Privadas de suas Vidas: terrir escatológico encontra unidade humana na merda

Prepare-se para sentir ânsia e rir até chorar no inusitado drama familiar exibido em sessões disputadas da 50ª Mostra de SP

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O cenário é o centro de São Paulo, um lugar carregado de energias negativas e povoado por figuras sinistras – e nem falamos dos vasos sanitários com sede de sangue. Em Privadas de suas Vidas, os diretores Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre partem da sátira para escrachar um drama familiar decorado com humor e emoção.

A protagonista Malu (papel da fantástica Martha Nowill) organiza festas e guarda um trauma tremendo, a perda de um dos filhos gêmeos num acidente macabro no banheiro público. Desde então, cocô é sinônimo de terror; sentar na privada, nem pensar! Para ilustrar graficamente suas escolhas, a direção abraça o cômico e abusa das soluções práticas.

Vendido para o exterior com o título de Bowels of Hell, o filme conta com a produção executiva de Rodrigo Teixeira, profissional indicado ao Oscar por Me Chame pelo Seu Nome e Ainda Estou Aqui (Foto: RT Features)

Gravado em película 16mm, Privadas de suas Vidas construiu parte dos cenários, incluindo os ambientes dos banheiros, permitindo a realização das cenas envolvendo os efeitos físicos e visuais das privadas. O riso é acompanhado do nojo, especialmente quando a tela é preenchida, suja e melecada com todo tipo de fluido pegajoso.

Para além do drama maternal de Malu com Gênesis (Benjamín), adolescente não-binárie que rejeita os rótulos e culpa a mãe por organizar um chá revelação, o filme apresenta coadjuvantes caricatos mas especialmente firmados por um texto ágil e referências por cima de referências.

O zelador (Otávio Müller) passeia pelo condomínio, fazendo o que está em seu alcance, e correndo contra o relógio da síndica (Maria Gladys) e sua irmã intrometida (Rodrigo Apresentador), dispostas a implantar um sistema eletrônico que substitui a mão de obra humana. No último andar, vive a Mística do Scat, personagem mais diferente da carreira de Olivia Torres.

Privadas de suas Vidas ainda escala Gilda Nomacce, Regina Braga, Fabio Marx, Miguel Navarro, Gustavo Scat e Majeca Angelucci (Foto: RT Features)

A atriz brinca com o sotaque norte-americano, se jogando de cabeça na imundice criada pelo design de produção e pela fotografia de Daniel Venosa. Cabe a ela não deixar a peteca cair ou a piada ultrapassar os limites da confiança entre público e filme – e o resultado é deslumbrante, com direito a cameo do rei do cinema queer B, Bruce LaBruce. 

Exibido em Roterdã e premiado com três honras no Festival do Rio (Atriz para Nowill, Atriz Coadjuvante para Torres e Direção de Arte para Juliana Lobo), Privadas de suas Vidas chegou à 50ª Mostra de São Paulo pronto para enfim voltar para casa. Com presença de elenco e equipe na primeira sessão em terras paulistas, os risos ensurdeceram qualquer um que passasse despercebido pelo Espaço Petrobras da Augusta.

Chandelly Braz e Marco Pigossi interpretam o casal que contrata o chá revelação de Malu, em performances que atestam o tato cômico dos artistas (Foto: RT Features)

Feito com esmero até na maneira que cria os mais inusitados formatos de fezes, o filme diverte, surpreende e se alça a um panteão que nos acostumamos a enxergar apenas no passado. Obras tão disruptivas, degeneradas e anárquicas que ganham status de clássico cult, tão distintas quanto inquietantes. Privadas de suas Vidas, indo nessa toada, eterniza o sistema de encanamento na veia dos pneus e tubarões assassinos, não deixando nada a dever para os matadores de plantão do Horror mundial. 

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