Cape Fear desarma o drama com terror cafona

Amy Adams encara Javier Bardem em versão seriada da história de vingança

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A cidade de Savannah, no estado da Geórgia, não é para os fracos: a umidade acaba com qualquer bem-estar, e as chuvas constantes caem em pancadas violentas e imprevisíveis. Na versão seriada de Cape Fear criada por Nick Antosca esse é o menor dos problemas de Anna (Amy Adams) e Tom (Patrick Wilson), um casal de advogados confrontado com o homem que sentenciaram a uma eternidade na prisão. E ele busca vingança.

Max Cady (Javier Bardem) passou dezessete anos atrás das grades, culminando numa saída prematura frente a circunstâncias extraordinárias: sua amante confessou o assassinato da ex-mulher grávida do detento, e logo depois estourou os miolos. O suicídio tirou Max do xadrez e levou-o ao evento chique organizado pela empresa de Anna, uma ONG voltada a libertar pessoas erroneamente sentenciadas pela Justiça.

Indicada ao Oscar pelo papel no filme de 91, Juliette Lewis retorna à Cape Fear com uma personagem inédita que lhe cai como luva (Foto: Apple TV)

Diferente da versão mais famosa da história, o filme de 1991 que Martin Scorsese dirigiu a partir do original da década de 60 (este, por si só, baseado no romance The Executioners, de John D. MacDonald), a série da Apple TV estica a história para abarcar as dez horas de conteúdo. Livremente inspirada nos acontecimentos anteriores, a visão de Nick Antosca mergulha no brega, no satírico e no paródico terror fajuto para entregar uma experiência que poderia ser aproveitada, talvez, numa sessão tarde da noite do Supercine – com música estranha e tudo incluso.

Antosca ostenta um currículo voltado a produções sem vergonha de seu gênesis cafona: ele é criador de The Act, Vingança Sabor Cereja e Candy, séries que abraçam o espetáculo e nem sempre se atentam aos alicerces dramáticos. Em Cape Fear, a falta de comunicação é o maior inimigo da família Bowden, com os pais advogados renomados falhando em entender as súplicas dos filhos, acabando de presente aos cuidados de Max.

Scorsese e Steven Spielberg assinam como produtores executivos, mas parece que os cargos são enfeites por contratos antigos (Foto: Apple TV)

Natalie (Lily Collias) cansou do status de adolescente modelo e decide se rebelar ao questionar a própria identidade: não ajuda que todos os possíveis candidatos ao posto de pai biológico compartilham os olhos claríssimos das lentes de contato do departamento de figurino da série. E, no caso de Zack (Joe Anders, filho de Kate Winslet com Sam Mendes), os problemas moram em territórios mais perigosos, com casos de quase-canibalismo e injeções que tiram sua personalidade para fazer caber o espírito do filho morto do vilão.

Entra na equação a tempestuosa Nevaeh (Malia Pyles, do reboot de Pretty Little Liars), uma adolescente igualmente maluca e inteligente, disposta a infernizar a casa (e o coração teen) dos filhos de Anna e Tom. Com segredos a rodo, o passado serve de local de esconderijo, enquanto o presente é lar do terror perpetrado por Max, interpretado por Bardem sem a fúria instantânea de outras iterações, e sim caminhando com paciência e calma pelo terreno pantanoso da situação toda.

No cabo de força que se forma entre o racional (a abordagem da polícia e da mídia pinta Anna como a histérica advogada que traiu o cliente e se casou com o advogado de acusação) e o passional (espere muitas tramas de paternidade, traição, revelações bombásticas e decisões impulsivas), Cape Fear abre mão da seriedade e brinca com as texturas do horror. A fotografia de Eben Bolter e Celiana Cárdenas costura filtros negativos, zooms invasivos e casa com a música estapafúrdia e extraordinária de Jeff Russo.

O elenco ganha o carisma e a presença de CCH Pounder, Margarita Levieva, Paul Schneider, Ron Perlman e Patrick Fischler, compondo uma pequena e atribulada comunidade (Foto:Apple TV)

Transformando a casa dos abastados membros da elite americana em armadilha, a série se desfaz do senso de segurança e proteção que a família branca e privilegiada costumava ter. Em Max, com seus olhos de cores distintas, tatuagens assustadoras e ligação com os orixás, a ameaça de um mal profundamente enraizado na injustiça é o que mais amedronta e preocupa a protagonista, vivida por Adams com um sotaque carregado e sem a sutileza que a atriz flexionou em outra minissérie de temas sensíveis, Sharp Objects, da HBO.

Quem esperava um tratamento refinado e demasiadamente cerebral para a história de um condenado em busca de vingança contra os advogados que o privaram da liberdade, vai detestar o tom cartunesco e anuviado de Cape Fear. Na direção, uma equipe de nomes consagrados no cenário atual da indústria faz o possível para se divertir com as convenções às avessas e a paródia tratada com sisudez. Vá avisado. 

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