Na segunda temporada de Adults, a comédia abraça a rotina e se torna sua melhor versão

À frente das maiores estreias de 2026, o segundo ano consolida a química do elenco e encontra ternura na confusão

min de leitura

Acompanhar o reconhecimento em tempo real de uma série tão boa traz o medo de tudo ir pelos ares, justamente pelo paradoxo de estar a frente de tantos olhos. Quando estreou, Adults (2025) parecia ser daquelas produções que vagam pelos cantos dos streamings e foram descontinuadas na primeira temporada, e isso não é demérito algum. Há tempos que cancelamentos não são sinônimo de falta de qualidade, na verdade, só não tiveram seu valor reconhecido — que vão muito além do dinheiro, como Crashing (2016), High Fidelity (2020) e The Society (2019), por exemplo.

Então, entramos em uma utopia. Estamos sonhando e voando perto demais do sol — e que seja bom enquanto dure. Adults está ganhando o mundo. Anton (Owen Thiele), Billie (Lucy Freyer), Issa (Amita Rao), Paul Baker (Jack Innanen) e Samir (Malik Elassal) entregaram uma segunda temporada ainda melhor que a primeira e conquistam cada vez mais espaço ao, pasmem, terem mais duas temporadas confirmadas. Além disso, a série recebeu destaque na Forbes com a maior pontuação combinada de crítica e público de 2026 no Rotten Tomatoes até agora, a frente de gigantes como as quintas e últimas temporadas de The Bear e Hacks, a 2ª temporada de The Pitt e a 1ª temporada de Widow’s Bay, todas de 2026.

Antes de ter seu nome oficial, a série se chamaria Snowflakes, ou “Flocos de Neve” (Foto: FX)

A maior crítica que a obra tem recebido é, na verdade, a escassez de episódios por temporada — e as comparações com Friends (1994). Desde seu lançamento, a recepção aponta que ela precisa de mais espaço para crescer, e é verdade. Não só pelo imenso sentimento de quero mais que ela desencadeia, mas também por desenvolverem melhor cada personagem e suas relações. Tanto as piadas ficam mais engraçadas quanto as cargas emocionais encontram seu espaço. Em resumo, precisamos de mais e sabem disso. 

Em entrevista ao The Wrap, os criadores Ben Kronengold e Rebecca Shaw comentaram sobre a possibilidade de expandir a contagem de episódios: “[…] Há tantas ideias que nos fizeram rir, coisas que surgiram no set — piadas, histórias de fundo, combinações de personagens, maneiras de eles ricochetearem uns nos outros. Tudo isso para dizer que temos muitas histórias em mente e estamos prontos para contá-las assim que alguém nos permitir. Escreveremos quantos episódios nos forem dados […]”.

Qual personagem de Adults você seria? (Foto: FX)

Começando a falar sobre os motivos que levam Adults a ser tão bom — depois de quatro parágrafos —,  ainda preciso abrir um parênteses: por mais que tente, é difícil dissociar minha conexão com a série sendo um adulto disfuncional de vinte e poucos anos e me reconhecer ora em um, ora em outro e as vezes em todos. E isso só expande o sentimento de que são nossos amigos e uma extensão das nossas versões ao longo da confusa década dos vinte que, para a geração alpha ou millenials, pode ser até qualquer coisa. 

Outro disclaimer, antes do lançamento oficial dessa 2ª temporada, tivemos um episódio separado de como o grupo conhece Paul Baker e se tornam os amigos que gostaríamos de ter. Essa prequela substitui o E01S01 e, por mais que faça sentido cronologicamente, sinto informar que o primeiro episódio original em que a Issa se masturba em um vagão em repúdio a um assediador que fazia o mesmo, sempre será mais icônico e divisor de quem escolhe continuar ou não com a série. Mas é entendível procurar mais público quando notam que muitos não continuam depois dessa cena. Bom, ao menos não editaram isso e ganhamos um episódio a mais.

Nessa segunda leva de episódios estamos mais dosados para acompanhar o dia a dia deles, uma vez que já tínhamos sido apresentados as personalidades nas situações mais exageradas possíveis. Pudemos gargalhar um pouco menos com absurdos —  como comer um frango cru com o Demolidor (Charlie Cox) sob doses cavalares de ketamina — e mais com as sátiras ao cotidiano, como tentar parecer descolado pra alguém mais jovem, não se adequar ao mundo corporativo ou até ter amigos héteros. E, por incrível que pareça, a risada é mais gostosa.

Depois das joias da primeira temporada em que Anton fez amizade com o esfaqueador do bairro, quando fracassam em dar um simples jantar e quando hospedam uma adolescente grávida para fazer um aborto, a segunda temporada também teve seus momentos de glória. Mais maduros, mais palpáveis — nem sempre — e até mais engraçados, dessa vez acompanhamos o deslumbrante dia em que Billie descobre da pior forma que 24 anos já não é mais tão jovem, quando eles têm 30 minutos para resolver tudo que puderem — um guaxinim — antes do LSD fazer efeito e quando descobrem a vida dupla cheia de testosterona de Paul Baker.

Adults se passa em Nova York, mas as gravações acontecem em Toronto, no Canadá (Foto: Teen Vogue)

Como não nos identificar com as novas gerações tomando o lugar de definir o que é realmente legal ou não? Ou até quando temos crises de identidade ao simplesmente agir diferente com determinadas pessoas e situações, e o total caos quando isso colide. Até pagar contas na verdade viram grande coisa, mas piores ainda quando não temos com quem desabafar. O sexto episódio, C Alert, é mais palpável, Anton fica totalmente desesperado por ter falado uma gíria em uma reunião corporativa enquanto Billie continua pulando de emprego em emprego, nunca com uma rotina ou segurança financeira. Isso equilibra tanto o tom da série que até momentos mais forçados perdem a força do incômodo, como a Issa gritando Cunt nessa mesma reunião.

Sobretudo, a série sustenta tramas interpessoais entre o próprio grupo que, se tivéssemos mais episódios, poderíamos ter emoções tão mais desenvolvidas, arcos paralelos tão maravilhosos, mais tempo pra digerir tantas situações aleatórias, como a Julia Fox que é amiga do Paul Baker, por exemplo. Mas não estamos aqui para lamentar o que não temos, até porque só queremos mais porque o que tivemos foi bom. O arco de Paul Baker e Anton —  e Issa — ou o arco Samir e Billie acabam não sendo tão conversados ou bem desenvolvidos, justamente por que temos que acompanhar essas palhaçadas do dia a dia. E isso não é uma reclamação, a vida mesmo é assim. Só poderíamos, e gostaríamos de ter um pouco mais de tempo. 

Destacando, por fim, que a série é excepcionalmente boa em equilibrar o humor e uma carga existencial de toda uma geração sem cair no niilismo. E isso, no mínimo, merece desde aplausos à estatuetas. Nos distraímos com as piadas e situações surpreendentemente bem pensadas, apesar da realidade estar acompanhando o absurdo da ficção. Ao mesmo tempo, nos sentimos acolhidos pela pela ternura de por suas relações. Por pior que a vida fique e por mais confusa e incerta que seja essa fase de vinte e poucos anos, eles têm uns aos outros e nos fazem lembrar das pessoas que temos por aqui também.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *