Marty Supreme: para Timothée Chalamet, a vida imita a arte

As semelhanças do ator franco-americano com seu novo papel podem ter enterrado suas chances de vitória no Oscar pelo segundo ano seguido

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Na Nova Iorque de 1952, tal qual o balé e a ópera na década de 2020, ninguém poderia ligar menos para tênis de mesa. Entretanto, para Marty Mauser (Timothée Chalamet), aquele é o futuro do esporte americano — menos pelo ato de arremessar bolinhas em uma mesa com raquetes, e mais por essa ser a única coisa que ele sabe fazer direito. Se não fosse ping pong, seria qualquer outra modalidade. O que importa para o atleta semi-verídico é o estrelato, e ele sacrificará o que e quem for necessário para alcançá-lo.

Em produção desde 2018, Marty Supreme é o primeiro longa-metragem solo de Josh Safdie desde 2008, período em que dividiu a direção com seu irmão Benny (Joias Brutas, Bom Comportamento). Alcançando muito mais prestígio que a alçada solitária do seu caçula — ironicamente, também com um drama semibiográfico centralizado em um atleta —, a maior bilheteria da história da A24 engatou na temporada de premiações, garantindo nove indicações ao Oscar 2026, incluindo Melhor Diretor.

Uma reportagem da Page Six, publicada no auge da campanha de Marty Supreme, revelou que a separação dos irmãos Safdie envolveria uma cena que Josh dirigiu com uma atriz menor de idade em Bom Comportamento (2017) [Foto: A24]

O roteiro, escrito por Safdie em parceria com Ronald Bronstein e indicado a Melhor Roteiro Original, sempre foi pensado para Chalamet. Os paralelos entre o ator de 30 anos e a ambição fervorosa do protagonista não passaram despercebidos, sobretudo após seu discurso de agradecimento ao receber o SAG de Melhor Ator ano passado. Ali, ele manifestou seu desejo de estar entre os grandes, citando inspirações como Marlon Brando, Viola Davis e atletas como Michael Jordan e Michael Phelps.

A derrota no Oscar 2025 por Um Completo Desconhecido abriu uma caixa de pandora na cabeça de Chalamet, que, receoso em acabar como Leonardo DiCaprio, se tornou gradativamente mais obcecado em provar-se merecedor da estatueta. As referências insistentes a sua atuação de método (como seus treinos de tênis de mesa no set de Duna: Parte Dois) e sua postura egóica em entrevistas e materiais de divulgação construíram ao seu redor uma persona infame, ao mesmo tempo que reflete sua interpretação obstinada e que imediatamente salta aos olhos.

As indicações de Marty Supreme em Melhor Design de Produção, para Jack Fish, e Melhor Figurino, para Miyako Bellizzi, revelam o esforço primoroso em reproduzir a Nova Iorque daquele período da maneira mais fidedigna possível (Foto: A24)

Para ganhar uns trocados, Marty trabalha como vendedor de sapatos na loja do seu tio. Em paralelo, tenta construir uma carreira no tênis de mesa. Em sua primeira oportunidade de participar do British Open, com chances de vencer e trazer visibilidade ao esporte nos EUA, Mauser assalta o cofre do próprio tio, pega o dinheiro que precisa para voar ao Reino Unido e vai em direção ao seu sonho.

Esse é o primeiro dominó a cair na onda de azar que teimará sobre o personagem. Para resolver um problema, ele cria outro, e assim sucessivamente até que todo o peso da Terra esteja em seus ombros. E para piorar, Marty acredita merecer tratamento de ouro antes mesmo de conquistar qualquer tipo de mérito ou prestígio, agindo com petulância aos seus superiores e rapidamente criando inimigos.

Indicado à Melhor Fotografia, Darius Khondji gravou Marty Supreme inteiramente em câmeras Panavision (Foto: A24)

O que não dá para negar é que o homem tem lábia. Mesmo cheio de espinhas e com uma monocelha horrorosa, ele convence todos a fazer o que deseja, mesmo sabendo que sofrerão uma rasteira logo em seguida. As mulheres de sua vida? Mauser despreza todas. Sua mãe ‘morre’ na primeira entrevista que ele dá à imprensa. Sua amiga e amante, Rachel Mizler (Odessa A’zion) é chutada assim que dá a notícia de sua gravidez. Seu caso com a ex-atriz Kay Stone (Gwyneth Paltrow) não passa de um reflexo da sua busca incessante por status e poder.

O teatro de uma pessoa insuportável encontrando mil e uma formas de ser insuportável tinha altas chances de virar cansativo, mas Josh Safdie tem domínio amplo dessa arte. Paralelamente, Chalamet passa longe de engolir seus colegas de cena. Como em uma dança de salão, ele compartilha o espaço e encontra sua própria sincronia com cada um deles — incluindo novatos como o rapper Tyler Okonma, que estreia nas telonas como o taxista Wally —, transformando cada sequência em um espetáculo tragicômico e justificando a indicação da obra na mais nova categoria do Oscar de Melhor Escalação de Elenco para Jennifer Venditti.

Josh Safdie e Ronald Bronstein também receberam indicação na categoria de Melhor Montagem (Foto: A24)

Verdade seja dita: Marty Mauser é um narcisista ególatra, e o filme em momento algum esconde isso — o que chegou a causar atritos com a família de Marty Reisman, que foi atleta na vida real e inspirou parcialmente o protagonista. Suas ações egoístas sempre implicam em consequências ainda mais estapafúrdias. Por outro lado, ele consegue dar a volta por cima com seu carisma irresistível, o que pode dar a impressão que Safdie não pune o personagem o quanto deveria.

De um jeito ou de outro, independentemente dos seus esforços, a fama nunca chega. Ainda que seja um bom jogador — assim como Chalamet é um ótimo ator — Mauser será, para sempre, um quase. Este parece ser o maior medo da não-tão-mais-jovem promessa do Cinema, que recebeu sua primeira indicação ao peladão reluzente com apenas 22 anos. E, ironicamente, tem sido a sina que afundou a campanha de Marty Supreme nas últimas semanas.

Apesar das falas ácidas sobre balé, Timothée Chalamet cresceu próximo desse cenário na infância e adolescência — sua avó, mãe e irmã foram bailarinas do New York City Ballet (Foto: A24)

Timothée Chalamet começou a temporada como favorito isolado à categoria de Melhor Ator, vencendo prêmios como o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards. O detalhe é que ambas são premiações votadas por críticos e jornalistas, e o que aparenta é que seus comparsas do mercado cinematográfico não compraram seu discurso ousado e, por muitas vezes, arrogante. Tanto no The Actor Awards (antigo SAG) quanto no BAFTA, os principais termômetros para o Oscar, Marty Supreme saiu de mãos atadas, caindo bruscamente nas previsões.

As polêmicas relacionadas à sua declaração recentes sobre outras formas de arte — vinculadas ao universo feminino — são apenas um reflexo do desgaste ao redor de um ator que alavancou sua carreira com produções sensíveis, dirigidas por mulheres e voltadas ao público LGBTQIAPN+, e hoje investe em uma imagem pública irreverente, presunçosa e hipermasculinizada. E o mais engraçado é que, caso sua terceira derrota no Oscar 2026 se concretize, esse será o resultado mais Marty Supreme possível. Talvez seja esse o destino irônico que Chalamet mereça.

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