Corpos que escapam ao horror: desejo, gênero e monstruosidade em Acampamento Miasma

Jane Schoenbrun revisita o slasher para explorar as relações entre o horror cinematográfico e as imagens que constituem o imaginário queer

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Duas mulheres com roupas manchadas de sangue caminham lado a lado por um gramado, diante de uma densa floresta. A luz do sol atravessa as árvores, iluminando parcialmente a vegetação e as figuras ao centro da imagem.

A figura do monstro exerce um fascínio particular no cinema. Criaturas incompreendidas, frequentemente condenadas por existir fora dos limites do que é considerado aceitável, tornam visível aquilo que a ideia de normalidade insiste em reprimir – excessos, dissemelhanças e tudo o que nos torna estranhos ao olhar alheio. No subgênero do horror slasher, essa transgressão atinge forma na violência contra o corpo, quando o anseio em possuir, em rasgar a carne, em derramar o sangue encarna uma mistura ambígua de repulsa-excitação-vergonha.

As obras de Jane Schoenbrun partem de uma inquietação semelhante quando o que deveria nos causar medo transgride-se à objeto de desejo. Em We’re All Going to the World’s Fairs (2021) e I Saw the TV Glow (2024), as imagens são símbolos oraculares que guardam possibilidades de uma vida que ainda não conseguimos experimentar, reconhecendo no ecrã o que na juventude não sabemos nomear. Em Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte ou Teenage Sex and Death at Camp Miasma (2026), a diretora retorna distintivamente a esse universo de identidades em transformação, agora interessada no que acontece quando a ficção deixa de ser puramente uma experiência diante da tela e começa a atravessar inteiramente o corpo.

Pessoa de casaco vermelho observa a entrada de um galpão aberto, cercado por árvores cobertas de neve. As paredes laterais são contêineres pintados com formas geométricas coloridas, e uma placa acima da entrada diz: "Now, if it gets too real, you can always turn it off".
Apresentado no Festival de Cannes de 2026, o filme conquistou o Queer Palm, prêmio independente dedicado a obras que abordam questões LGBTQIA+ (Foto: Mubi)

Kris (Hannah Einbinder), uma cineasta queer, é contratada por um estúdio de Hollywood para ressuscitar Camp Miasma, uma franquia slasher da década de 1980 protagonizada por Little Death (Jack Haven) – ou Pequena Morte, que é também uma expressão do francês “la petit mort” e figura a sensação de transcendência pré-orgasmo –, um anti-herói não-binário que assassina jovens campistas abarrotados de tesão.

Enquanto os executivos da indústria cinematográfica buscam suavizar o histórico conturbado dos filmes originais marcados por narrativas transfóbicas, agora sob uma lente “woke”, Kris não quer apenas reproduzir um “remake do remake do remake”, mas honrar o legado de um universo que, segundo ela, é parte íntima de seu despertar sexual. Kris é fã declarada de Billy (Gillian Anderson), a final girl do longa original que carrega em seu olhar desesperado a alma da franquia.

Duas pessoas, vistas de costas e em silhueta, assistem a uma projeção de um olho em close. Estrelas decorativas pendem sobre a tela, em um ambiente escuro.
Jane Schoenbrun cita franquias como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo entre as referências para o universo fictício de Acampamento Miasma (Foto: Mubi)

Na tentativa de se aproximar dessa alma, Kris procura Billy, que vive reclusa no antigo set de filmagens do acampamento, como uma extravagante Norma Desmond loira sulista. O encontro entre as personagens inicia-se como uma pesquisa para as refilmagens da franquia, mas rapidamente se transforma em um uma exploração psicossexual que subverte os clichês do subgênero tradicional e a própria figura do monstruoso.

Anne Carson, em Desejo e sujeira: ensaio sobre a fenomenologia da poluição feminina na antiguidade, diz que o termo ‘miasma’ remete à poluição, àquilo que perturba uma ordem e ameaça as fronteiras que procura-se preservar. Na Grécia antiga, as concepções de impureza também participavam da organização da vida social, delimitando comportamentos e corpos tidos perigosos, especialmente os femininos, frequentemente associados à umidade, à porosidade e à incapacidade de conter seus próprios impulsos.

Duas mulheres com roupas manchadas de sangue caminham à margem de um lago, diante de uma floresta de coníferas e montanhas nevadas, sob um céu alaranjado e luminoso.
O jorro de sangue que abre o filme foi uma ideia fundamental desde o início do projeto, como uma explosão exagerada e absurda, realizada com efeitos práticos e complementada por efeitos visuais (Foto: Mubi)

O corpo que vaza e que pode ser aberto perturba a ideia de uma forma íntegra, fechada e sob controle, desenvolvendo uma ideia de sujeira como matéria fora do lugar. Paralelamente, a figura do monstro transfeminino no cinema foi fabricada por Hollywood, a partir da capitalização de notícias escandalosas veiculadas na mídia estadunidense da época, como a cirurgia de redesignação sexual de Christine Jorgensen, em 1951, e a prisão do assassino em série Ed Gein, seis anos depois.

Associando a transgeneridade como fonte de horror, esses filmes estabeleceram as bases para a representação de pessoas trans no cinema do século XX e do imaginário da cultura pop norte-americana. A “ambiguidade” de gênero então apareceu repetidamente vinculada a corpos e identidades que precisavam ser desvendados para explicar retrospectivamente a violência inerente de seus assassinatos.

Imagem em tons de vermelho e laranja, com a silhueta de uma pessoa segurando um objeto longo e pontiagudo erguido diagonalmente. A cena apresenta distorções visuais e interferências horizontais, criando um efeito de imagem fragmentada.
Jack Haven concebeu Little Death como uma figura que atravessa diferentes corpos e intérpretes ao longo do tempo, em vez de um personagem fixo, dialogando com a proposta de Jane Schoenbrun de ressignificar o imaginário transfóbico do cinema de horror (Foto: Mubi)

Apesar de ser impreciso tratar Norman Bates em Psicose (1960), Bobbi em Vestida para Matar (1980), Angela em Acampamento Sinistro (1983), Jame Gumb ou Buffalo Bill em O Silêncio dos Inocentes (1991) e muitas outras referências trans como manifestações idênticas de uma intenção comum, é fato que existiu uma tradição cinematográfica que faz da transgeneridade um mecanismo de choque, mobilizado para gerar repulsa.

Esses personagens, contudo, transgrediram as intenções de seus autores, continuando a resistir através do olhar de um público queer, que encontrou neles lampejos da própria existência. A identificação não torna irrelevante a transfobia, sequer torna-os representações positivas, mas contraditoriamente ofereceu para muitos a possibilidade de reconhecimento. E com muita empatia, Schoenbrun questiona em seu metafilme se é possível amar a si própria através do monstro. É possível se reconhecer nele? Desejá-lo?

Pessoa segura uma claquete de filmagem diante de um prédio baixo em um cenário coberto de neve, cercado por árvores nevadas e montanhas ao fundo. A imagem apresenta tons azulados e mostra parte do rosto e do corpo da pessoa à direita.
Os cenários pintados à mão evocam os efeitos visuais do cinema clássico e conferem ao filme uma atmosfera deliberadamente artificial, entre a memória e o sonho (Foto: Mubi)

Entre diálogos, sessões privadas de cinema, maconha, frangos fritos lambuzados em molho, traumas da indústria de Hollywood, ultraprocessados alto em açúcar e desejos reprimidos, vida real e ficção são metamorfoseadas por um cenário fantasioso pintado à mão, efeitos sangrentos em CGI e atores originais da franquia que surgem de repente em hotéis e postos de gasolina isolados no meio do nada. Tudo é fundido, inclusive o papel da vítima e do monstro assassino.

Kris enxerga em Billy e em Little Death a possibilidade de revelar os seus desejos sem repreensão. Assim como na principal cena do longa original, ela quer também observar enquanto é observada, estar em outro enquanto ainda está em si, ser vítima enquanto assassina, independentemente do medo.

Ambiente escuro com estantes vazias à esquerda, carpete estampado e paredes de textura irregular. Ao fundo, uma figura humana aparece suspensa no ar, iluminada por uma luz intensa, enquanto uma placa de néon com a palavra “OPEN” brilha na parede à direita.
Hannah Einbinder interpreta Kris como um espelho distorcido de Schoenbrun, enquanto Schoenbrun também brinca com a tendência de transformar a crítica cinematográfica em discurso, sem abrir mão do humor e do prazer de assistir (Foto: Mubi)

Little Death não precisa ser uma figura moralmente irrepreensível para que Kris possa se aproximar, desejá-lo e amá-lo. É justamente nessa condição que se desperta a identificação sobre aquilo que aprendemos a temer, oferecendo possibilidade de libertação, ainda que seja preciso morrer. O monstro deixa de existir apenas em função do horror, mas para a transformação de um corpo desobediente que ultrapassa a expectativa do olhar alheio.

Abrindo espaço para uma descoberta boba, exagerada e sensual, Acampamento Miasma permite não ser levado a sério, metamorfoseando fantasia em coisa a ser vivida. De tragédias fatalistas à um romance camp lésbico de autodescoberta, há uma distância entre as obras pseudo-autobiográficas da diretora. Se antes a tela parecia guardar uma vida que talvez nunca pudesse ser alcançada, nesta, atravessá-la é uma possibilidade concreta, ainda que sangrenta.

Duas pessoas se abraçam em meio à neve, diante de um cenário pintado de uma floresta de pinheiros e montanhas sob um céu rosado.
Depois de explorar a autodescoberta em We’re All Going to the World’s Fair e I Saw the TV Glow, Jane Schoenbrun volta seu olhar para o que vem depois: a possibilidade de viver o próprio corpo e a própria sexualidade com mais prazer e liberdade (Foto: Mubi)

Ao som de A Long December, de Counting Crows, Little Death dança enquanto assassina brutalmente jovens que encontra pelo caminho. Ele levanta sua cabeça, suspira por debaixo da máscara rígida e nos encara pelas frestas, em alívio, quase como se estivesse em orgasmo, quase como se fosse um anjo. Ele é o miasma em transgressão.

A transformação não desponta de uma vez, nem apaga as violências que a antecedeu, apesar disso, existe uma alegria particular em perceber que o passado não precisa ser revivido exatamente da mesma forma. Schoenbrun observa o desejo através da escolha de olhar o monstruoso com dignidade, não apenas a partir da criação de novas imagens, mas pela conquista daquelas existentes, na insistência em encontrar nelas algum reconhecimento, ainda que incompleto, de algo que não tinha pretensão de ser. Amar o monstro talvez seja apropriar-se da contradição sem precisar resolvê-la, significa recusar a violência como fim.

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