeneradas e anárquicas que ganham status de clássico cult, tão distintas quanto inquietantes. Privadas de suas Vidas, indo nessa toada, eterniza o sistema de encanamento na veia dos pneus e tubarões assassinos, não deixando nada a dever para os matadores de plantão do Horror mundial.


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