Cor da paixão, o vermelho está presente nas rosas, fitinhas e maçãs, receitas que prometem trazer a pessoa amada em pouco tempo. Caso falhe, a figura mítica de Santo Antônio pode ajudar: seja com bilhetes aos pés da estátua ou mesmo afogando o pobre coitado em água ou cachaça. Em última instância, pode-se recorrer ao misterioso brinde da One Wish Willow. Esse é o caminho escolhido pelo protagonista de Obsessão.
Bear (Michael Johnston) é um cara normal. Pacato, divide a rotina entre o emprego numa loja de música e os muitos encontros com o grupo de amigos; ele mora na casa que herdou da avó, convive com um gatinho igualmente sereno e guarda um segredo apaixonado. Seu objeto de admiração é Nikki (Inde Navarrette), amiga de infância, colega de trabalho e sua colossal quedinha.

O problema no filme escrito e dirigido pelo jovem Curry Barker é que Nikki vê Bear como amigo e apenas como amigo. Quase um irmãozinho, que enche sua paciência mas também é fonte de carinho e camaradagem. Azar dela, pois o desejo será cumprido à risca: o de que ela o ame mais do que qualquer outra pessoa do mundo.
Graveto quebrado, desejo concedido. Tudo perfeito. O romance floresce para a estranheza de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless), a dupla que forma o quarteto que antes passava o tempo todo unido, e de repente se separou. As horas do dia de Bear são coladas ao lado de Nikki: eles cozinham, assistem filmes, fazem passeios e trocam carícias, sorrindo de orelha a orelha. Mas Obsessão não é um romance.

O filme até pode ser uma história de amor, como Nikki, escritora em potencial e frustrada trabalhadora da loja de música, define para Bear antes do desejo se concretizar. A performance de Navarrete ganhou as manchetes e transforma o filme numa obra imprescindível e ímpar. Seu rosto, modelado quase como massinha, entra e sai de diversos semblantes que vivem no mundo sobrenatural e nos limites aceitáveis do Vale da Estranheza.
Entre os resquícios da Nikki que rapidamente conhecemos e a Nikki que habita o relacionamento com Bear, a atriz constrói monumentos macabros em forma de sorrisos e lágrimas, congelando os olhos na psicose de alguém que perdeu sua autonomia e está presa no infernal ciclo de abuso e co-dependência. Para capturar tamanha intensidade, o diretor combinou truques com o elenco.

Por exemplo, o de mesclar takes “divergentes” na montagem, também assinada por Barker. Antes do desejo, Navarrete gravou tomadas com motivações opostas, deixando ainda mais nebulosa as intenções de Nikki e a maneira como Bear, o dono do ponto de vista da audiência, enxerga ela. A atração nunca existiu, ou existem sinais de que, no fundo, ela sente algo mais pelo amigo?
Obsessão ainda abusa de efeitos práticos para explicar a excentricidade do comportamento dela após o graveto quebrar. Com maquiagem, a fotografia de Taylor Clemons brinca de pique-esconde de luzes apagadas e faz com que Nikki suma atrás da figura que toma posse de sua autonomia. Com movimentos corporais estranhos e incomuns, animalescos e quasi-felinos, ela assusta tanto Bear quanto quem assiste, incerto sobre a natureza da companhia que fabrica o produto e, se, por acaso, a procedência mística é real mesmo.

Realizado com orçamento estimado em um milhão de dólares e filmado em 20 dias, Obsessão tornou-se febre de bilheteria e multiplicou seus lucros, com altas nas vendas de ingresso, recordes de público e um tipo de burburinho que campanha de marketing nenhuma poderia fabricar ou prever. Fenômeno pop, o filme de Barker dedica-se a cutucar a cultura do homem incel e cortar à quente uma relação de toxicidade e controle sobre a mulher.
É o tipo de terror que borra as linhas entre suspense, mistério e até mesmo comédia, dado o histórico na carreira do diretor, que sabe quando e como editar certas explicações, deixando o clima fúnebre de incerteza pairando e adocicando a visão de Bear e da audiência. Obsessão opera em suas próprias regras e até nega certos tropos do gênero, depositando em Nikki o papel de co-protagonista sobrevivente.

Navarrete saboreia cada mímica, acrobacia verbal e chance de aterrorizar os demais personagens. Na cena da festa, quando se levanta e lê trechos de uma narrativa autoral sobre João, Maria, incesto e consentimento, a atriz modula milhões de emoções ao passo que atinge o clímax de um faz de conta com requintes da crueldade do desejo do namorado, a certo momento ciente do que se concretizou e disposto a persistir no erro e ignorar as consequências.
Capaz de assustar e de trazer remorso ao topo dos sentimentos de seus espectadores, o trabalho de Curry Barker demonstra o potencial criativo e inventivo do terror, como gênero de vanguarda e lar de inovações desde que o Cinema é Cinema. Obsessão é sangrento, causa ojeriza e demanda empatia, coroando a experiência com uma figura tão carismática quanto icônica, tão destruída quanto poderosa, e que só encontrou vazão pela entrega desenfreada e maciça de Inde Navarrette.


Deixe um comentário