É uma delícia quando assistimos um filme que sabemos que, em não muito tempo, vai ser um clássico. Seja tanto por suas problemáticas quanto por seu enredo interessante, boa escolha de elenco e roteiro que engatilha reflexões tão envolventes quanto as de obras consagradas de décadas passadas. Assim, O Drama (2026) é o alvo perfeito para quem busca por isso. Dirigido por Kristoffer Borgli, que comandou os ótimos Sick of Myself (2022) e Dream Scenario (2023), o longa-metragem mantém a sua estilística ao expor as hipocrisias que se sustentam atrás do escudo das aparências da civilidade.
Nesse cenário, falar de uma suposta seca criativa na cultura pop virou um lugar tão comum que tira o protagonismo de uma transição muito curiosa de interesses do público e dos próprios estúdios de cinema nas últimas décadas. Do fim silencioso da era de ouro das comédias românticas dos anos dois mil até seu preenchimento por uma audiência mais cínica, trocamos as soluções confortáveis com personagens moralmente simples e fugas fáceis da realidade por mais complexidade e realismo nas relações humanas.
A narrativa empunha toda a iconografia clássica e luminosa de uma rom-com, com fotografia assinada por Arseni Khachaturan (de Até os Ossos), para, deliberadamente, implodir essas expectativas por dentro. Ela oferece um estudo profundo sobre a impossibilidade de conhecermos plenamente a pessoa que dorme ao nosso lado, disparando a trama de tal maneira que nos impede de chamá-la só de comédia romântica. A obra usa o colapso dramático de um noivado como munição para algo muito maior e indigesto. Nessa síncope sentimental, o roteiro executa filosófica e ironicamente o desmoronamento de uma bolha de amigos que se projeta como eruditos, cosmopolitas e politizados, mas tem toda essa aparência frágil como um gatilho.

Antes de atirar o público nesse dilema, o diretor faz questão de ambientar o primeiro ato em uma aura de perfeição desastrada, típica das produções independentes mais charmosas e elogiadas. A dinâmica de Emma, interpretada pela estonteante Zendaya, e Charlie, por Robert Pattinson, um casal prestes a subir ao altar, nos apresenta a uma rotina e um círculo de amigos incrivelmente acolhedores que abraçam pequenas e belas imperfeições cotidianas. No entanto, nesse ecossistema blindado, cheio de jantares descontraídos e conversas intelectualizadas, cria-se o acordo tácito de que o afeto moderno suporta toda e qualquer falha humana, para então atirar à queima-roupa e testar o instante em que um erro ultrapassa a linha invisível daquilo que a civilidade deles considera aceitável.
Tudo se desdobra em uma noite de degustação de vinhos para o casamento em que um casal de amigos e padrinhos confessam as piores coisas que cada um já fez na vida. Começamos leve, com Mike (Mamoudou Athie, de Elementos) admitindo ter usado uma ex-namorada como escudo humano para não ser atacado por um cachorro na rua. Já Rachel (interpretada por Alana Haim, de Licorice Pizza), sua esposa, confessa ter trancado um garoto no armário de um trailer na floresta e escondendo o paradeiro da criança até mesmo da equipe de buscas, depois de questionada sobre o que aconteceu com o garoto, ela desmente que não sabe e diz que ele está bem — deve estar sim, com certeza.
Charlie, o noivo, não consegue dizer por não ter feito nada demais e é desclassificado do jogo. Emma conta, por fim, que durante a sua adolescência conturbada, interpretada por Jordyn Curet em flashbacks, planejou um massacre em sua escola e quase o fez. Na véspera da data em que pretendia fazer o ataque, um outro aconteceu em uma escola próxima e um de seus conhecidos foi vítima, mobilizando todo um espaço de coletivos antiarmas e apoio ao luto em que a protagonista, finalmente, se sentia parte de uma comunidade e parou de sofrer a exclusão e bullying que a tinham motivado a planejar todo o ataque.

A reação na mesa muda o clima do jantar na mesma hora. Rachel cria repulsa imediatamente e justifica toda sua fúria com o fato de ter uma prima que ficou paraplégica justamente por um tiroteio escolar. Charlie não sabe como reagir e se deixa levar pela indignação de Rachel, acompanhando a rejeição em silêncio. Mike tenta controlar os ânimos da mesa, sem muito sucesso tudo começa a escalar e construir o ponto de virada do filme. Vendo a situação, Emma entra em choque e se arrepende no mesmo instante de ter exposto o seu maior segredo. E vomita.
O que torna a cena ainda mais irônica é perceber o que o grupo escolhe solenemente ignorar. Talvez pela cultura armamentista dos Estados Unidos, onde a facilidade de se obter e manusear armas de fogo é tão naturalizada que choca menos do que a ideação do crime em si, é curioso que durante a revelação ninguém problematize o fato de que uma adolescente teve acesso livre ao rifle do pai para praticar tiros na floresta da região, diversas vezes. Os amigos ficam apavorados com os pensamentos de Emma, mas isentam o sistema que colocou a munição nas mãos de uma jovem vulnerável de forma tão banal.
Na mesma esteira, o roteiro também questiona em poucas linhas a falta de supervisão parental. O filme deixa claro que Emma gravava os seus vídeos caseiros no próprio quarto, planejando tudo sem que nenhum adulto ou responsável desconfiasse de qualquer coisa — até nos distraímos com o Windows Update atrapalhando seus planos e cortes com timing cômico perfeito. Trata-se de um retrato muito honesto da solidão adolescente e de como a internet contribui para o adoecimento mental, até que o estrago se torne inevitável e cause uma tragédia.

A omissão desses debates estruturais pelo grupo pode até não ser uma escolha consciente, mas funciona ao isolar a culpa e o foco exclusivamente em Emma e dá início ao enredo perturbador de Charlie. Ele se vê subitamente dividindo o mesmo teto com uma desconhecida. Essa desconfiança passa a alvejar cada interação banal do casal nos dias que antecedem a cerimônia de tal forma que nos aprisiona em suas paranoias e foca na sua tentativa desesperada de procurar algum resquício de monstruosidade no olhar da parceira enquanto tomam um simples café da manhã. A dúvida cruel sobre quem ela realmente é acaba consumindo o afeto prévio, transformando a convivência em um verdadeiro campo minado onde ele caminha aterrorizado com a possibilidade de o passado violento dela ser a sua verdadeira essência.
Para acompanhar essa vertiginosa mudança de perspectiva do noivo, o tom geral do filme também muda. A trilha sonora, assinada por Daniel Pemberton, é bastante discreta e suave durante a primeira parte do longa, servindo como um pano de fundo para as interações sociais charmosas da elite intelectual. Subitamente, assim como a trama, se converte em uma sonoplastia discretamente ríspida e perturbadora. Os arranjos passam a disparar frequências dissonantes que espelham toda agonia e pontuam o silêncio constrangedor que toma conta do externo de suas mentes conturbadas, fazendo com que o ambiente pareça estar se encolhendo ao redor da crise pré-nupcial.

A omissão desses debates estruturais pelo grupo serve para isolar a culpa total e exclusivamente da noiva, e é a partir desse isolamento que o roteiro engatilha a verdadeira tortura psicológica de Charlie. Ele se vê subitamente dividindo o mesmo teto com uma completa desconhecida. Seu terror nasce da constatação de que a mulher com quem escolheu passar o resto da vida foi capaz de arquitetar uma atrocidade de forma totalmente fria e calculista durante a sua juventude. Essa desconfiança passa a alvejar cada interação banal do casal nos dias que antecedem a cerimônia.
O roteiro de The Drama é extremamente hábil em nos aprisionar dentro da paranoia do personagem, acompanhando as suas crises internas sem a necessidade de avançar nos acontecimentos práticos da trama, focando na sua tentativa desesperada de procurar algum resquício de monstruosidade no olhar da parceira enquanto tomam café da manhã. E imaginem isso com pontuais traços cômicos em que rimos de nervosos.
Ainda assim, ao menos para nós que talvez não sintamos o peso cultural do que ela fez, é mais brando toda questão que Charlie tem sobre quem ela realmente é, o fazendo caminhar aterrorizado com a possibilidade de o passado violento dela ser a sua verdadeira essência. No mais, ainda que tenham desenvolvido bem toda trama do Charlie, o roteiro perde um pouco do seu ritmo e acaba subutilizando o potencial de personagens secundários, como Mike e Rachel e outras figuras do casamento, que poderiam render embates até mais bem desenvolvidos.

Apesar de poucas ressalvas, que se baseiam no desejo de querer ver mais de tudo nesse mundo, por mais agonizante que seja, o diretor nos oprime a partir da montagem e traz o debate para que nós mesmos olhemos nossa própria hipocrisia. E faz isso com um domínio do desconforto que já havia consolidado no excelente Doente de Mim Mesma. Sustentado por esse ambiente hostil, somos colocados em frente a perguntas indigestas antes que as luzes do cinema se acendam. Ao sair, eu e meu grupo de amigos discutimos um pouco sobre o filme e alguém soltou: “E aí, qual a pior coisa que já fizeram?” ninguém respondeu, rimos de nervoso e cada um foi pra sua casa.


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