Os Melhores Discos de 2025

Ano foi marcado por hits latinos e retorno de divas pop, com destaques para Bad Bunny, Marina Sena, Lady Gaga e Lorde

min de leitura

Se 2024 foi o ano do Brat summer e da explosão sáfica nas paradas, 2025 chegou para equilibrar a balança com uma dose cavalar de melancolia e o retorno triunfal do bizarro. O ano começou fazendo justiça histórica no Grammy, quando a Academia finalmente se rendeu à revolução de Beyoncé, entregando para a diva o tão aguardado prêmio de Álbum do Ano por Cowboy Carter. Isso mesmo, vivemos um momento de catarse coletiva que definiu o tom dos meses seguintes. Enquanto isso, o mundo assistiu ao renascimento da Mother Monster, lembrando a todos que o pop sem estranheza e distorção é apenas paisagem.

No cenário nacional, a música brasileira viveu um ano de maturação e domínio. Vimos o pop tropical abandonar o excesso de sintetizadores para abraçar uma sonoridade mais orgânica e solar, ao mesmo tempo em que o rap feminino consolidava seu império com uma caneta mais afiada (e luxuosa) do que nunca. Foi um período de contrastes, onde a sofisticação instrumental conviveu harmoniosamente com a agressividade das rimas e a ostentação lírica.

Com Cowboy Carter, Beyoncé venceu Álbum do Ano no Grammy 2025 (Foto: Reprodução)

Mas nem só de celebração viveu a indústria: 2025 também foi um ano de luto, marcado pela despedida de gigantes da velha guarda do samba e do rock setentista, cujas partidas deixaram um vácuo de genialidade que as novas gerações terão a árdua missão de preencher. Entre o barulho ensurdecedor das redes sociais, a Inteligência Artificial tentando mimetizar a arte e a busca desesperada por conexões reais, 2025 foi o ano em que a Música pediu para sentirmos tudo: da euforia caótica ao luto silencioso. Abaixo, conheça os discos que melhor traduziram esse espírito do tempo.


ambient tweets também é lar de Cecile Belive (Foto: ambient tweets)

After The Dream Comes True é o território fantástico de dome 3000

Sob o selo ambient tweets, gravadora fundada por Sega Bodega, dome 3000 materializa After The Dream Comes True, seu primeiro EP. São apenas seis faixas em quase 11 minutos, mas suficientes para uma imersão no imaginário do artista, em uma estética de sonho e introspecção. O folk psicodélico encontra a música ambiente, e sua voz sutil conduz a jornada para terras etéreas entre cordas de violão e sintetizadores suaves aqui e ali. Do minimalismo que reverbera, dome 3000 tem uma visão muito clara da atmosfera que respira e expira nas canções. – João Arnaldo Brunhara

Em novembro, Big city life EDITS chegou como álbum de remixes (Foto: Escho)

Smerz, Big city life e o que estão colocando na água da escandinávia

2025 foi um grande ano para a música do Norte mais Norte da Europa. Não que os anos anteriores tenham sido ruins, afinal, já sabíamos do poderio musical da Suécia. Mas, especificamente Noruega e Dinamarca decolaram na música alternativa. Smerz, Erika de Casier, Astrid Sonne, ML Buch e quem mais couber na playlist Cph+ do Spotify.

Ainda que muito diferentes entre seus estilos, essas artistas parecem vibrar numa mesma frequência de intenção. A dupla Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt, as Smerz, representam muito bem essa personalidade musical com Big city life. Sons orgânicos que ganham textura nas reverberações e abafamentos, melodias românticas que contrastam com modulações e instrumentos eletrônicos filtrados, vozes que dispensam o refinamento, valorizando o real, o dissonante e o tempo próprio de se cantar à la Björk.

É chique. É atmosférico. É íntimo, viciante, irresistível. Em uma palavra bonita, é inebriante. – JAB

Outubro foi a vez de ouvir quatro novas faixas em choke enough (Deluxe), uma delas em colaboração com FKA twigs [Foto: True Panther Records]

Oklou encontra força na sutileza em choke enough

Depois de nos agraciar com a mixtape Galore em 2020, a francesa Oklou presenteou o mundo com choke enough, seu primeiro álbum propriamente dito. Enquanto o hyperpop se acabava na barulheira e bateção de panela meia década atrás, Marylou Mayniel decidiu nadar contra a corrente e abaixar o volume.

A história se repete no disco de 2025. Ao lado de Casey MQ, parceiro de longa data igualmente visionário que cresceu sua sonoridade ao lado da amiga em uma troca mútua, o novo projeto olha para o futuro da música eletrônica enquanto reverencia o passado dos sintetizadores.

choke enough soa futurístico e nostálgico ao mesmo tempo, e deslancha o soft power de Oklou em uma atmosfera etérea e intimista. São melodias cuidadosamente confeccionadas, que deslizam por tons e semitons de forma fluida e encantadora aos ouvidos.

Nas vozes e instrumentos, as texturas complementam esse universo introspectivo. Entre sons minúsculos e momentos enérgicos, choke enough encontra poder na contemplação das pequenezas, no meio do caminho do impulso e na catarse recompensadora. – JAB

Ai amiga, tipo assim amiga, ai amiga, tipo assim, sei lá (Foto: Universal Music)

esse delírio vol.1 é um jogo de regras criadas por DUDA BEAT

Em Tara e Tal, DUDA BEAT usou as caixas de som como lança-chamas do dance ao rock. esse delírio vol. 1 recalcula a rota, fragmentado em dois volumes. Nessas seis faixas iniciais (e uma demo), a bixinha vem com um olhar próximo às suas origens indie pop abrasileirado, ao lado dos sempre excelentes Lux & Tróia. É um caldeirão de caminhos: tem disco, tem rock, tem house e tem até cover da deliciosa FOIMAL do Boogarins no estilo Same Ol’ Mistakes. A sofrência agitada de DUDA já é sua marca registrada, e esse novo projeto confirma mais uma vez que ela nasceu para as batidas. – JAB

Existe um rumor ainda não concretizado que a versão original de EUSEXUA vai sair das plataformas, será? (Foto: Universal Music)

Com EUSEXUA, FKA twigs sobrepõe o carnal ao metafísico

Foi da cena eletrônica de Praga que FKA twigs decidiu qual caminho gostaria de seguir com EUSEXUA. A britânica, uma das vozes mais interessantes da música alternativa, caminha cada vez mais para a exposição mainstream, sem perder a experimentação que sempre calçou seus sapatos. Para esse projeto, twigs evoca o trance, o R&B e o dance-pop, numa coleção que perpassa o status de álbum e vira fenômeno, filosofia e zeitgeist.

Se o ocidente na busca pelo cientificismo descobriu a falta do esoterismo, Tahliah encontrou nas raves e boates a espiritualidade do movimento, da música e da comunidade. EUSEXUA é tudo isso, uma celebração do sensual que coexiste com os sentimentos mais profundos. Dançar para se libertar e ouvir canções para se conectar com o mundo.

Além da versão original do disco lançada em janeiro de 2025, novembro marcou a chegada do relançamento do LP com a substituição de três faixas e a presença de Eartheater em Striptease. Dois dias depois, a “parte dois” do álbum, EUSEXUA Afterglow passou a estar entre nós, com 11 faixas diferentes da primeira edição (e o reissue). Nesse after tão bom quanto a festa principal, FKA twigs explora novos sons, como dubstep e UK bass/garage e repete o encantamento. – JAB

Enquanto o mundo ainda estava no Y2K, PinkPantheress aterrissou no frutiger metro dos anos 2010 (Foto: Warner Records)

PinkPantheress, deveria ser ilegal o Fancy That ser tão bom!

Um dia, Victoria Beverly Walker decidiu publicar no TikTok sua música Just a Waste, produzida no GarageBand. O resto é história. PinkPantheress literalmente alterou para sempre, por bem ou por mal, a trajetória do mundo. Suas músicas viraram trilha sonora de milhões de vídeos, com áudios viralizados e uma movimentação das tendências em direção ao drum and bass e UK garage, moldando a sonoridade de hits como Super Shy, das NewJeans.

Com Fancy That, nossa menina selecionou alguns dos seus samples favoritos e deu nova vida para os trechos. O resultado é um clássico instantâneo, uma homenagem à música britânica dos anos 90, 2000 e 2010, para ouvir sem pular nenhuma faixa. Na discussão sobre originalidade e se ideias realmente novas vão acabar, PinkPantheress dá a resposta que a cultura do sample sempre soube: a arte se transforma aos ouvidos de quem cria e a imaginação é o limite. – JAB

Pode twink de 40 anos? (Foto: Matador Records)

Em Glory, Perfume Genius canta a inquietude

Ter um corpo físico já é motivo para se desesperar de vez em quando pela percepção própria e do mundo. Perfume Genius não quer resolver nada, não quer explicar nada e muito menos responder as dúvidas que insistem em pairar no ar. Glory, em uma sonoridade que conversa com seus projetos anteriores mas nunca retorna ao mesmo lugar, deixa diversos pontos de interrogação no caminho como se estivéssemos dentro dos pensamentos de Michael. A boa música, que ele sabe fazer bem, embala toda a viagem. – JAB

Das Kope, ou George Pimentel, é o namorado brasileiro e colaborador musical de Allie X (Foto: Allie X)

Happiness Is Going to Get You aterra os pés de Allie X

Mais orgânica do que nunca, Allie X quase deixa de lado os sintetizadores onipresentes em seus trabalhos anteriores e coloca os pianos, violinos, baixos, percussões de orquestra e cravos para ressoar nas músicas de Happiness Is Going to Get You.

Revisitando as sonoridades de quando ainda era Allie Hughes, o álbum se debruça sobre o pop dramático e teatral. São faixas expansivas, baladas encorpadas e coros, acompanhados pela eletricidade de baterias e eventuais guitarras em um art pop de espírito punk, com direito a trip hop em uma referência direta a Teardrop do Massive Attack em seu ato final.

Entre o pessimismo e o otimismo das letras, Allie entra em conflito com a esperança de um futuro que parece não existir mais e a luta contra um derrotismo que ela se recusa em ver como inevitável. Com expressão livre do seu treinamento vocal lírico, o disco é uma catedral de lamentos e orações que enxerga o clarão que rasga as nuvens. E é apenas luz. – JAB

Miguel, com quem Kilo Kish colaborou em DEATH FANTASY, retorna para negotiate (Foto: Kisha Soundscapes)

Negotiations da Kilo Kish deixa gosto de quero mais

“Kilo Kish quer saber” abre o EP em digital emotional. Entre sintetizadores, groove do R&B e uma alma essencialmente pop, Negotiations percorre seus quase 20 minutos em seis faixas escritas por ela e produzidas por Raymond Brady, com quem colabora desde 2016. De uma perspectiva tecnológica e concretista (vide capa, vocais distorcidos e sons industriais espalhados pela viagem sonora), Lakisha funde esse mundo sintético aos pensamentos e sentimentos que borbulham na boca do estômago. Um Extended Play para ouvir de novo, de novo e de novo, e desejar que mais seis músicas apareçam magicamente na tracklist. – JAB

Girls and gays like me (Foto: NIXIE MUSIC)

Lexie Liu cultiva TEENAGE RAMBLE como um laboratório de sucessos

Se o mundo vai ficar chinês, que seja comandado por Lexie Liu. Cantora, compositora e produtora, a artista entrega ao mundo o EP TEENAGE RAMBLE três anos após o magnífico The Happy Star. Pela primeira vez com todas as faixas em inglês, o novo projeto assume a perspectiva que o nome sugere, uma divagação adolescente.

Lexie revisita os anos da juventude, parcialmente consumidos pela sua alçada à carreira musical, e dá de cara com os fantasmas e prazeres que, inevitavelmente, ditaram os passos até os dias de hoje. Como um diário-terapia de exposição, essas lembranças ganham uma roupagem pop, inspirada nas divas e nas bandas indies comandadas por mulheres dos anos 2000 e 2010, de Britney a Cansei de Ser Sexy (sério!). Na arquitetura de tudo, uma reflexão de feminilidade e expectativas ao que uma mulher pode e deve ser.

Sem se preocupar com coesão, TEENAGE RAMBLE é um espaço de experimentação e descoberta, e, principalmente, do potencial da artista em criar o tal do pop perfection. – JAB

Na lista de colaboradores do Virgin, aparecem nomes como Jim-E Stack, Dev Hynes (Blood Orange), Dan Nigro e Fabiana Palladino [Foto: Universal Music]

Lorde, Virgin e o retorno à inocência

“Os temas são sempre os mesmos: um retorno à inocência; os mistérios do sangue; uma ânsia pelo transcendental”. Essa citação livre de Rastejando até Belém de Joan Didion decora a bio de Lorde no Instagram há uns bons anos. E se o capitalismo tardio transformou essa curta descrição em uma rede social na expressão máxima do âmago da pessoa, a dela dá norte para entendermos sua relação com o mundo e suas músicas.

Na trilogia Pure-Heroine-Melodrama-Solar-Power, Lorde encerrou um primeiro ciclo inocência-sangue-transcendental. Virgin, na segunda rodada, retoma temas do debut com um olhar mais maduro, num território pós-pandêmico, pós-término e pós-Jack Antonoff. As angústias da adolescência dão lugar às angústias da vida adulta que não passam de lastros da adolescência. E depois de tantas certezas solares no álbum anterior, agora Ella já não coloca mais a mão no fogo por elas.

Virgin é um raio-X da pessoa e artista, parte conversa com a influência da sinceridade de BRAT e Girl, so confusing, parte honestidade crua sobre tesão, gênero, drogas, mérito, família, corpo, indivíduo político e outros desdobramentos de rasgar o torso e colocar as entranhas à mostra. Não é que Lorde sempre fale o que queremos ouvir, é como se ela fosse a antena de um rádio, captando os impulsos do inconsciente coletivo e tentando organizá-los num emaranhado de símbolos, na tentativa de entender a si mesma e o mundo à sua volta. – JAB


A política elétrica de BaianaSystem

Fã ou não, uma das experiências mais divertidas da vida que eu recomendaria é ir em um show do BaianaSystem. Isso há alguns anos, hoje, principalmente depois do álbum O Mundo Dá Voltas, recomendo ainda mais. As faixas são eletrizantes, os interlúdios dão um respiro na primeira vez que escutamos, e quando já sabemos o que está por vir, o respiro vira arrepio. 

Ainda é muito político, como sempre foi, e imagino que não deva ser fácil construir versos tão conscientes mantendo a qualidade de entretenimento junto a melodias até chicletes. Menção honrosa para Praia do Futuro, em que ouvir na própria praia é experiência de outro mundo. Laje também não fica atrás. – Henrique Marinhos

Como pode a melancolia nos explodir por dentro?

Por muito tempo, ser fã de bandas emo e cantoras majoritariamente baixo astral sempre foi uma incógnita. Como gostar de ficar triste assim? Não tem como. Aparentemente é só uma questão de encontrar o que te encontra. A viagem que embarcamos em Ego Death At A Bachelorette Party é intensa em muitos sentidos, ainda que seja uma jornada muito pessoal de Hayley Williams, conseguimos sentir parte de tudo que ela colocou nas faixas.

Às vezes melancólicas, às vezes explosivas e até um pouco tragicômicas: “Já se sentiu tão sozinho que poderia implodir e ninguém saberia?” Sim! Ou também “Pensei que você me pegaria, por que nunca deixei de ter uma queda por você, agora que aprendi não saio mais de casa sem paraquedas.” São frases para subirmos nos stories, claramente, mas não é demérito algum, porque são boas mesmo. – HM

Amaarae recria a bandeira ganesa na capa de seu disco BLACKSTAR (Foto: Interscope Records)

A genial e poderosa estrela negra

BLACKSTAR sucede um ótimo trabalho de Amaarae. Fountain Baby é um R&B estupendo, profundo e magicamente sentimental. Pensava ser impossível manter a qualidade depois de um dos melhores álbuns daquele ano e da carreira dela. BLACKSTAR é completamente diferente. 

Pensem em um BRAT com funk. Agora pensem grande. Mais gêneros misturados, mais experimentação e colaborações que seu último trabalho, o disco reúne muitos ritmos afrodiaspóricos junto a alguns brasileiros como Deekapz, Maffalda e  MU540, além de feats com Bree Runway, PinkPantheress e Naomi Campbell. É um grande cuscuz paulista (só que bom, nesse caso). Com referências da Cher, M.I.A, Doja Cat, até KATSEYE. Vale cada segundo de toda essa desordem ordenada. – HM

Doces melodias e amargas constatações

Ainda que West End Girl tenha dado o que falar, é difícil falar sobre uma obra que já diz tudo por si mesma. Faz algum tempo que não encontramos algo tão polêmico e sincero. Talvez desde Lemonade, se considerarmos a também a repercussão, claro. 


 O sentimento aqui se assemelha a acompanhar uma thread do conceito do álbum, sonoramente sentimos como suas melodias são orgânicas e bem pegajosas. Mas, sobretudo, aqui o que brilha aqui são as composições, a cada faixa a história fica pior. Mais chocante. Mais triste. Inevitavelmente interessante. Para além dos curiosos, West End Girl é um suspiro de expressão corajoso de quem aguentou muito e tem todo o direito de se expressar da forma que achar melhor. – HM


A ressaca emocional do maior astro do mundo 

É curioso como Debí Tirar Más Fotos parece estar conosco há muito mais tempo do que o calendário indica. Talvez porque Bad Bunny tenha conseguido capturar o espírito antigo de uma geração obcecada pelo registro, mas vazia de memória. Diferente da euforia de Un Verano Sin Ti, aqui Benito aposta na ressaca moral e afetiva. O título, um lamento sobre o que não foi capturado, serve de base para um reggaeton mais lento, atmosférico e experimental. 

O disco soa como um diário de bordo de alguém que tem o mundo aos pés, mas sente falta da simplicidade do anonimato. A produção, menos voltada para as pistas e mais para os fones de ouvido na madrugada, mostra um artista que não tem medo de desconstruir o próprio mito. Se em anos anteriores ele nos fez dançar até o chão, em 2025 ele nos fez olhar para o rolo da câmera e sentir saudade do que não vivemos e, melhor ainda, voltarmos à atenção para a realidade de Porto Rico nas mãos de uma américa sem escrúpulos. Uma obra-prima da vulnerabilidade masculina no topo das paradas. – Vinícius Rodrigues

Bad Bunny dominou o ano e promete mais em 2026, com as indicações históricas ao Grammy e o show no intervalo do SuperBowl (Foto: Rimas Entertainment) 

A sofisticação orgânica do pop brasileiro 

Se havia dúvidas de que Marina Sena se consolidaria como uma das maiores arquitetas do pop nacional contemporâneo, Coisas Naturais encerra a discussão. Afastando-se da estética sintética e urbana de seus trabalhos anteriores, Marina mergulha em uma sonoridade que faz jus ao título: é orgânica, fluida e solar. O álbum é um triunfo de produção, misturando a percussão brasileira com arranjos de sopro e cordas que remetem à MPB setentista, sem perder o apelo radiofônico. 

A sensualidade, marca registrada da cantora, aqui aparece menos performática e mais, de fato, natural. As letras exploram o cotidiano e os afetos sem a necessidade de grandes metáforas, encontrando beleza na simplicidade das relações. Marina entrega um disco que soa como um fim de tarde dourado: quente, envolvente e impossível de ignorar. É a prova de que o pop brasileiro pode ser sofisticado sem deixar de ser popular. – VR

Marina Sena explorou novos sons no terceiro disco da carreira (Foto: Sony Music)

Um retorno triunfal ao caos 

Depois de anos flertando com o jazz e baladas de cinema, a Mother Monster decidiu que era hora de quebrar tudo novamente. Lady Gaga entrega em Mayhem exatamente o que o título promete: caos, barulho e glória. É um álbum industrial, sujo e agressivo, que lembra os momentos mais dark de sua carreira, mas com uma polidez futurista que, talvez, só 2025 poderia proporcionar. Não há espaço para respiros. 

Gaga utiliza a distorção e batidas frenéticas para comentar sobre a desordem do mundo moderno, a fama e a psicose coletiva da era digital. Vocalmente, ela nunca esteve tão teatral, alternando entre sussurros maníacos e um certo belting operístico. Mayhem não é um disco para ser ouvido passivamente; é uma experiência física, um ataque sensorial que reafirma Gaga como a artista mais destemida de sua geração. O pop precisava desse susto! – VR

Nas areias de Copacabana, Lady Gaga fez um show histórico (Foto: Reprodução)

Hora da coroação da It Girl do rap

Com KM2, Ebony não apenas lança um álbum, mas consolida um império. Se os primeiros projetos serviam para apresentar sua estética, este terceiro trabalho é a afirmação de sua dominância técnica e lírica. A rapper carioca navega por flows complexos com uma facilidade irritante, entregando barras afiadas sobre ascensão, luxo e a solidão de estar no topo. O diferencial de KM2 é a curadoria sonora. Ebony explora subgêneros do trap e do funk, criando uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, sombria e dançante. A confiança que exala de cada faixa é contagiante; é o som de uma mulher que sabe exatamente o seu valor e não aceita menos do que a excelência. Em um ano de grandes lançamentos no rap nacional, Ebony provou que a coroa continua, indiscutivelmente, na sua cabeça. – VR

Um abraço consolida a arte do amor

Em um mundo cada vez mais ruidoso, The Art of Loving de Olivia Dean chega como um bálsamo necessário. A cantora britânica, que já havia encantado com seu debut, OK Love You Bye de 2019, atinge aqui um novo patamar de maturidade emocional e vocal. O álbum é uma tese musicada sobre as complexidades do amor; não apenas o romântico, mas o amor-próprio e o amor platônico. Com arranjos de neo-soul aveludados e uma instrumentação rica em metais e pianos, Olivia constrói uma atmosfera intimista, como se estivesse cantando na sala de estar de cada um. A honestidade de suas letras, que tratam de vulnerabilidade e crescimento sem cair no clichê, faz deste trabalho um clássico instantâneo. The Art of Loving é quente, acolhedor e profundamente humano; o tipo de disco que colocamos para tocar quando precisamos lembrar que, apesar de tudo, sentir ainda vale a pena. – VR


Carimba que são elas!

Depois de colocar todo mundo para tomar café e arrematar os quatro primeiros Grammys de sua carreira, Sabrina Carpenter partiu para uma nova era dourada. A capa de Man’s Best Friend já nasceu polêmica, levantando debates acalorados sobre submissão e subversão no universo feminino. Na sequência, clipes cinematográficos e canções produzidas ao lado dos veteranos Jack Antonoff e John Ryan aprofundaram a veia tragicômica da estadunidense, enquanto os trocadilhos sexuais martelados nos versos continuaram incomodando alguns. Onde isso foi parar? Dono de aproximadamente 2 bilhões de reproduções apenas no Spotify, o disco corou o glamour retrô e o controle de narrativa que apenas a loirinha sabe orquestrar. 

A pista de dança, por sua vez, ficou lotada para prestigiar o despontar solo de Jade, ex-integrante do Little Mix que se refez à luz de uma musicalidade vasta demais para ser definida. Maximizando reflexões que passeiam por amor, fama, vingança e identidade, as crônicas de That’s Showbiz Baby! são ricas em modulações vocais, arranjos pomposos e ambições certeiras. É um ato shakespeariano de dar inveja no próprio autor. 

Sob à benção dos badalos pop-rock que a consagraram uma camaleoa de peso na indústria, Miley Cyrus fez seu talento reencontrar a coesão no estrelado Something Beautiful. O adjetivo, aqui, não se trata de exagero crítico: as composições textuais e instrumentais que formam o registro se destacam como peças únicas de uma exposição inusitada e efusiva. Ganhamos um mundo rico e cheio de obstinação, que só poderia ter saído do leque de criações da artista.

E se um passado recente não fotografava Tate McRae alcançando o calibre digno de uma estrela em ascensão, os padrões mudam de ritmo em So Close To What. Ainda fiel às coreografias vibrantes que se tornaram marca registrada, a canadense agora sonda a elasticidade de seu timbre para criar um pastiche sensual e romântico que remete ao melhor dos anos 2000. Com direito a uma versão deluxe apimentada por indiretas de fim de relacionamento, os álbuns soam performáticos o suficiente, sem deixar de ser especiais como necessário. – Vitória Vulcano 

Em 2026, Carpenter será uma das headliners do festival Lollapalooza na América Latina (Foto: Island Records)

Do início ao fim; das tripas, coração 

Relançamentos podem ser tão emblemáticos quanto estreias — e ninguém deu conta do recado tanto quanto Jennie. Sutilmente afastada da rotina bombástica do BLACKPINK, a sul-coreana pôde fundar uma gravadora independente para confeccionar Ruby, seu primeiro LP, em terreno autêntico e próspero. A titulação, inclusive, surgiu em referência a uma assinatura nunca antes usada: o seu nome do meio. Entre parceiras com Kali Uchis, Childish Gambino, Dua Lipa e Doechii, o registro constrói camadas de um flow surpreendente e projeta momentos de introspecção inéditos na trajetória da solista. 

Em outra dimensão, o renascimento chegou em clima apocalíptico. Encerrando a trilogia conceitual que começou em After Hours (2020) e possivelmente despedindo-se de sua calejada alcunha, The Weeknd decidiu mergulhar de forma bem mais visceral em narrativas teatrais, mixagens atmosféricas e performances que parecem truques de mágica. No cerne do conjunto, fé e nostalgia são fontes espremidas a dedo para, enfim, colocar nos eixos o homem que mais brincou de fragmentar a si mesmo. Resta dizer o óbvio: ao passo que suas incursões na sétima arte não têm correspondido às expectativas — vide a recepção desastrosa do filme homônimo à coletânea —, as 22 faixas de Hurry Up Tomorrow são o antídoto perfeito para nos lembrar que, em matéria sonora, Abel Tesfaye jamais será esquecido. – VV 

Ruby foi produzido entre estúdios da Coreia do Sul, onde Jennie nasceu, e dos Estados Unidos, país em que a artista viveu durante a adolescência (Foto: Columbia Records)

Faz parte do meu show

No cenário alternativo, as emoções estiveram à flor da pele e no pano de fundo de alguns dos trabalhos mais interessantes do ano. De gravadora nova, BANKS encarou a guilhotina moral dos tempos modernos com bom humor e toques de R&B. Em análise microscópica, as composições de Off With Her Head ironicamente encantam pela semelhança com o corpo humano: um mundaréu de processos essenciais, mecânicos e até reativos que ganham sentido especial através da mente que os comanda.

Por falar em psique, nenhuma se comparou a da herdeira do garage rock, Lola Young. Após o estouro do single Messy (2024), ela reduziu seu núcleo de colaboradores técnicos, mergulhou em riffs abrilhantados por guitarras e acidificou o vocabulário para responder às perspectivas comerciais que começavam a assombrar o horizonte. I’m Only F**king Myself infelizmente culminou em um hiato indeterminado da britânica para a recuperação de sua saúde mental, mas não falhou em cravar seu lirismo cru e explosivo como uma notabilidade artística das grandes. 

Off With Her Head encabeçou a primeira turnê de BANKS com passagem pelo Brasil; shows aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro (Foto: Harvest Records)

Novidade na área, sombr fisgou os saudosistas da estética oitentista/noventista e os pirralhos mais afoitos por trends do TikTok por meio da mesma fórmula — melodias requintadas e dramas amorosos que refletem tanto o cinismo da geração Z quanto ótimas referências ao passado dos corações partidos, indo de Fleetwood Mac a The Cure. Vale ressaltar que ele assina sozinho cada uma das músicas de I Barely Know Her (e que, sim, ele se lembra da tal moça até entrar em mania). 

Para Inhaler, a barra dos 20 e poucos anos voltou a ser um molde criativo de respeito e ressonância. Mesmo mantendo a confiança jovial e típica do movimento new wave que a colocou nos holofotes, o terceiro disco da banda atesta como a experiência e a constância fizeram bem ao repertório de vida e de arte dos ingleses. Resiliente e solar, Open Wide carrega refrões contagiantes, usos incríveis de sintetizadores e a certeza de que poder tentar de novo é nossa maior dádiva. 

No caso da velha guarda, excelência foi a palavra de ordem. Wolf Alice retornou à ativa com The Clearing, um misto único de texturas sonoras e questionamentos transformadores, cenário alicerçado na versatilidade sempre bem-vinda da vocalista Ellie Rowsell. Já Twenty One Pilots encontrou o equilíbrio perfeito entre ambição e instinto em Breach, findando sua aclamada mitologia — que completou dez anos em 2025 — com fôlego, transparência e plenitude. – VV


No Hip-Hop, passado, presente e futuro se costuram

Talvez seja hora de admitir que FBC é o artista mais imprevisível do planeta. Nos últimos cinco anos, cada lançamento do rapper belorizontino parece feito por um artista diferente. Do trap ao drill, do miami bass ao disco, nenhuma inteligência artificial seria capaz de antecipar seu próximo passo. Desta vez, em ASSALTOS E BATIDAS, Fabricio retorna às origens com um projeto de boombap, o primeiro subgênero da história do hip-hop

Aqui, o artista usa da sonoridade crua e lotada de samples clássicos do rap nacional para dissertar sobre o caráter cíclico da nossa realidade urbana. Quase trinta anos depois de Sobrevivendo ao Inferno e ainda cantamos sobre as mesmas coisas. Entretanto, para além da mera retratação fatalista, FBC pulsa um espírito revolucionário e converte seu disco em uma convocação popular para a mudança, que instiga a esperança tanto quanto o ódio.

Além dos clássicos, BK sampleia músicas da sua própria discografia em seu projeto mais recente, extraindo novos significados à hinos de sua carreira (Foto: Gigantes)

Enquanto isso, BK olha pra trás sob uma ótica mais emotiva e melancólica. O sample é a linguagem universal do hip-hop, e Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer entende isso muito bem. O artista carioca rima em cima de clássicos da Música brasileira, criando um diálogo entre o rap e outros gêneros negros do país: de Evinha e Milton Nascimento a Fat Family e Trio Mocotó. O resultado, entretanto, soa mais pessoal do que nunca, demonstrando o amadurecimento lírico de um rapper que já provou ser o mais relevante de sua geração.

Guiado pela mesma filosofia, Emicida ressurgiu nas últimas semanas do ano com um mantra: “Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo”. Emicida Racional VL2 – Mesmas Cores e Mesmos Valores faz parte de um projeto de três mixtapes, lançadas em ordem decrescente, que propõem novas leituras à discografia do Racionais MC’s. Leandro não apenas brinca com samples e interpolações do grupo que mudou nossa Música para sempre, mas também revisita momentos da história do rap nacional e de sua própria vida, convergindo passado e presente para vislumbrar horizontes para o futuro. – Enrico Souto

A intro de Emicida Racional VL2 é uma coletânea de áudios de WhatsApp da mãe do artista, que faleceu em 2025 no meio de uma disputa judicial com seu irmão, Fióti (Foto: Walter Firmo/Cecropia)

Às vezes o ódio é o melhor remédio

No hip-hop norte-americano, o ano é inquestionavelmente do Clipse. A dupla dos irmãos Pusha T e Malice estava na geladeira desde 2009 e retornam à realeza com Let God Sort Em Out. Inteiramente produzido em parceria com Pharrell Williams, a reunião pode até parecer nostálgica, mas em um período tão fraco para o gênero, soa mais original e extravagante do que nunca. Com colaborações de artistas como Nas, Kendrick Lamar e Tyler, the Creator, o disco é cheio de rimas afiadas e beats marvóticos, ateando fogo na cena e instaurando uma nova régua para seus conterrâneos.

Falando em Tyler, the Creator, o lançamento de DON’T TAP THE GLASS chegou menos de um ano depois do seu antecessor, e foi apresentado menos como uma nova era do artista e mais como um exercício. A divulgação do disco aconteceu junto a uma série de festas hospedadas por Tyler e abertas ao público, em que o uso de celulares era proibido e os fãs eram incentivados a sentir a Música com os ouvidos e o corpo. Desprendido de qualquer conceito artístico, o novo álbum é um convite para que vivamos o momento. – ES

O mundo é Rock Doido, bebê!

Em 2025, Gaby Amarantos instituiu de uma vez por todas: o pop brasileiro é paraense. Rock Doido, projeto mais recente da artista, furou a bolha não só dentro do país, como também fora dele, atraindo o olhar de críticos internacionalmente. Aqui, para além de uma celebração ao tecnobrega, a artista nos transporta para o olho do furacão de uma festa de aparelhagem. O disco funciona como uma montanha-russa, com faixas de tiro curto, transições imperceptíveis e picos capazes de reorganizar o sistema molecular de qualquer um.

Enquanto Gaby Amarantos explode tudo, Urias amansa a selvageria de HER MIND e entrega um trabalho simultaneamente terreno e etéreo. Em CARRANCA, a cantora de Uberlândia se mostra, para além de compositora e performer, uma curadora e diretora criativa como poucas. Urias captura o espírito do nosso tempo e nos leva para uma jornada que resgata e ressignifica símbolos religiosos e nacionalistas. Quem mais conseguiria transformar um jingle de rádio criado no Estado Novo em um hino pop auto-irônico sobre bunda e carnaval? – ES

Antes de dar voz à protagonista e compor grande parte das canções de Guerreiras do KPop, EJAE foi trainee da SM por dez anos e não teve a chance de debutar (Foto: Netflix/Sony Pictures Animation)

É assim que se faz!

Dificilmente estava nas previsões de qualquer pessoa que, em 2025, um grupo de k-pop fictício quebraria recordes de artistas reais no mundo todo — mas aconteceu. A animação KPop Demon Hunters se tornou uma febre e, junto dela, a trilha sonora original ganhou fãs assíduos, atingiu o topo dos charts e entregou alguns dos maiores hits do ano — especialmente Golden, que liderou as paradas em mais de trinta países e já alcançou seu bilhão no Spotify.

O motivo do sucesso? As HUNTR/X podem até não ser reais, mas as suas vozes são. Os compositores e produtores são artistas de verdade, alguns deles diretamente envolvidos na vasta indústria do k-pop, que acreditaram e depositaram amor no que estavam criando. O resultado: EJAE, AUDREY NUNA e REI AMI conquistaram seu lugar por mérito próprio e agora estão com agenda cheia de entrevistas, premiações e performances ao vivo. E quem sabe não vem aí uma turnê? – ES


Haverá luz!

Quase 16 anos após Act II: The Father of Death, The Protomen está de volta com o suposto final de sua rock opera megalomaníaca. Inspirada vagamente pela lore de Megaman, o grupo compõe seu trabalho mais eclético e bem produzido em Act III: This City Made Us, com cada canção contando uma nova parte da história de rebelião robótica e a redenção sombria do Dr. Light. A espera mais do que estendida pode ter testado a paciência de seus fãs, mas a antecipação rendeu uma experiência comunal de esperar, semana a semana, o lançamento de uma nova faixa no Bandcamp e a construção de uma narrativa através das letras expletivas, marca registrada do storytelling dos músicos. Terminando com o bom doutor tendo que pagar o preço por sua criação, a única certeza com que ficamos é essa: a espera valeu a pena. – Gabriel Arruda

Você já ouviu essa música antes?

Rainha do scandipop moderno, a adorável Sigrid voltou com tudo em 2025, apresentando o que pode ser seu trabalho mais coeso até então. Evitando as armadilhas do álbum anterior, a norueguesa faz de There’s Always More That I Could Say um retorno a raíz de seu primeiro disco, um exemplo primoroso de pop perfection e que alavancou ela para o topo de sua categoria. Apesar dessa familiaridade, ela ainda experimenta com tons e ritmos, produzindo uma experiência completa, engajante e chiclete. Muito mais confortável em seu status de popstar, ela se desafia a ser uma paródia de si mesma, desconstruindo sua própria sonoridade ao longo das 10 faixas. – GA

Sigrid termina seu terceiro disco com uma bela ode ao filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (Foto: Island Records)

Com Luminescent Creatures, Ichiko Aoba estreou nos palcos brasileiros em apresentação intimista em São Paulo (Foto: Hermine)

Luminescent Creatures e a ética da observação

Ichiko Aoba orienta toda a sua discografia por um silêncio que obriga a escuta atenta aos detalhes sonoros. Em Luminescent Creatures, a artista japonesa evoca pequenas cenas de intimidade, memória e contemplação, que se intensificam lentamente, como a bioluminescência intitulada no álbum – não para iluminar o todo, mas para oferecer breves lampejos na escuridão. Atento aos mínimos detalhes e de delicadeza semelhante a de um brinco-de-princesa laranja tigre, Luminescent Creatures exige presença, mas recompensa igualmente com uma beleza extraordinária. Ayra Mori

Conhecido também por trabalhos com Solange, Sky Ferreira, Mac Miller e A$AP Rocky, o artista Devonté Hynes retorna ao projeto autoral após quase uma década (Foto: RCA Records)

A ausência que move Essex Honey

Combinando espaço (Essex, condado da região leste da Inglaterra, onde passou a infância) à papila gustativa (Honey, tradução de mel), Devonté Hynes sob o pseudônimo Blood Orange, transpassa, no último disco, a confusão nostálgica de relembrar o passado. Da observação dessas memórias, especialmente do luto vivido após o falecimento de sua mãe, as composições organizam-se como um memorial, segmentado por vozes, interlúdios, ruídos, silêncios e interrupções suspensas, quase fantasmagóricas. Hynes abre mais espaço às colaborações – como Caroline Polachek, Mustafa, Tirzah e Lorde, dentre muitos outros –, entendendo o luto não como experiência individual, mas como um solo compartilhado de ausência e, sobretudo, de carinho. Não há fechamento, apenas um desconforto insistente na garganta, uma vontade imensa de chorar. AM

Coloque seus fones de ouvido e delicie-se com o álbum de estreia da queridíssima Addison Rae (Foto: Columbia Records)

A emancipação de Addison Rae

Addison Rae compõe um retrato honesto sobre o processo de emancipação em Addison, álbum homônimo de estreia. Através do olhar de uma ex-TikToker deslumbrada pelo glamour de Los Angeles, a cantora explora a liberdade que conduz o amadurecimento, sem negar as contradições que permeiam a experiência feminina contemporânea. Addison é definitivamente uma girl’s girl, e suas experiências ressoam com um dilema que é comum, sobretudo, à geração Z de jovens adultas – de se formar como sujeito em meio às expectativas do patriarcado e dos olhares vidrados das redes sociais. O desejo de performar feminilidade, coexistindo com a necessidade de manter-se fiel a ela mesma, ou ao menos à versão de si que ainda está sendo descoberta, é encapsulado por referências que evocam ícones pop com uma admiração genuína e linda de se ver – Britney Spears, Madonna, Marilyn Monroe e Lana Del Rey. Perder-se e encontrar-se repetidamente faz parte.

Addison é hipnótica, ela é camp! Com certeza uma das melhores surpresas do ano, com canções deliciosas de se ouvir enquanto se dança na frente do espelho! AM

Acontecimento do funk em 2025, as Irmãs de Pau anunciaram a separação, dando início a projetos solos (Foto: Irmãs de Pau)

As Irmãs de Pau são puro luxo!

Tradicionalmente associada ao improviso descuidado, a gambiarra é transgredida por Isma Almeida e Vita Pereira em Gambiarra Chic, Pt. 2, não como percepção de falta, mas como gesto estético e também político. Funk, eletrônica, rap e batidas industriais operam desordenadamente entre si, assumindo o excesso como princípio compositivo, apregoado da potência de invenção e de rejeição a qualquer promessa de polimento. As Irmãs de Pau não buscam conciliação, elas nascem da desobediência e transformam isso em afirmação. Aqui, a gambiarra – quando assumida, sem hesitação – é puro luxo! AM

Com faixas gravadas junto a Orquestra Sinfônica de Londres e outros artistas, como Björk, Carminho, Estrella Morente, Silvia Pérez Cruz e Yves Tumor, o álbum é candidato a futuras indicações no Grammy Awards (Foto: Columbia Records)

Amém à Santa Rosalía

Rosalía se entrega completamente ao absurdo que é a vida. Em LUX, quarto álbum da artista espanhola, há um gesto que assume a própria existência como ato de carregar dentro de si vestígios de todos os sentimentos que constituem a humanidade desde o seu início. Amor, feminilidade, desejo, revolta, memória, dor, fé e morte atravessam as composições como práticas encarnadas.

Guiada por um imaginário de santas e mulheres virtuosas, Rosalía continua redefinindo os limites da produção pop através da experimentação sonora, lirismo erudito e múltiplas línguas, cravando o álbum como clássico instantâneo, precisamente por compreender o tempo não como objeto imediato, mas como matéria que persiste.

No álbum, Rosalía reconhece que é formada por tudo aquilo que nos é tão excessivo, e encontra beleza justamente na vulnerabilidade, mesmo quando acompanhada de sofrimento. Ela ama tanto que chega a doer, concede demais o próprio coração. Essa consciência penetra LUX como um paradoxo assumido: Rosalía é absolutamente mundana, mas institui-se por uma esperança puramente divina, tensão essa simbolizada por melodias interrompidas e texturas distorcidas. Amar o mundo implica, para ela, deixar para trás fragmentos de si, e apesar disso, continuar – não há arrependimento nessa entrega, há conforto na própria condição. – AM

O quarto álbum de estúdio da compositora, produtora e cantora Erika de Casier foi um lançamento surpresa, para alegria dos amantes da boa música (Foto: Independent Jeep Music)

Lamentar nunca foi tão elegante

Contra a lógica da aceleração permanente, Lifetime reivindica o direito à permanência. Produzido e escrito integralmente por Erika de Casier, o álbum robustece o domínio autoral da dinamarquesa em subverter a intimidade em linguagem estética, soando como um fluxo de consciência minuciosamente arquitetado. Tudo é contido – batidas amortecidas, sintetizadores difusos e melodias sugestivas –, tratando o tempo, e o desgaste emocional imposto nas composições melancólicas, como atmosfera desfocada. Há uma elegância digna de comparação à finesse de Sade. – AM


O amor aos olhos dela

Lucy Dacus está apaixonada. Em Forever Is A Feeling, a cantora desnuda o sentimento em todas suas fases e evoluções, partindo do flerte tímido e chegando ao apogeu imenso que abarca estar junto de quem adora. Em faixas carregadas de metáforas, Dacus fala também do que habita além do campo romântico, caso de Modigliani, dedicada à Phoebe Bridgers.

Mas é na intersecção entre companheirismo e luxúria que o disco melhor se sai: Ankles narra um encontro de tirar o fôlego, Bullseye amansa o clima com a voz poderosa de Hozier e a risonha Most Wanted Man eterniza as palavras ao redor de Julian Baker. – Vitor Evangelista 

É dia de rock, bebê (Foto: Partisan Records)

O rock ensolarado 

As irmãs HAIM retornaram com o fantástico I quit, um CD intrinsecamente influenciado pela mídia e seu tratamento opressivo com as celebridades. Dos singles fotografados em réplicas de cliques dos paparazzis, até a capa elaborada com o insight de Paul Thomas Anderson, as cantoras deixam tudo nos instrumentos e nas composições, vulneráveis mas nunca fragilizadas ou quebradiças. 

Vindo do lançamento de um disco solo, o vocalista Cameron Winter reuniu a banda Geese para o suntuoso e detalhadíssimo Getting Killed, um exercício de rouquidão e ressaca que culmina numa coleção heterogênea de canções com muito a dizer. Au Pays du Cocaine e Husbands grudam como goma de mascar. – VE

O que os olhos não veem, o Spotify nos conta

Enquanto os espetáculos da Broadway continuam distantes do público brasileiro, a liberação das trilhas sonoras consegue expandir o alcance dos musicais. Caso de Death Becomes Her, uma releitura (mais) camp e extravagante do filme A Morte Lhe Cai Bem que, além de viralizar nas redes sociais, manteve vivo o eterno catfight de divas que alimenta, sem ver a quem, uma geração de queers. – VE

A britânica jasmine.4.t terminou o ano lançando o deluxe de seu disco de estreia (Foto: Saddest Factory Records)

A estreia cativante e melancólica de jasmine.4.t

Adotada pelo boygenius, a cantora britânica jasmine.4.t lançou o subestimado You Are the Morning, detalhando a erosão emocional dos anos adolescentes. Em faixas compostas à lágrimas e sangue, a artista deseja retornar ao estado anterior para tranquilizar-se, ao mesmo tempo em que denuncia o corporativismo que segrega e isola pessoas trans. Guy Fawkes Tesco Dissociation destrói as percepções de segurança e casa perfeita com as vozes da vocalista com as meninas que a amadrinharam. – VE

Todo dia é dia

A junção do trio João Gomes, Mestrinho e Jota.pê não poderia ter resultado num trabalho mais alegre, jocoso e instantaneamente clássico para a Música nacional. Em Dominguinho, os artistas unem bagagem, vozes e experiências para narrar as diversas fases de uma paixão, com metáforas espertas e muito calor para ser compartilhado e aproveitado. O disco ainda venceu o Grammy Latino e provou o poderio dos compositores. – VE

Sem ensaio prévio, os artistas chegaram para tocar apenas cinco músicas, mas acabaram gravando doze (Foto: Kaio Cads)

Do interior ao Grammy

De menina do interior ao Grammy Latino. Os dilemas da vida moderna de Carol Biazin viraram tema para seu terceiro álbum, No Escuro, Quem É Você?, lançado em duas partes. No Escuro, chegou em 2024, misturando canções sobre não querer se apaixonar e a relação com a família. Já em Quem É Você? – esse sim de 2025 -, a cantora paranaense se rende ao poder transformador de um amor calmo e se desnuda mais ainda em relação à saída do interior para a capital paulista, deixando entes queridos em busca de um sonho que, muitas vezes, dá medo. Mas vai com medo mesmo e, assim, a união de pop e R&B que marcou a carreira de Biazin até aqui a rendeu uma indicação à Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. – Vitória Gomez

Eu menti para você… eu amo blues!

Anota aí: você vai escutar o nome de Ludwig Göransson no Oscar de 2026. O compositor – já duplamente reconhecido pela Academia – repete a parceria com o diretor Ryan Coogler depois de Pantera Negra 1 e 2, e encabeça a trilha sonora de Pecadores. As faixas embalam a noite no juke joint dos irmãos Fumaça e Fuligem (ambos Michael B. Jordan), começando no clima faroestiano de uma época de segregação racial nos Estados Unidos, passando por um blues catártico capaz de transcender gerações (dos anos 1930 para o Oscar), chegando até às canções irlandesas cantadas a plenos pulmões por uma massa diabólica. De arrepiar. – VG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *