A doença de Peyronie é caracterizada pela formação de fibrose (placas endurecidas) na túnica albugínea do pênis, causando curvatura, dor e, por vezes, encurtamento ou disfunção erétil. Tão rara quanto sensível, a condição é uma das fundações de DTF St. Louis, minissérie da HBO que oferece uma abordagem quasi-inédita da infidelidade conjugal.
Criada por Steve Conrad, roteirista de Extraordinário, A Vida Secreta de Walter Mitty e À Procura da Felicidade, a produção segue três indivíduos de meia-idade que se envolvem num triângulo amoroso, levando à morte prematura de um deles. A sinopse vende apenas o rótulo da produção, que tira seu nome de um app para encontros fora do casamento; DTF é sigla para down to fuck, disposto a transar.

A linha do tempo mostra o florescimento da amizade entre Clark (Jason Bateman), meteorologista local, e Floyd (David Harbour), intérprete da Língua de Sinais Americana nas transmissões do jornal. Em condições opostas de vida e privilégio, a dupla se envolve primeiro platonicamente, para depois integrarem um complicado trio amoroso com Carol (Linda Cardellini), esposa de Floyd que começa um caso com Clark.
Steve Conrad, no comando do roteiro e da direção dos sete capítulos, mescla o passado idôneo com um presente sombrio, quando o corpo de Floyd é encontrado ao lado de uma latinha e uma revista antiga com fotos pornográficas de homens. Desta meada, a série puxa um longo fio que perpassa as noções de monogamia, orientação sexual e o significada palpável de felicidade e completude.

Para investigar as suspeitas contra Clark, os detetives Homer (Richard Jenkins) e Plumb (Joy Sunday) farejam cada inconsistência, assim desembrulhando as estranhas e solenes relações entre os personagens principais. Esqueça todos os clichês e as representações de traição e raiva que a mídia constrói há anos na TV e no Cinema, e jogue pela janela qualquer suposição sobre o envolvimento físico, emocional e carnal de Clark, Floyd e Carol. DTF St. Louis usa isso em prol de uma história tocante e visceral sobre o poder do bem-estar.
A doença de Floyd, um mecanismo de roteiro que poderia se perder em meio ao drama, ao mistério e a resolução do caso, é parte fundamental da história, contribuindo para que Harbour, usando uma barriga falsa para explicitar o sobrepeso de seu personagem, entregue o melhor e mais rico trabalho da carreira. Suas escolhas na pele de Floyd são singulares e ambivalentes, dividindo cenas realmente especiais com Bateman e Cardellini, com o enteado vivido por Arlan Ruf e com um misterioso usuário do app, interpretado com seriedade e desenvoltura por Peter Sarsgaard.

Os sinais trocados entre Floyd e Clark são parte da linguagem “secreta” e particular deles, indo da cordialidade inicial para conversas profundas que não dão conta de serem transpostas em palavras audíveis. DTF St. Louis agrupa elementos incomuns (a bicicleta ergonômica, o aplicativo para sexo rápido, a revista temática de Indiana Jones) e traduz tudo na universal linguagem da solidão e do medo projetado de um amanhã vazio.


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