2ª temporada de Demolidor: Renascido é apática, anêmica e desinteressante 

Correndo em círculos, série da Marvel repete desperdício imperdoável do Homem sem Medo

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O desgaste é evidente e inevitável na segunda temporada de Demolidor: Renascido, a versão da Marvel de um personagem rico em temas e motivações. Os episódios inéditos continuam a mesma trama anterior, com o herói em batalha contra o Rei do Crime, que assume a prefeitura da cidade e manipula qualquer senso de livre arbítrio e justiça. 

Correndo atrás da própria cauda, a série criada por Dario Scardapane, Chris Ord e Matt Corman não empolga de jeito nenhum, praticamente enclausurando seus personagens, com potencial inexplorado, num labirinto de causa e consequência. Com coadjuvantes desinteressantes e um roteiro paupérrimo, não foi fácil a tarefa de manter a atenção à programação semanal.

A estreia com The Northern Star mostra um navio com contrabando sendo destruído e o prefeito culpando Demolidor pelas mortes (Foto: Disney+)

Matt Murdock (Charlie Cox), encurralado pelas investidas do inimigo super poderoso, deve atuar nas sombras, em conluio com o Mercenário (Wilson Bethel), e sob o olhar inquisidor de uma raivosa Karen Page (Deborah Ann Woll). Os planos são mirabolantes, e envolvem engrenagens múltiplas, tanto do lado aliado quanto do inimigo.

A jornalista BB (Genneya Walton) faz o jogo duplo que dobra a lábia de Daniel (Michael Gandolfini), uma criação tão transparente que diminui qualquer senso de veracidade e drama na história. Entre advogados, investigadores e as dezenas de funcionários de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), Demolidor: Renascido tem preguiça até de vestir, iluminar e filmar os peões de um jogo perdido na primeira rodada.

No elenco de Born Again temos Arty Froushan, Hamish Allan-Headley, Tony Dalton, Matthew Lillard e Lili Taylor em papéis que diminuem seus potenciais dramáticos (Foto: Disney+)

Nem o retorno de Jessica Jones (Krysten Ritter), feito da maneira menos inspirada e criativa possível, dá conta de engrenar a temporada. Pelo contrário, a inserção da heroína, sumida desde os tempos das séries da Netflix, extirpa o potencial das interações entre os antigos Defensores e soa mais protocolar do que invariavelmente artístico.

O time de diretores e roteiristas demonstra o esgotamento da fórmula com uma sequência de episódios mornos, quietos demais para gerar qualquer resposta audível. A montagem, que aposta numa pegada hacker que lembra os melhores dias de Mr. Robot, afunda os recursos nos cortes da paródia do prefeito.

The Grand Design conta com flashbacks e o retorno de Elden Henson como o advogado Foggy Nelson, e Toby Leonard Moore como o capanga Wilson (Foto: Disney+)

A grande e terrível coincidência de vermos um político usando a polícia como arma de caça e extermínio às minorias passa do campo da ficção para o retrato de uma realidade que não consegue pescar qualquer razão de ser ou “moral da história”. Os soldados da Força-Tarefa Anti-Vigilantes são interpretados com a ambivalência de uma porta, assim como as motivações de Fisk, um grande potencial sem previsão de concretude.

A morte de Vanessa (Ayelet Zurer), ponto de virada para o lado – mais – animalesco e desumano do Rei do Crime, é encarada com a apatia que reina em Renascido. A psicóloga Heather (Margarita Levieva), numa jornada pessoal de acerto de contas com o assassinato que ela cometeu sob pressão, até tenta extrair um pouco mais dos músculos de D’Onofrio, mas o resultado é quase nulo.

Krysten Ritter interpreta uma Jessica Jones mais madura, mas não menos estressada em Demolidor: Renascido (Foto: Disney+)

A coisa muda de cenário no apagar das luzes. O oitavo episódio, The Southern Cross, troca as ruelas pelo tribunal, colocando o prefeito e o justiceiro mascarado frente a frente. Com batidas dramáticas que vão de uma identidade secreta revelada e chegam ao quebra-pau entre o político e a população, a série enfim sacramenta a ideia que gerou a leitura da Marvel de Demolidor.

A ideia de que, apesar de atuarem em frentes opostas, herói e vilão partem de uma motivação comum e compartilhada. Pena que o processo, estafante para espectador e personagens, é tardio. Com as gravações da terceira temporada à todo vapor – e o retorno definitivo de Luke Cage para o centro da ação -, Demolidor: Renascido terá de seguir em frente e, quem sabe, aproveitar a mina de ouro que o advogado cego de Hell’s Kitchen sempre provou-se ser. 

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