Emergência Radioativa extrapola a percepção didática da ficção

Em cinco episódios de grande ânsia dramática, produção da Netflix é caprichada e precisa

min de leitura

O caso do Césio-137 em Goiânia foi uma catástrofe sem precedentes na história brasileira. Cronologicamente próximo à explosão da usina de Chernobyl, o momento nacional não poderia ser mais distinto em impacto e reverberações políticas e sociais. Emergência Radioativa, minissérie da Netflix, dramatiza os eventos.

Criada por Gustavo Lipsztein, a produção conta, ao longo de cinco capítulos, o início da tragédia e seu desdobramento na cidade. Através de um protagonista fictício, o físico Márcio (Johnny Massaro), a audiência entra de cabeça na rotina do interior, quando dois catadores de papelão acabam encontrando um reservatório abandonado da substância mortal.

De passagem para comemorar o aniversário do pai ao lado da noiva Bianca, papel de Júlia Portes, o físico Márcio é sugado para o acidente radioativo (Foto: Netflix)

A direção geral de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho foca em detalhes dos objetos que, sem alarde, foram poluídos e contaminados com o pó brilhante que parecia do espaço sideral, mas guardou sequelas irreversíveis na população, em sua maioria formada por pessoas negras. Emergência Radioativa concentra o núcleo dramático na história das vítimas.

Em interpretações carregadas de autenticidade e vulnerabilidade, o elenco passa por situações de extremo desconforto, na réplica das cicatrizes, feridas e do efeito da radiação no organismo. O roteiro ilumina a perseverança e o medo, na mesma moeda em que destaca a falta de preparo do governo e a negligência social para com os mais afetados pelo pó.

Na pele das vítimas, vislumbramos o trabalho fenomenal de Bukassa Kabengele, Ana Costa, Alan Rocha, Marina Merlino, William Costa, Victor Salomão, Vini Ranieri, Enzo Ignácio e a pequena Mari Lauredo (Foto: Netflix)

No lado da burocracia, Emergência Radioativa delimita os bonzinhos dos malvados, colocando em Márcio e nos especialistas vividos por Paulo Gorgulho, Clarissa Kiste, Antonio Saboia, Luiz Bertazzo e Leandra Leal, a tarefa de elucidar a mídia e o governador, papel de Tuca Andrada, um cabeça-dura que enxerga o mundo em cifrões e gráficos de aprovação.

Com tom didático e quase professoral, Emergência Radioativa se empanturra de comparações, analogias e exemplos vagos, tudo para traduzir com precisão o tamanho da catástrofe e os perigos liberados na cidade depois de um descuido burocrático. Para todo o capricho da recriação da década de 80, com atenção aos mínimos detalhes em cenários retirados dos livros de História, a produção contou com um par de reclamações.

À exemplo de Máscaras de Oxigênio, produção recente com lançamento semanal e temas históricos e sociais do país, a minissérie não construiu um boca a boca orgânico, muito provavelmente ao modelo de lançamento da plataforma (Foto: Netflix)

Filmada no estado de São Paulo, Emergência Radioativa não procurou alimentar a economia criativa goiana em sua produção, também se abstendo de comunicar-se com pessoas que viveram a tragédia tantos anos atrás. Em 1990, um filme sobre o caso foi filmado nos locais reais, que agora passaram pelo processo de mudanças arquitetônicas. 

Fato é que, tamanho cuidado em pesquisa se revela mais benéfico do que o contrário. Emergência Radioativa maximiza o mínimo dos detalhes, deixando que as vidas afetadas, e perdidas, pelo isótopo de Chernobyl falem mais alto do que qualquer discurso, analogia ou relação entre causa e efeito. É caprichado e higienizado, não à toa fez sucesso nos rankings semanais e geográficos da plataforma de streaming pelo mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *