Ator Samuel de Assis reflete sobre racismo, identidade e pertencimento em monólogo inspirado em suas próprias vivências
O coração é um espaço onde cabem diferentes emoções, e o do ator Samuel de Assis já estava saturado de sofrer injúrias e discriminação. Com sentimentos entalados na garganta, ele transformou essa dor em cena no monólogo E vocês, quem são?.
Com atuação e direção do próprio Samuel, o espetáculo, escrito por Jonathan Raymundo, nasceu de um desabafo do ator. Ele mesmo adaptou o texto para os palcos, temendo que o resultado não correspondesse às suas expectativas caso confiasse essa função a outra pessoa.
A ideia de incluir um coração no cenário partiu de Márcio Macena, responsável pela direção de arte minimalista, que soube traduzir a necessidade de Samuel de expressar tudo o que estava guardado em seu peito. O órgão humano permanece no centro do palco, iluminado por luzes que o fazem parecer pulsar a cada ritmo da fala, intensificando a expressão da angústia, raiva, descontentamento e, por vezes, alívio do ator.

De coração aberto, Assis questiona gênero, raça e o lugar ocupado pela branquitude desde a invenção do Brasil como Estado excludente e opressor, abordando temas como o embranquecimento do escritor Machado de Assis e a violência a qual a população negra está submetida todos os dias.
A peça traça um retrato da história do país, evidenciando como as marcas do racismo do período colonial ainda persistem na sociedade. A trilha sonora, executada ao vivo pelos músicos Cauê Silva e Leandro Vieira, enriquece a ambientação de diferentes cenários e destaca a obra de artistas negros, incluindo uma canção original do rapper Coruja BC1 e outra de Larissa Luz, que também assina a direção musical ao lado do coletivo Os Capoeira.
Entrelaçando elementos da cultura negra e simbolismos das religiões de matriz africana, E vocês, quem são? retrata o Brasil de ontem, de hoje e, provavelmente, de amanhã, provocando arrepios no encerramento e emocionando o público com sua reflexão agressiva.



Em conversa com o Tesoura com Ponta, Samuel de Assis compartilha detalhes sobre o monólogo, atualmente em cartaz no interior de São Paulo, além de falar sobre sua trajetória, os desafios da carreira e suas paixões, como o samba.
Matheus Santos: O teatro exige um contato direto com o público, enquanto a TV e o streaming têm uma recepção mais filtrada. Como essas diferenças impactam sua atuação?
Samuel de Assis: Não faz muita diferença. Meu trabalho de atuação é muito pautado na tentativa de trazer uma verdade para o que está sendo sentido e dito. A única diferença fica por conta do tamanho da expressividade.
Matheus Santos: O Ben, de Vai na Fé, foi um papel de grande destaque na sua carreira. Como foi interpretar um protagonista tão querido pelo público?
Samuel de Assis: O Ben mudou minha vida e ajudou a mudar a história da televisão brasileira. Não posso sentir um orgulho maior no mundo.

Matheus Santos: A novela trouxe uma abordagem sensível sobre representatividade e questões sociais. Como foi a experiência de fazer parte desse projeto?
Samuel de Assis: Não tem orgulho maior do que estar num produto onde 70% do elenco é negro e sem fazer papéis marginalizados. Onde a equipe tem uma parcela gigante de pessoas pretas e o reflexo disso tudo foi o sucesso absoluto de crítica e audiência. Como me sinto com isso? Não tenho nem palavra que defina!
Matheus Santos: Você sente que Vai na Fé marcou uma nova fase na sua carreira? Recebeu convites diferentes após esse trabalho?
Samuel de Assis: Claro que sim! É um antes e depois na vida de um monte de gente.
Matheus Santos: Você já atuou em séries como 3%, Cidade Invisível e Rensga Hits!. O que mais te atrai nas produções para streaming?
Samuel de Assis: Eu amo obra fechada. Poder construir uma personagem com começo, meio e fim, desde sempre, é um luxo!
Matheus Santos: Como a dinâmica de gravação em plataformas digitais se compara à TV aberta? Existe mais liberdade criativa?
Samuel de Assis: A liberdade criativa não muda muito. Ela só é dosada de forma diferente. Mas ambas são legais, cada uma a seu modo.
Matheus Santos: Recentemente, você também tem se dedicado ao Cinema. Existe algum projeto cinematográfico em andamento?
Samuel de Assis: Sim. Vou rodar um longa sobre adoção. Projeto lindo de uma amiga minha.

Matheus Santos: Como você trabalha a construção emocional dos seus personagens para que eles soem autênticos ao público?
Samuel de Assis: Não sei explicar muito bem isso, mas procuro viver realmente o que aquela pessoa vive. Isso me dá segurança para sentir o que ela sentiria.
Matheus Santos: Depois de tantos projetos de sucesso, há algum papel ou gênero que você ainda sonha em interpretar?
Samuel de Assis: Ainda quero viver um bom vilão de novela!
Matheus Santos: Como surgiu sua conexão com o samba e com a Beija-Flor?
Samuel de Assis: Com o samba, desde que nasci. Com a Beija-Flor, desde criança, quando dizia ao meu pai que ia dormir e fugia para ver o desfile das escolas. Sempre fui Beija-Flor e senti que foi um presente de Orixá o convite para protagonizar o enredo de 2024.
Matheus Santos: Como nasceu a ideia de criar E vocês, quem são?? O que te motivou a levar essa história ao palco?
Samuel de Assis: Eu pedi um texto ao Jonathan [dramaturgo] e ele me mandou a primeira versão em três horas. Acho que tudo já estava na cabeça dele e ele derramou o texto na tela. Então, peguei o texto proseado dele e fiz um trabalho de dramaturgismo para criar uma história. Como eu não sabia se isso ia dar certo, fiquei receoso de chamar alguém para dirigir, por isso todo o processo de ensaio fiz em frente ao espelho.
Eu pedi um texto ao Jonathan [dramaturgo] e ele me mandou a primeira versão em três horas. Acho que tudo já estava na cabeça dele e ele derramou o texto na tela. Então, peguei o texto proseado dele e fiz um trabalho de dramaturgismo para criar uma história. Como eu não sabia se isso ia dar certo, fiquei receoso de chamar alguém para dirigir, por isso todo o processo de ensaio fiz em frente ao espelho.
Matheus Santos: O monólogo tem um forte teor político e social. Como foi o processo de pesquisa para desenvolver o texto?
Samuel de Assis: A minha própria vida, uai! A vida de todos os pretos e pretas que nascem no Brasil. O espetáculo fala exatamente sobre tudo que vivemos, o que sofremos e sentimos o tempo todo.
Matheus Santos: Quais foram os maiores desafios de encenar um monólogo sem a troca direta com outros atores em cena e de dirigir a própria peça?
Samuel de Assis: Meus outros atores são as pessoas da plateia. Eu contraceno diretamente com eles. Ou seja, é o mesmo desafio de uma peça com mais gente. Eu fiz a peça na pandemia, então fui obrigado a dirigir a peça. Fiz toda a encenação na frente do espelho. Foi um processo doloroso e incrível ao mesmo tempo.
Meus outros atores são as pessoas da plateia. Eu contraceno diretamente com eles. Ou seja, é o mesmo desafio de uma peça com mais gente. Eu fiz a peça na pandemia, então fui obrigado a dirigir a peça. Fiz toda a encenação na frente do espelho. Foi um processo doloroso e incrível ao mesmo tempo.
Matheus Santos: Você enxerga a possibilidade de adaptar o monólogo para outro formato, como audiovisual ou livro?
Samuel de Assis: Não quero pensar nisso agora!
Matheus Santos: Como a peça transformou você como artista e como pessoa?
Samuel de Assis: Costumo dizer que esse espetáculo mudou minha vida, porque ele me ensinou muita coisa. Sou um homem preto que foi criado no mundo branco. Eu me reconheci, me aceitei e passei a reconhecer o mundo com um olhar de um homem preto já na vida adulta. Só aí comecei a entender de verdade o mundo real e comecei a lutar. E eu acredito que sou um homem melhor e mais forte depois desse espetáculo, que é feito para todo mundo – para quem é branco, preto, amarelo, quem está vivo.
Matheus Santos: Além das obras de Machado de Assis presentes no monólogo, há algum filme, livro ou peça que mudou sua forma de enxergar o mundo e influenciou sua trajetória?
Samuel de Assis: Vários! Mas cada um por um motivo diferente. Tem aqueles que indico como aulas de atuação; os que indico como ajuda no letramento racial, os que indico como entretenimento – que também mudam vidas -, etc. Se eu fizer uma lista, não caberá aqui.
Matheus Santos: Qual foi o personagem mais desafiador que você já interpretou e por quê?
Samuel de Assis: O Lucas, da Série INSÂNIA da Star+, porque ele era esquizofrênico e fizemos uma proposta de fazer três takes de cada cena e deixar o montador criar a personagem. Minha cabeça bugou várias vezes, porque chegou uma hora que eu já não sabia mais o que estava fazendo.

Matheus Santos: Se pudesse reviver um personagem que já fez, com a experiência que tem hoje, qual seria e por quê?
Samuel de Assis: Otelo. Porque sempre quis fazer e fiz muito cedo. Acho que com a maturidade que tenho hoje, faria melhor ainda (sem modéstia).
Matheus Santos: Se pudesse interpretar uma figura histórica em uma produção, quem escolheria?
Samuel de Assis: Machado de Assis. Meu sonho é fazê-lo em um longa.
Matheus Santos: Qual a maior lição que a atuação já te ensinou sobre a vida?
Samuel de Assis: Várias coisas! Que as coisas tem o tempo delas; Que nem sempre o que a gente está fazendo tá transmitindo o que a gente quer transmitir. Que a vida pode e deve ser mais leve. A arte me ensina todos os dias a viver melhor!
Várias coisas! Que as coisas tem o tempo delas; Que nem sempre o que a gente está fazendo tá transmitindo o que a gente quer transmitir. Que a vida pode e deve ser mais leve. A arte me ensina todos os dias a viver melhor!
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