Furious coloca mocinha e vilã em relação espelhada de culpa e vingança

Com Emmy Rossum e Lola Petticrew brilhantes em cena, drama do Hulu finca os dentes em temas sensíveis

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Temas da psique feminina não são novidade para a criadora Elizabeth Meriwether, que ostenta um currículo composto por New Girl, The Dropout e Morrendo por Sexo – mas é em Furious, drama que cresceu no boca a boca, que a roteirista encontra a tênue linha entre culpa e vingança. Na trama, uma agente do FBI persegue uma assassina em série com quem compartilha um passado indigesto e traumático.

Emmy Rossum (de Shameless) interpreta Alice Black, a protagonista “de boa moral” da trama, contracenando com a atuação animalesca e profundamente enraizada em delicadeza de Lola Petticrew, artista não-binárie que domina a cena e faz de Catherine Grace a personagem mais enigmática e impossível de esquecer da temporada. No jogo de gata e rata, a história de Furious se constrói em perspectivas divergentes, com foco num alvo comum – e que não tem nada a ver com Jeffrey Epstein.

Emmy Rossum assina também a produção executiva de Furious (Foto: Hulu)

A violência contra mulheres, neste caso adolescentes traficadas para uma rede de trabalho do sexo e abuso, permeia também a rotina de Nora Washington, agente que ganha no trabalho de Quincy Tyler Bernstine o tipo de magnetismo que vem de nascença. Ela é atormentada, mas também atormenta; ela é cobrada, mas também cobra. A ação conjunta entre o FBI de Alice e Nora é reforçada pela Polícia de NY, principalmente na figura de dois homens.

O primeiro é Danny Kelly (Scoot McNairy, de Nightbitch), parceiro platônico de Alice e o único a apoiá-la quando Marshall Connelly (Jake Lacy, de The White Lotus e All Her Fault), namorado de anos da agente, espancou a mulher ao ponto de levá-la ao mesmo hospital em que as vítimas de violência sexual são atendidas. As camadas de ressentimento e medo dos protagonistas compõem o núcleo imediato de Furious, mas não são os únicos elementos de sua consumação.

Lola Petticrew surgiu na mídia após o trabalho na minissérie Say Nothing, que lhe rendeu uma indicação ao BAFTA TV Award (Foto: Hulu)

Pois, do outro lado da corrida pela justiça, Catherine assume personalidades e visuais para mesclar-se ao cenário e continuar sua caçada. As perucas são terríveis – assim como o objetivo da mulher por trás dos disfarces, mas é na lábia e na fisicalidade de Petticrew que a assassina expressa sua motivação e seu objetivo. O roteiro apresenta Catherine como uma soturna e bem-resolvida profissional com conhecimentos técnicos e práticos para não apenas paralisar suas vítimas, mas fazê-las sofrer.

Contada tanto do ponto de vista da agente quanto da vigilante, Furious pesca influências da cultura pop mas entrega um produto final refinado e repleto da visceral pegada autoral de Meriwether. Com toques de Killing Eve (mulheres se perseguindo numa espiral de loucura e dependência), Red Rooms (quando invade a terra sem lei da internet) e O Silêncio dos Inocentes (frentes adversárias se unem em busca do inimigo maior), a série de drama do Hulu modula mistérios e resoluções para todos exaustos da fórmula do thriller travestido de inovador.

Depois de viver personagens intoleráveis em três grandes produções, Jake Lacy precisa de um papel diferente e que o tire da prisão do typecasting (Foto: Hulu)

 Na composição de um retrato multicolorido de vítimas, cúmplices e senhores do destino, Furious escala uma diversidade de atores historicamente subaproveitados na carreira e que encaram a chance atual com sangue nos olhos. Steve Way, de Ramy, vive um personagem com deficiência nada limitado ou deprimido, com a chance de brincar com o amor e a paixão pela primeira vez desde que surgiu no entretenimento.

Ao passo que Danny McCarthy, de Somebody Somewhere, compõe com propriedade o vil chefe de Nora envolvido mais do que deveria com os crimes de Jay Easton (papel de Peter McRobbie) e de sua filha Emma (Hope Davis, de Succession). Nos escritórios fechados por vidros e meias-verdades, o FBI ganha o lado canalha de Rob Yang. Nos apartamentos luxuosos das vítimas de Catherine, Rob Delaney (de Morrendo por Sexo) e Campbell Scott (de House of Cards) sangram suas virilidades e orgulhos para fins de catarse e horror.

Dirigido por Bob Rafelson e escrito por Ron Bass, o filme Black Widow acompanha a investigadora federal Alexandra Barnes, que passa a perseguir Catherine Peterson, uma golpista que se casa com homens ricos, os assassina e fica com suas heranças (Foto: Hulu)

Renovada para uma segunda temporada com um gancho ideal para fugir do óbvio e não cair no cíclico destino que acometeu Killing Eve, Furious pega o fio de inspiração do filme Black Widow (1987) e tira dele uma vistosa e cruel narrativa de acerto de contas com o passado. De olho na temporada de prêmios, o elenco e a equipe criativa não têm com o que se preocupar – isso se os votantes, assim como os espectadores, ficarem fissurados com as motivações gritantes de Alice e Catherine. 

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