A possibilidade de bisbilhotar por detrás das cortinas de Hollywood é irresistível e Lena Dunham sabe muito bem disso. Ela começa Famesick, seu segundo livro de memórias, pulando a infância, a adolescência e o início da vida adulta. Quem quiser conhecer o passado que leia Não Sou Uma Dessas; o alvo da vez é o sucesso – e o fracasso – que sucederam a criação de Girls.
Nomeando os bois, as vacas, os pôneis e os porcos, Dunham volta no tempo e reencontra sua versão recém-saída da faculdade, quando o sinônimo de vitória era conseguir que seu filme independente passasse em algum festival para meia dúzia de espectadores e a atenção dos jurados. Famesick funciona quase como uma continuação do que conhecemos dela em Girls, já que muitas das situações vividas por Hannah saíram diretamente dos diários de Lena.

“E se eu amava fazer filmes, então fazer TV, imaginei, deve ser como um filme que nunca termina — e o que poderia ser melhor do que isso?”
Há metalinguagem, também, na maneira que os capítulos do livro são batizados com os títulos dos episódios da série, que é encarada por Lena como uma batalha criativa pessoal que no fim saudou dívidas que ultrapassaram os limites do que ela estava disposta a pagar. “Parecia que eu estava sempre me questionando, tentando entender o lugar que ocupava na vida de alguém e tomando decisões com base nessas conclusões abstratas”, ela relata.
A doença do título não é metafórica. Foram centenas de horas no hospital, uma dezena de médicos que ignoraram seus chamados e mais uma porção de cirurgias, exames e nada de diagnóstico. Através desse diário entre salas de espera e consultórios estéreis, Dunham trata de temas específicos de sua genética e de sua rotina, e como o vício em medicamentos se infiltrou nas frestas de tempo e trabalho.

“Em retrospecto, isso — deixar o seio da minha família enlutada para voltar a um lugar onde minha dor pouco importava — plantou as primeiras sementes de ressentimento pelo trabalho que eu tanto amava, a sensação de que ser um bom soldado já estava me custando muito mais do que eu tinha na carteira.”
Afinal, para a Lena de vinte e poucos anos, trabalhar com dor, com o braço quebrado ou com sangramentos frequentes era tão normal quanto trabalhar em estado de paz e harmonia. Famesick não esconde as cicatrizes; na verdade, por meio de sua prosa volátil, consciente da cultura e carregada de auto indulgência, a autora convida quem lê para uma passagem inquieta e desconfortável por uma década de decisões equivocadas e vassouras que empurraram o pó para debaixo dos tapetes, longe da vista grossa de qualquer adulto ao redor.
Fofocas alimentam parte do livro, num rompante temporal que parte do início de Girls, passa pela relação profissional complicada, abusiva e distante que ela cultivou com Adam Driver, tira tempo para detalhar o longo romance com Jack Antonoff, envolvendo aí uma eleição presidencial e a aproximação do produtor com uma certa estrela pop adolescente, e chega ao fundo do poço, quando Lena acumulava mágoas e fichas médicas.
“Meu namorado estava trancado no quarto dos fundos com a estrela pop adolescente, cujas demandas pareciam tão grandes e complexas quanto as minhas, e que me chamava de ‘Tia Lena’ quando eu mancava até a cozinha com meu andador para pegar outra garrafa de chá verde.”
O tratamento do feminino nos Estados Unidos, país que subestima, diminui, ignora e machuca as mulheres como método sistemático de opressão, fez de Lena uma vítima fiel. Sarcástica e ácida nas memórias, ela reconta a amizade com a produtora Jenni Konner, que acabou de maneira drástica mas ainda reverbera em seu inconsciente incapaz de acalmar-se.
A ideia de escrever como processo de cura e metabolização dos traumas não escapa de Lena, muito solícita e muito aberta a todos os tipos de críticas que recebe, sejam elas por meio das redes sociais (com ataques ao corpo “fora de forma”, ao retrato do sexo longe dos padrões), seja nas amizades, distantes, enevoadas e sublimadas pela inveja, pela mágoa e pelo ressentimento.

“Aos 23, achei que seria interessante criar uma personagem de TV que abraçasse seu corpo imperfeito; aos 30, eu me sentia presa ao meu.”
A família de Lena é parte vital de Famesick. Os pais, prestativos mas indispostos a esconder a verdade, socorrem a filha, até que um colo familiar se prova insuficiente e talvez até destrutivo. O irmão Cyrus, também apartado de qualquer proximidade geográfica, é presença que acompanha Lena em qualquer ocasião, local ou circunstância, um fantasma formado por pequenas rupturas que acabam numa fissão gigantesca.
Famesick faz um trabalho de coleta de dados e de manchetes da vida de Dunham para que o leitor entenda todas as arestas e as faces da situação. Bode expiatório de uma geração de homens misóginos escondidos atrás de telas, a atriz, produtora, diretora e roteirista nunca soube viver uma vida de perdões ou concessões. Era tudo ou nada, sempre; e Lena sempre optou por tudo. Todas as flores, as pedras, as trepadas, os corações partidos e as emoções potencializadas.

Com um grau de sinceridade que apenas a voz de sua geração poderia carregar, especialmente no que tange as intimidades que nem as câmeras da HBO se atreveram a eternizar, Famesick carrega tudo que faz de Lena Dunham uma artista sem igual: é irresistível, constrangedor, revelador e, no final, reflete alguém que tem coragem para se colocar na linha de frente das situações inéditas que só acontecem pelos riscos anteriores.


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