Bia Soull faz do desejo um manifesto em Pornografia Auditiva

Em sua estreia, a funkeira paranaense ri do moralismo, fala de sexo sem pedir licença e mostra que putaria também é linguagem

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Em sua estreia, a funkeira paranaense ri do moralismo, fala de sexo sem pedir licença e mostra que putaria também é linguagem

Existe uma tradição no funk brasileiro que sempre incomodou mais do que qualquer grave estourando no paredão. É a de mulheres falando abertamente sobre o próprio prazer. De Tati Quebra Barraco a Deize Tigrona, passando por MC Carol, a história do gênero também é a história de mulheres que entenderam cedo que dizer “eu quero” em voz alta é um ato político. 

Pornografia Auditiva, álbum de estreia de Bia Soull, chega como herdeiro legítimo dessa linhagem. Mas não se engane, porque aqui não há reverência de museu. Há deboche, há tesão e há uma artista jovem que parece se divertir muito enquanto desmonta, faixa por faixa, o pudor de quem ainda torce o nariz.

Natural do interior do Paraná, Bia começou a carreira aos 22 anos e, em menos de um ano, já tinha viralizado com Pompoarismo, ao lado de Mu540, e com ABC da Putaria, parceria com NandaTsunami, LAI$ROSA, CAE e Yuri Redicopa. A velocidade assusta, mas faz todo o sentido. Bia tem uma qualidade rara, que é a de ser engraçada sem nunca virar piada. O humor dela não serve para amaciar o assunto, e sim para afiá-lo.

Pornografia Auditiva entrou na lista dos 50 melhores álbuns brasileiros do primeiro semestre de 2026 da Billboard Brasil (Foto: Divulgação)

O próprio título já é uma provocação calculada com precisão. Pornografia, essa palavra que a gente costuma sussurrar, vira aqui uma forma de escuta. É como se Bia nos dissesse que o problema nunca foi o sexo, mas o ouvido de quem ouve. Ao longo de 13 faixas, o funk é o eixo central, mas o disco passeia por outras vertentes da música urbana, e Bia se movimenta entre elas com uma versatilidade vocal que, sinceramente, me pegou de surpresa. 

Ela canta, rima, debocha e seduz, às vezes na mesma faixa, e não parece fazer esforço em nenhuma dessas versões de si mesma. Basta olhar para um repertório que vai de boombap puto, que já no nome anuncia o flerte com o rap, a Coração Puro, uma piscadela para quem acha que putaria e afeto não cabem no mesmo disco.

O coração conceitual do disco, para mim, está em Putinho Piru Rodado, parceria com NandaTsunami e produção de DJ CARLOZS. A música nasceu de uma conversa entre amigas, e é exatamente isso que ela soa. Duas mulheres no divã, rindo dos caras que não prestam, trocando figurinhas sobre o que deu errado e o que deu muito certo. O clipe, dirigido por Bruna Sotti, leva essa ideia ainda mais longe. Entre cenários e figurinos que reciclam os anos 2000 com acabamento polido, as duas atravessam o tempo e diferentes relacionamentos, mas o ciclo com os homens se repete. Ele só se quebra quando elas percebem que o apoio estava uma na outra.

Em Pompoarismo, o hit que apresentou Bia ao Brasil ao lado de Mu540, o humor é a porta de entrada, mas o que fica é a autonomia. A mulher ali não é objeto do prazer de ninguém. É ela quem domina a técnica, o ritmo e o controle da situação. Melaço e Preliminares seguem a mesma linha, transformando o que costuma ser dito aos sussurros em refrão para cantar alto. E o mais curioso é que, em nenhuma delas, Bia soa vulgar no sentido que o moralismo gostaria. Ela soa à vontade. E é justamente essa naturalidade que incomoda tanto.

Malandro Touchscreen chega como favorita, e pelo visto não estou sozinho nesse pensamento, já que ela está entre as faixas mais buscadas da artista nos sites de letras. O título, por si só, já é uma das sacadas mais geniais do ano. O malandro clássico do samba e do funk, aquele da lábia e da ginga, foi atualizado para a era do aplicativo e agora joga o seu charme pela tela do celular. 

Bia pega esse personagem que toda mulher já conheceu e o desmonta com uma ironia afiadíssima, sem rancor e sem drama, só com a confiança de quem já entendeu o jogo inteiro. É crônica de costumes em forma de funk, daquelas que a gente escuta rindo e termina pensando. Impecável.

Bia Soull apresentou o show de lançamento de Pornografia Auditiva na Casa Natura Musical, em São Paulo, no dia 30 de julho (Foto: Divulgação/@tonyalvves)

Seria ingenuidade ouvir tudo isso sem lembrar do contexto. O funk passou décadas sendo tratado como caso de polícia, e em 2017 chegou a ser alvo de uma sugestão legislativa que pedia sua criminalização no Senado. Quando quem canta é mulher e o assunto é o próprio corpo, o incômodo dobra. Num país em que o corpo feminino segue sendo alvo preferencial do discurso conservador, um álbum que questiona o moralismo e reafirma o direito de falar de desejo sem culpa não é só entretenimento. É posicionamento.

Isso não quer dizer que o disco seja perfeito. Por reunir muitos produtores e participações, Pornografia Auditiva às vezes soa mais como uma coleção de singles fortes do que como uma obra amarrada do começo ao fim. Em alguns momentos, a repetição que funciona tão bem na pista cansa um pouco na escuta corrida. E há o risco, que não é culpa dela, de o humor ser lido apenas como meme por quem não quer enxergar a crítica que está por trás dele.

Talvez o maior problema esteja fora do disco. A crítica especializada ainda trata o funk feito por mulheres como nota de rodapé, e um álbum com esta qualidade passou quase sem resenhas na grande imprensa. A lista da Billboard Brasil é um começo. Mas é pouco para uma artista que, em um único disco, consegue ser engraçada, política, safada e afetuosa ao mesmo tempo.

Bruna Sotti assina a direção do clipe de Putinho Piru Rodado e também criou a capa de Pornografia Auditiva (Foto: Divulgação)

E eu me incluo nessa conta. Pornografia Auditiva foi lançado em abril, e eu só fui descobri-lo agora, seis meses depois. Confesso que isso me deixa um pouco triste. Não pela demora em si, mas pelo que ela revela. Se um jornalista que gosta de ouvir e escrever sobre música deixou passar um disco desses por tanto tempo, imagine quantas pessoas ainda não chegaram até ele. Os algoritmos e as grandes vitrines seguem empurrando sempre os mesmos nomes, enquanto artistas como Bia precisam furar a bolha na base do boca a boca e do viral. Fica aqui, então, o meu mea-culpa e o meu convite. Não cometam o mesmo erro que eu.

No fim, Pornografia Auditiva cumpre exatamente o que o título promete, só que de um jeito mais inteligente do que qualquer um esperaria. Ele não quer chocar por chocar. Quer que a gente perceba que o choque sempre esteve no ouvido de quem escuta. Bia Soull chegou falando alto, rindo alto e gozando alto. 

Esse é, sem dúvida, muito mais do que um disco sobre sexo. É um disco sobre amizade entre mulheres, sobre a liberdade de curtir o momento sem ficar refém de como um homem vai te amar ou deixar de amar. Bia fala disso nas entrevistas com uma leveza que esconde uma ideia poderosa. O prazer, para ela, não é moeda de troca. É dela.

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