Colorido, extravagante e pessoal: esse é o Cinema e a Arte de Boots Riley, realizador norte-americano que chega à 50ª Mostra de São Paulo como parte do júri e convidado especial. Para os fãs de seus cultuados projetos anteriores (Sorry to Bother You e Sou de Virgem), a estreia de I Love Boosters evidencia uma carreira que rejeita o padrão e inova em gênero, número e grau.
Com roteiro e direção de Riley, o filme acompanha um grupo de assaltantes (ou boosters) da moda. Corvette (Keke Palmer), que viu o sonho de assinar coleções de alta-costura ir por água abaixo depois de uma negativa do concurso de elite, se junta a Mariah (Taylour Paige) e Sade (Naomi Ackie) numa cruzada social com requintes de justiça. O alvo é apenas um, o império de Christie Smith (Demi Moore).

Entre saídas visuais práticas e o tipo de criatividade que colocaria medo em qualquer executivo de estúdio apavorado frente a ideias estranhas demais, I Love Boosters é um deleite desvairado, passeando entre o absurdo, o colérico, o amável e o político, tudo enquanto bombardeia a tela com estampas, luzes e efeitos que descolam a retina da íris e dão lugar a uma imensidão de alma.
Os coadjuvantes são caricatos, e ganham do elenco momentos preciosos de humor e drama. LaKeith Stanfield interpreta um taciturno galã às avessas, capaz de sugar a alma de alguém pelo simples ato dos lábios em contato com mucosas. Já Will Poulter dá vida e fôlego a um funcionário da grife de Moore, disposto a percorrer uma maratona e meia para agradar a mentalidade da chefe. Don Cheadle, por outro lado, vive um charlatão irreconhecível – pedido atendido pelo diretor quando contatou o ator para o trabalho.

Falando de moda e política num texto abrasivo e inconsequente, Riley desmonta ideais brancos de Hollywood e convida um sem número de artistas capazes de elucidar a verdade através da sátira. São nomes como Kara Young, Adam Devine, Robin Thede, Jason Ritter, Viggo Mortensen, Eiza González, Jermaine Fowler, Poppy Liu, Eric André e Kate Berlant, muitos dos quais já se envolveram em projetos tão transgressores quanto este.
Sem falar na equipe técnica, responsável pelos elementos visuais, físicos e sonoros que transformam I Love Boosters numa viagem intergaláctica pela luta de classes, pela ascensão das minorias e pela batalha pelo que é certo. A diretora de fotografia Natasha Braier aposta nas cores intensas criadas principalmente pelos figurinos e pela direção de arte, no lugar de recorrer à iluminação colorida, mantendo a luz ancorada no ambiente mesmo ao explorar uma estética expressionista.

Já a figurinista Shirley Kurata desenvolveu guarda-roupas distintos para a vida cotidiana e as operações disfarçadas das protagonistas, como se cada uma tivesse múltiplas personalidades, e cria peças para Corvette que parecem ter sido desenhadas pela própria personagem, reforçando sua identidade como estilista, e não apenas como alguém que rouba as criações alheias. O cuidado visual se estende à Metro Designer, marca fictícia cujas lojas exibem roupas de uma única cor por vez, exigindo que cada roupa acompanhe a paleta monocromática do espaço.
Enquanto isso, o diretor Boots Riley parte de uma crítica à indústria da moda, que se apropria de tendências criadas em comunidades negras e racializadas para revendê-las a preços inacessíveis às próprias pessoas que as originaram – uma dinâmica que ele já denunciava em The Coup, projeto que data de 2006. A trilha sonora do grupo Tune-Yards também rompe com expectativas ao recorrer a instrumentos pouco convencionais, como berimbau de boca e acordeão, para deixar claro desde o início que o público não está vendo o filme que imaginava.

Boots Riley aposta numa estética deliberadamente imperfeita, guiada pela ideia de algo janky, sem efeitos visuais excessivamente polidos e com preferência por soluções práticas e tangíveis. Para a sequência animada que surge no filme, o diretor recorre à inspiração do stop-motion clássico de Ray Harryhausen, lendário animador de Fúria de Titãs (1981). Já a estratégia de câmera privilegia planos extremamente fechados no rosto de Keke Palmer, usando as expressões da atriz como principal instrumento emocional, e não dependendo de atuações projetadas para o exterior. Parte da Apresentação Especial da 50ª Mostra de São Paulo, o filme é a produção mais cara da NEON até hoje, com orçamento estimado em cerca de US$20 milhões. Dinheiro muitíssimo bem investido!


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