Patinho feio do mundinho Drag Race, a franquia dedicada à Oceania surpreendeu ao ser eleita como próxima anfitriã do vs The World, derivado que reúne rainhas de todas as partes do planeta em busca do título e do cheque. Sob o comando de Michelle Visage e o amparo da atual campeã Lazy Susan, a primeira temporada terminou sua exibição com um elenco diverso, equilibrado e uma experiência para lá de proveitosa.
Mas o sentimento não começou assim: foi com choque que Raven apareceu no material promocional, como competidora, ao lado de outras dez drags. Vice-campeã duas vezes, a atual maquiadora de RuPaul tirou férias do calendário de trabalho e decidiu competir numa das únicas versões sem a presença da dona do império. Não é a primeira vez que Raven surge no Werk Room, embora desta vez a queen costurou e se apresentou na passarela.

No início do segundo capítulo, Michelle revelou Raven como sua “espiã”, uma manobra que enfraqueceu a visão da produção, usada como isca e nada mais. Jurada convidada no desafio que eliminou sua sister de tantos anos Nicole Paige Brooks como Porkchop, a queridinha de Ru fez desta passagem curta uma divertida brincadeira com fãs. Sorte dela que tal armadilha surgiu tão no início da temporada, que logo foi esquecida e até perdoada.
Look Who’s Back In The House!, a estreia, trouxe um design challenge sem eliminações, com o Top 2 da passarela DIY Divas composto por uma dupla de formidáveis rainhas internacionais: do UK 5, Michael Marouli, e do Philippines 2, M1ss Jade So. Elas duelaram ao som de Melodrama, da convidada BECKS, e abriram os trabalhos de uma season que colocou em jogo não apenas o carisma, talento, originalidade e nerve de suas competidoras, mas também o elemento que faz de cada uma a representante ideal de seu país, franquia e cultura.

A revelação de Raven acontece logo no começo de Better The Diva You Know, o episódio que decidiu homenagear Kylie Minogue mas foi pelo caminho oposto, com canções tão paupérrimas que seria melhor se a diva australiana passasse longe de tal desafio. Com What Do I Have to Do, a dupla de anfitriãs Art Simone e Flor dublam e sacramentam a primeira eliminação da season, NPBFAG, preterida ao lado de Coco Jumbo.
Embora silenciosa, a aliança entre queens do Down Under movimentou a estratégia da temporada – e, diferente do que acontece do outro lado do mundo, as escolhas com base em amizade e companheirismo caem bem aqui, formando uma competição que pode resultar em choque, alívio e contentamento. O clima de sorriso não dura muito: em Whose Wig Is It Anyway?, Flor escorrega para o Bottom mas é salva por Art, que elimina Nikita Iman, uma das duas representantes da quarta temporada.

Apesar de permanecer na competição por três semanas, Nikita foi a queen mais apagada e deslocada do núcleo sentimental e dramático deste vs The World. Nomes como a espanhola Estrella Xtravaganza e Coco Jumbo, além de NBP, ganharam arcos com começo, meio e fim. Com seu jeito carinhoso e seus looks para lá de especiais, Estrella saiu em prantos, lamentando a distância entre seu país e o de suas agora irmãs, ressaltando um ponto de importância destas versões internacionais de Drag Race e os laços criados para além de barreiras de linguagem.
O Snatch Game marcou o único badge vencido por Vybe, vice-campeã da season 4, e uma das drags mais versáteis e preparadas para o programa. Nesta temporada, porém, a força de Jade e Michael, aliada ao momentum invejável de Art, colocou Vybe no banco de trás – justificando sua eliminação no Top 4, depois de somar alguns Bottoms injustos e não conseguir outra vitória.

Sua amizade de décadas com Coco guiou sua história e, ao passo que Jumbo foi eliminada no Rappin’ Roast, não houve lugar para crescer ou acomodar sua jornada na season. Coco brilhou com seu sorriso inigualável e sua história de vida, abrindo o coração sobre problemas de saúde, a morte de sua mãe e o peso que ganhou nos anos entre a estreia da franquia e o momento atual.
Sem medo de inovar ou inventar moda, surgiu o Franken-Drag, desafio de costura que as queens precisavam trocar de look com alguém e construir algo novo a partir de três peças. Blu Hydrangea foi convidada no painel que elegeu Art e M1ss Jade So como Top 2 – e na dublagem alucinógena de 1999, de Charli xcx e Troye Sivan, culminando na eliminação de Estrella.

A polêmica passarela do Diamonds Are A Queen’s Best Friend, que resultou na apresentação de Jade contando que sim, diamantes dourados existem!, foi par de vaso com o melhor desafio da temporada, o Rappin’ Roast, único win de LaLa Ri na temporada. Veterana em sua terceira participação no programa, a americana saiu da aposentadoria e viajou meio mundo para brilhar com carisma (embora não sempre com os looks). Ao lado de Michael, visceral nos reads, LaLa devorou o Lip Sync de Devil Made Me Do It, canção original de Mama Ru, sacramentando o destino da boazinha demais Coco.
Para o challenge de atuação, Lawrence Chaney foi convocada com seu sotaque e suas críticas precisas. Em House Of Whores – A Trilogy Of Terror, as queens se dividiram em dupla e depois desfilaram no tema de Shock and Awe, numa homenagem perfeita para o gênero e com paródias de Evil Dead, X-Files e Alô, Dolly!. Michael e Jade dublaram UK Hun?, a música escrita por Lawrence, A’Whora, Bimini e Tayce no UK 2, e se divertiram à beça no palco. No fim, Marouli eliminou Flor, que saiu tão baqueada que nem frase de despedida teve a capacidade de articular.

Michelle Visage mudou as regras também no Beach Buddies Makeover, quando definiu que o foco não era semelhança familiar, e sim amigas se divertindo. O Top 5 transformou em drag queen cinco homens australianos, culminando em outra vitória de Michael e Art (com o Lip Sync de Who Do You Think You Are, das Spice Girls), e a eliminação de LaLa.
Chegando à Grande Final, sob o título de She’s Crowning, a temporada encerrou com propriedade as narrativas de Vybe e Jade. A filipina mostrou-se hábil e fluente na arte drag, independente do tablado em que compita. Sua persona esotérica, intergaláctica e livre de rótulos aumentou o calibre de seu amor na base de fãs, e, considerando o traumático evento que ocorreu antes da estreia do Down Under, é lindo ver uma artista trans tão celebrada e adorada por sua comunidade.

Michael, depois de dominar todos os desafios e não fraquejar perante tarefa nenhuma, usou da dublagem de Adrenaline como catapulta a sua merecida Coroa. Art Simone, testada desde os tempos de fracasso na season 1 da série e agora de volta ao status de ícone da cena australiana, terminou sua passagem com um agridoce, embora suado e conquistado, segundo lugar. Para quem esperava a queen nativa sair correndo com o prêmio, como se provou verdade em quase todos os vs The World, Michelle Visage surpreendeu ao justificar sua escolha com base tanto em track record quanto em história.


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