Entrevista com o Vampiro não existe mais: estamos na era de O Vampiro Lestat. Sam Reid assume o posto de narrador fiel e se torna objeto de admiração e fascínio do (agora Vampiro) jornalista Daniel Molloy, papel do sempre hiperbólico Eric Bogosian. Baseada no segundo livro escrito por Anne Rice, a terceira temporada do drama da AMC rejeita normas e regras.
Parte documentário, parte audiolivro, inteiramente embriagada na psique do protagonista, a temporada de sete episódios abraça o glamour e a sujeira de uma banda de rock, batizada como o vampiro titular, que toma as estradas numa perigosa turnê pela América. Seu vocalista flutua no palco, mordisca pescoços e bebe sangue. A audiência acha que tudo é truque de ilusionismo.

Desenvolvida pela mente de Colin Jones com base na literatura voraz de Anne Rice, a série ainda desemboca numa criativa loucura musical, com direito a dezenas de músicas gravadas e lançadas, com os traumas de Lestat transformados em letras que beiram o canastrão, com o toque de rock and roll de um ser imortal e entediado. Em faixas como The Loneliness e When I Call Out Your Name, Reid empresta o vozeirão para que Lestat rasgue o coração com guitarras ao fundo.
The Vampire Lestat equilibra diversas linhas do tempo, costurando a narrativa com base no estado emocional do protagonista. Conhecemos a infância, onde um inseguro e gago Lestat lutou contra a família e se provou ao matar lobos selvagens. Mais tarde, flashes de sua transformação por meio do Vampiro Magnus (Damien Atkins), numa construção imagética fortíssima que se duplica nos diversos abusos que ele acabaria sofrendo e causando.

No centro de tal ação, a figura proeminente e perigosa de Gabriella (Jennifer Ehle) torna-se vital para o entendimento da raiva, da dependência e da personalidade ególatra de Lestat. Quem leu o livro estava preparado, mas a revelação da relação incestuosa entre mãe e filho continua tão ou mais chocante do que era pelas palavras de Rice.
O roteiro não alivia nem contorna os tabus, na verdade fazendo dessa quebra de confiança com o público uma alavanca para o eventual declínio do personagem, que acontece, por razões do destino, nos braços de Louis (Jacob Anderson). O casal, fadado a um amor desconectado da razão e permeado por omissões, passa também a encarar um fantasma doloroso: Claudia.

Morta no julgamento dentro do teatro, a filha de Louis e Lestat não ressuscita. Pelo menos, não da maneira fantasiosa que os vampiros gostariam de manifestar.. É numa cruel coincidência que Regina, garçonete insatisfeita, se depara com Louis. De volta ao elenco, Delainey Hayles expressa muito pelo olhar oco e sem brilho.
Claudia, porém, aparece mais uma vez, em uma sessão espiritual que resgata uma bruxa da série-irmã e escancara a fantasia que Louis alimentou por décadas. Com raiva, rancor e ódio, a filha perpétua escarra no rosto de seus feitores, com fatos sólidos, sua eterna solidão, sem ninguém para segurá-la, nem por um mísero momento.

Mas não é apenas Claudia e Louis que servem de coadjuvantes para a ascensão de Lestat, que também se volta para a relação outrora amistosa com o Gremlin Armand (Assad Zaman). Mais fundo nas feridas dos seres tão antigos quanto o próprio tempo, The Vampire Lestat apresenta o ancião Vampiro Marius (Christopher Heyerdahl, um dos Volturi da saga Crepúsculo), guardião de conhecimentos e dos segredos do Rei e da Rainha.
A aguardada chegada de Akasha (Sheila Atim) acontece quase que como um mero detalhe na vida de Lestat, mas a posição da vampira como próxima protagonista das Crônicas, aliada ao trabalho primitivo e teatral da atriz de origem ganesa-britânica, apenas testa a curiosidade e atiça o espectador. Pois, no futuro, é a Rainha dos Condenados quem dará as cartas e determinará o futuro das criaturas noturnas, multiplicando-se como coelhos numa toca abafada.

Com a liberdade cedida à figura extravagante de Lestat, conhecemos um mundo além das concepções de Louis. Isto é, detalhes outrora irrelevantes, agora se transformam: caso dos fluídos corporais dos vampiros, todos expelidos na forma e na cor do sangue. Quer usar o mictório? É melhor carregar uma garrafa d’água capaz de lavar o azulejo da marca rubra. No banho, Lestat se refresca com uma cascata de sangue, e depois se lava com a água, provando a ligação extracorporea dos personagens com o líquido.
Muito mais impaciente que o narrador anterior, que usava de Daniel como ferramenta para um conto unilateral de amor e traição, Lestat quer atenção o dia todo, o tempo todo, para a vida toda. Quando conhecemos sua versão dos fatos, depois do próprio ler o livro de Louis e passar cenas e cenas remoendo, lamentando e destruindo o material, é sua voz que acompanha as memórias.

Nos discos, batizados de Os Fracassos, Lestat remonta a infância, a adolescência e a morte humana. Conhecemos, da mesma forma, a transformação de Nicholas de Lenfent (Joseph Potter), o primeiro amor e a primeira desolação do protagonista. De forma semelhante, a presença enigmática e elétrica de Gabriella, decorada com a performance à lá Meryl Streep de Jennifer Ehle, se constrói num misto de erotismo e ressentimento, o que se culmina na season finale, quando a fantasia ganha ares de terror de sobrevivência.
Ao colocar à prova a teoria de que vampiros podem sobreviver horas com a cabeça separada do corpo, Armand organiza um banquete para Lestat. Na mesa, todos seus algozes, vítimas, captores e fracassos. O assunto é a vida do antigo nobre, agora rockstar prestes a reunir milhares de vampiros e executar A Grande Conversão, um plano mirabolante que é alimentado pela mãe e repudiado pelo resto dos presentes.

O anticlímax de The Failures funciona como antídoto ao hipertenso resto da temporada. Depois de brincar com gêneros, formatos e ritmo, The Vampire Lestat volta ao interior e ao efêmero a fim de pontuar as mudanças evolutivas do personagem, alguém que navega por 250 anos de existência e diversas mágoas e intrigas. Com vislumbres de um futuro violento, onde as cidades caíram e Akasha parece caminhar por entre os mortais, As Crônicas Vampirescas, na embalagem televisiva, livre de expectativas ou amarras e ciente do poder da metamorfose, ganha um capítulo que honra a Literatura de Anne Rice ao mesmo tempo em que se adapta aos tempos modernos.


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