Se a imagem quadrada, o vento folclórico e a fotografia em preto e branco não deram conta de explicitar a linguagem de Rose, a narração de Marisa Growaldt arremata a fábula que cerca a figura de uma mulher que, travestida de homem, toma posse de terra, esposa e ganha a confiança de uma comunidade no século XVII.
Essa mulher é vivida por Sandra Hüller, a musa moderna do Cinema alemão que acumula atuações elogiadas e prêmios como se não fosse trabalho algum. Por Rose, venceu Berlim vinte anos depois de seu triunfo original no Festival, consagrando seu nome na História da arte europeia. E não é por menos.

2026 reúne quatro trabalhos em produções de fôlego (além de Rose, Hüller estrela A Terra do Meu Pai, Digger e Devoradores de Estrelas) da artista, que não costuma se repetir tampouco aborrecer a audiência. Especialmente a ocidental, que conheceu-a pela entrega maciça em Anatomia de uma Queda, a Palma de Ouro que chegou ao Oscar, e em Zona de Interesse, onde vivia uma personagem dimensionalmente oposta.
Quando falamos de Rose, Hüller minimiza sua energia para construir um personagem misterioso e cheio de rituais: a cicatriz que desfigurou a bochecha na Guerra dos Trinta Anos é acompanhada pelo penduricalho dos restos da bala, chupada em momentos de tensão ou ócio. O chapéu esconde a extensão dos cabelos, o olhar baixo esconde qualquer sinal de desvirtude, mas é a inveja o principal motor de destruição de sua narrativa.

Dirigido por Markus Schleinzer com roteiro coescrito por Alexander Brom, o drama austríaco sussurra suas intenções como uma profecia aos ventos, de modo latente e letal, num misto de horror folclórico com aventura de amadurecimento. Ao lado da recém-empossada e totalmente ingênua esposa Suzanna (Caro Braun), Rose compartilha temor e depois alívio.
Na chuva, entre a lama que aterra carroças e engole o solo, o casal entende quais os desvios mais fortuitos para a liberdade feminina. Nas entrelinhas, o filme dedica-se aos arcaicos papéis de gênero e versa sobre identidade, reconhecimento e felicidade, dando cabo de todos os sentimentos alegres quando Rose é descoberta e executada.
Com ares de lendas dignas de Salem e da cruzada de Joana D’arc, a direção de fotografia (departamento de Gerald Kerkletz), aliada aos trabalhos de trilha sonora (Tara Nome Doyle), montagem (Hansjörg Weißbrich), design de produção (Olivier Meidinger) e figurinos (Doris Bartelt), Rose encapsula o horror de ser diferente – e todas as consequências quando o mundo ao redor é treinado para exterminar qualquer sinal de distinção.


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