I Love Boosters: radicalidade e surrealismo no manifesto cultural de Boots Riley

Diretor americano desembarca no Brasil para apresentar seu curioso e indefinível filme na 50ª Mostra

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Colorido, extravagante e pessoal: esse é o Cinema e a Arte de Boots Riley, realizador norte-americano que chega à 50ª Mostra de São Paulo como parte do júri e convidado especial. Para os fãs de seus cultuados projetos anteriores (Sorry to Bother You e Sou de Virgem), a estreia de I Love Boosters evidencia uma carreira que rejeita o padrão e inova em gênero, número e grau.

Com roteiro e direção de Riley, o filme acompanha um grupo de assaltantes (ou boosters) da moda. Corvette (Keke Palmer), que viu o sonho de assinar coleções de alta-costura ir por água abaixo depois de uma negativa do concurso de elite, se junta a Mariah (Taylour Paige) e Sade (Naomi Ackie) numa cruzada social com requintes de justiça. O alvo é apenas um, o império de Christie Smith (Demi Moore).

O dispositivo metafísico usado por Jianhu foi concebido inicialmente como um teletransportador, mas Boots Riley optou por algo menos convencional, baseado nas regras da teoria marxista em vez das leis tradicionais do espaço-tempo, cujos princípios se desenvolvem ao longo da trama (Foto: Universal)

Entre saídas visuais práticas e o tipo de criatividade que colocaria medo em qualquer executivo de estúdio apavorado frente a ideias estranhas demais, I Love Boosters é um deleite desvairado, passeando entre o absurdo, o colérico, o amável e o político, tudo enquanto bombardeia a tela com estampas, luzes e efeitos que descolam a retina da íris e dão lugar a uma imensidão de alma.

Os coadjuvantes são caricatos, e ganham do elenco momentos preciosos de humor e drama. LaKeith Stanfield interpreta um taciturno galã às avessas, capaz de sugar a alma de alguém pelo simples ato dos lábios em contato com mucosas. Já Will Poulter dá vida e fôlego a um funcionário da grife de Moore, disposto a percorrer uma maratona e meia para agradar a mentalidade da chefe. Don Cheadle, por outro lado, vive um charlatão irreconhecível – pedido atendido pelo diretor quando contatou o ator para o trabalho.

Nascida em Londres, Naomi Ackie precisou desenvolver um sotaque típico de Oakland para interpretar Sade, mas Boots Riley logo descartou o receio de que a preocupação em falar corretamente pudesse prejudicar sua atuação ao vê-la assumir o sotaque espontaneamente (Foto: Universal)

Falando de moda e política num texto abrasivo e inconsequente, Riley desmonta ideais brancos de Hollywood e convida um sem número de artistas capazes de elucidar a verdade através da sátira. São nomes como Kara Young, Adam Devine, Robin Thede, Jason Ritter, Viggo Mortensen, Eiza González, Jermaine Fowler, Poppy Liu, Eric André e Kate Berlant, muitos dos quais já se envolveram em projetos tão transgressores quanto este.

Sem falar na equipe técnica, responsável pelos elementos visuais, físicos e sonoros que transformam I Love Boosters numa viagem intergaláctica pela luta de classes, pela ascensão das minorias e pela batalha pelo que é certo. A diretora de fotografia Natasha Braier aposta nas cores intensas criadas principalmente pelos figurinos e pela direção de arte, no lugar de recorrer à iluminação colorida, mantendo a luz ancorada no ambiente mesmo ao explorar uma estética expressionista. 

Don Cheadle levou cerca de 20 anos para finalmente trabalhar com Boots Riley e pediu para ficar irreconhecível no papel de um coach de vida corpulento que talvez também comande um esquema de pirâmide (Foto: Universal)

Já a figurinista Shirley Kurata desenvolveu guarda-roupas distintos para a vida cotidiana e as operações disfarçadas das protagonistas, como se cada uma tivesse múltiplas personalidades, e cria peças para Corvette que parecem ter sido desenhadas pela própria personagem, reforçando sua identidade como estilista, e não apenas como alguém que rouba as criações alheias. O cuidado visual se estende à Metro Designer, marca fictícia cujas lojas exibem roupas de uma única cor por vez, exigindo que cada roupa acompanhe a paleta monocromática do espaço. 

Enquanto isso, o diretor Boots Riley parte de uma crítica à indústria da moda, que se apropria de tendências criadas em comunidades negras e racializadas para revendê-las a preços inacessíveis às próprias pessoas que as originaram – uma dinâmica que ele já denunciava em The Coup, projeto que data de 2006. A trilha sonora do grupo Tune-Yards também rompe com expectativas ao recorrer a instrumentos pouco convencionais, como berimbau de boca e acordeão, para deixar claro desde o início que o público não está vendo o filme que imaginava.

Poppy Liu desenvolveu um sotaque regional específico para interpretar Jianhu, inspirado no dialeto de seus primos, e Boots Riley levou a busca por autenticidade tão a sério que a produção mudou até o nome da cidade retratada no filme para corresponder à pronúncia da atriz (Foto: Universal)

Boots Riley aposta numa estética deliberadamente imperfeita, guiada pela ideia de algo janky, sem efeitos visuais excessivamente polidos e com preferência por soluções práticas e tangíveis. Para a sequência animada que surge no filme, o diretor recorre à inspiração do stop-motion clássico de Ray Harryhausen, lendário animador de Fúria de Titãs (1981). Já a estratégia de câmera privilegia planos extremamente fechados no rosto de Keke Palmer, usando as expressões da atriz como principal instrumento emocional, e não dependendo de atuações projetadas para o exterior. Parte da Apresentação Especial da 50ª Mostra de São Paulo, o filme é a produção mais cara da NEON até hoje, com orçamento estimado em cerca de US$20 milhões. Dinheiro muitíssimo bem investido!

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